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Um pequeno barulho sobre o silêncio.

Por 23 de outubro de 2017Artigos, Manifesto
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Que som fazem aquelas coisas não fazem barulho? Como soam? O piscar dos olhos, aquele momento entre o sono e o despertar, a sua língua secando por algum motivo que você não gostaria de revelar…

O silêncio existe em pequenas frações, entremeado em nossas ações diárias. Naquele microssegundo antes de pousarmos a caneca de café na mesa, um pouco antes daquele suspiro.
Mas ele também existe depois. Depois que batem a porta. Depois que desligamos o chuveiro. Depois que cansamos de chorar.
Cotidianamente o silêncio nos permite sobreviver em pequenas ilhas de lucidez, enquanto somos inundados por “som e fúria”. É comum, mesmo que de forma inconsciente, utilizar o silêncio para respirar aliviados, ou tomarmos um fôlego.

Mas não estamos falando de pessoas comuns. Estamos falando de atores.

Pessoas que possuem a qualidade de atentar para o ordinário e torna-lo extraordinário. Que têm como tarefa de vida, estar atentos e prontos. E estarmos atento para o silêncio pode nos trazer surpreendentes resultados.
Existe aquele silêncio da plateia antes do espetáculo começar; assim como existe aquele silêncio que nos invade antes de entrarmos em cena. Mas não é desse silêncio que estou falando. Além do quê, se você parar para viver esses silêncios que mencionei, o espetáculo não irá acontecer, e as pessoas ficarão extremamente chateadas.

O silêncio, que estou falando, possui uma particularidade: quando se faz presente, quando o percebemos, ele altera nossa percepção das coisas. Ele se instala. Você o percebe e você o vive, ao mesmo tempo.

Essa sensação pode acontecer em qualquer lugar, com qualquer um; mas nós, atores, temos uma vantagem: nós podemos produzir o silêncio. Somos capazes de o reproduzir, e de o utilizar de forma produtiva, esse momento que surgiu antes de tudo, antes de surgir qualquer coisa, tanto na mente humana, quanto no universo físico que conhecemos.

Perceba: Tudo que o chamamos de “real” são nossas impressões sobre tudo. Temos a impressão de andarmos em uma linda plana, mas o planeta é redondo. Temos a impressão de estarmos de “cabeça para cima”, mas no espaço não existe “cima”; e quem está do outro lado do globo também não está de “cabeça para baixo”. Temos a impressão de que o céu é azul, mas não é. E como a água é transparente, o mar não pode ser verde. E por aí vai.

Quando entramos em estado de “silêncio”, nossas impressões se modificam. Ou se modificam ou não importam; já não faz mais diferença nesse momento. Mas a nossa realidade é ampliada. Até o tempo se manifesta diferente. Já percebeu a diferença da duração das horas em um ensaio, e a duração do mesmo número de horas dentro de uma sala de aula chata?

No colégio, nas ruas, nos meios de transporte, na vida cotidiana como um todo, o que impera é o ruído. Não há melodia. Há uma sobreposição espalhafatosa e forçada de sons, que buscam te oprimir e te prender.
Quando você, em sua sala de ensaio, começa por buscar o silêncio. Primeiro dentro de você, depois com os outros, depois com o trabalho a ser realizado, nada te oprime e nada te prende, porque você alterou sua percepção das coisas, e assim sua realidade.

Lembrando que silêncio não é ausência de som. É sintonia.

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