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Tróilo & Créssida

Por 26 de agosto de 2016Crítica, Daquilo que vi
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No filme “Eu sou a Lenda” tem algo que me incomoda muito: quando a Anna (Alice Braga) enaltece o dr. Robert (Will Smith), deixando claro (pelo menos para mim, naquela época, em 2007) que a “lenda” em questão seria o tal dr., e que ele seria o salvador da humanidade, um “herói”. Eu me lembro de como fiquei incomodado, porque eu o achava um idiota, uma pessoa sem empatia, que não percebia algo óbvio (pelo menos para mim)… Mas isso foi antes de eu entender melhor sobre as múltiplas inteligências e o filme também não me dava tempo de me aprofundar no personagem, enfim… Mas eu me lembro de que no final do filme eu fiquei com isso na cabeça: “Mas de que raios é feito um herói?” – Lembrei na hora da “Receita para se fazer um herói” cantada pelo Ira!
Fui assistir “Tróilo e Créssida” da Cia da MATILDE, e novamente saí pensando e cantando sobre a fome, sobre o ódio e sobre nosso jeito irracional.
Parece que é a primeira montagem deste texto de Shakespeare em solo nacional, só isso já vale a conferida. Mas talvez por isso mesmo, o texto era o (meu) principal alvo, aquilo que mais me chamava a atenção.
Poderia falar das influências cênicas, das soluções, da banda, da estética e funcionalidade do figurino, do sarcasmo em que eram apresentadas as piadas… deixo isso por sua conta.
A peça é uma tragédia, logo tem um herói; é de Shakespeare, logo o herói morre no fim. E quem é que morre no fim da peça? (sem spoilers – vai que você não sabe nada sobre a Guerra de Tróia) morre um herói… mas não é Tróilo. Ninguém chamaria Tróilo de herói, por quê? E porque diabos a peça se chama “Tróilo e Créssida” então?

(AGORA SIM TEM SPOILERS)
Agora sim eu entendi porque ninguém chamaria Tróilo de herói… porque ele é fraco e vulgar. Porque defende uma guerra criada pelo amor (ou pelo Orgulho), mas é incapaz de defender seu próprio amor. Falta-lhe ódio, falta-lhe fome, falta-lhe o jeito irracional.
A morte que define a tragédia do espetáculo é a do seu amor. É ele quem morre. Que é assassinado. Destituído e destruído. O amor é o verdadeiro herói trágico desse espetáculo.
E infelizmente, por ele, ninguém clamará. É triste ser um herói de Shakespeare.

(ACABOU O SPOILER)
Mas vá! E note como a atriz Isis Valente continua excelente & como o ator Caio Merseguel é digno de todos os elogios que fazem dele.
Receita Para Se Fazer Um Herói
Toma-se um homem – Feito de nada como nós
Em tamanho natural
Embebe-se-lhe a carne – De um jeito irracional
Como a fome, como o ódio
Serve-se morto.

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