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Um pequeno barulho sobre o silêncio.

Por | Artigos, Manifesto | Sem comentários

Que som fazem aquelas coisas não fazem barulho? Como soam? O piscar dos olhos, aquele momento entre o sono e o despertar, a sua língua secando por algum motivo que você não gostaria de revelar…

O silêncio existe em pequenas frações, entremeado em nossas ações diárias. Naquele microssegundo antes de pousarmos a caneca de café na mesa, um pouco antes daquele suspiro.
Mas ele também existe depois. Depois que batem a porta. Depois que desligamos o chuveiro. Depois que cansamos de chorar.
Cotidianamente o silêncio nos permite sobreviver em pequenas ilhas de lucidez, enquanto somos inundados por “som e fúria”. É comum, mesmo que de forma inconsciente, utilizar o silêncio para respirar aliviados, ou tomarmos um fôlego.

Mas não estamos falando de pessoas comuns. Estamos falando de atores.

Pessoas que possuem a qualidade de atentar para o ordinário e torna-lo extraordinário. Que têm como tarefa de vida, estar atentos e prontos. E estarmos atento para o silêncio pode nos trazer surpreendentes resultados.
Existe aquele silêncio da plateia antes do espetáculo começar; assim como existe aquele silêncio que nos invade antes de entrarmos em cena. Mas não é desse silêncio que estou falando. Além do quê, se você parar para viver esses silêncios que mencionei, o espetáculo não irá acontecer, e as pessoas ficarão extremamente chateadas.

O silêncio, que estou falando, possui uma particularidade: quando se faz presente, quando o percebemos, ele altera nossa percepção das coisas. Ele se instala. Você o percebe e você o vive, ao mesmo tempo.

Essa sensação pode acontecer em qualquer lugar, com qualquer um; mas nós, atores, temos uma vantagem: nós podemos produzir o silêncio. Somos capazes de o reproduzir, e de o utilizar de forma produtiva, esse momento que surgiu antes de tudo, antes de surgir qualquer coisa, tanto na mente humana, quanto no universo físico que conhecemos.

Perceba: Tudo que o chamamos de “real” são nossas impressões sobre tudo. Temos a impressão de andarmos em uma linda plana, mas o planeta é redondo. Temos a impressão de estarmos de “cabeça para cima”, mas no espaço não existe “cima”; e quem está do outro lado do globo também não está de “cabeça para baixo”. Temos a impressão de que o céu é azul, mas não é. E como a água é transparente, o mar não pode ser verde. E por aí vai.

Quando entramos em estado de “silêncio”, nossas impressões se modificam. Ou se modificam ou não importam; já não faz mais diferença nesse momento. Mas a nossa realidade é ampliada. Até o tempo se manifesta diferente. Já percebeu a diferença da duração das horas em um ensaio, e a duração do mesmo número de horas dentro de uma sala de aula chata?

No colégio, nas ruas, nos meios de transporte, na vida cotidiana como um todo, o que impera é o ruído. Não há melodia. Há uma sobreposição espalhafatosa e forçada de sons, que buscam te oprimir e te prender.
Quando você, em sua sala de ensaio, começa por buscar o silêncio. Primeiro dentro de você, depois com os outros, depois com o trabalho a ser realizado, nada te oprime e nada te prende, porque você alterou sua percepção das coisas, e assim sua realidade.

Lembrando que silêncio não é ausência de som. É sintonia.

terra-natura

O Teatro é o Corpo em Verbo.

Por | Manifesto | Sem comentários

Você pode falar e se mexer. Isso não quer dizer que você esteja se expressando.
Expressar…
“Expressar” é sinônimo de “expor”, de “manifestar”. O que é preciso para você expor, manifestar?

Verdade e Vontade.

Para você atravessar andando de um poste ao outro em cima de um cabo de aço, você precisa de três coisas:
O cabo de aço, saber andar, e bom motivo para isso.

Ou seja, você precisa de ferramenta, conhecimento e força de vontade; querer.

O trabalho da atriz e do ator é viver em cima de um cabo de aço; ligando o que acontece no palco, com o que acontece no espectador.

As ferramentas a gente chama de técnica.
O conhecimento a gente de prática.

Que nome você dá para sua força de vontade? O que você quer?

Faculdades, escolas e cursos de teatro espalhados pelo mundo, normalmente se focam em apenas uma dessas 03 coisas: Milhões de pessoas vivenciam práticas e exercícios que não geram técnica, estimulam vontades, e iludem pessoas que acreditam que estão se formando “atores”.

Assim como outros milhões de pessoas estão repetindo movimentos, assimilando técnicas, na crença que sua “vida” e suas “vontades” serão suficientes para fazer um bom teatro.

Assim como também tem aqueles outros milhões que estão aí, sem experiência, sem técnica, gritando com suas vozes, corpos, e mentes, a suas “verdades” querendo serem atrativos, verossímeis, “reais”… acreditando que aquilo que são, bastam para tornar suas cenas atrativas e necessárias.

NÃO BASTA!

Não bastam laboratórios, exercícios, repetições, assimilações, conjecturas. Não bastam!

Isolados, só criam bobagens, “perfumaria”, “pirotecnia”, “para inglês ver”… só criam clichês, maneirismos, egos travestidos de sinceridade. Não doem em ninguém. Apenas incomodam. Não alteram a realidade, não criam maravilhas. Alguns, ainda conseguem ganhar aplausos.
Se é só isso que você quer, você está num péssimo caminho.

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“Não perca o foco, não perca a deixa, não perca a fala. Tanto na vida como na cena.”

Por | Artigos, Manifesto | Sem comentários

Atores e atrizes são atores e atrizes o tempo todo. Ser ator não é algo que se “desliga” – você nunca “está” ator, você “é” ator – e assim, sua ética, sua poética, seu aprendizado e treinamento, te acompanha dentro e fora da sala de ensaio, dentro e fora do palco.

Depois que você fez algum curso, alguma iniciação, e decidiu fazer dessa realidade a sua profissão, e não um hobby – Profissão vem do latim professio e significa professar publicamente: Uma confissão pública de um labor que você diz ter domínio e ter se especializado para sua execução. Quando você assume publicamente que faz Teatro, você assume o Teatro em você para o mundo. Isto significa que você não pode deixar de assumir o Teatro em você, para você mesmo.

Temos o mundo inteiro como um grande laboratório teatral. O trajeto da nossa casa até a sala de ensaio pode estar repleto de opções de treinamento e prática. O tempo todo e em todo lugar podemos criar um momento para nos conhecer melhor, e nos aprimorar, para ter um melhor resultado em cena. Sempre podemos encontrar um jeito de evoluir em nossa arte. Da mesma forma que sempre encontramos uma situação que podemos ser seres humanos melhores.

Assumir o Teatro em você, te permite tratar a vida como algo a ser experienciado, te permite ser o protagonista do seu cotidiano – e não apenas um passageiro, alguém que é simplesmente carregado pelos acontecimentos. Ser ator é ser atuante. É ser guerreiro e servidor.

A prática de nossa arte guerreira e servil nos torna aptos a reconhecer poesia, dança, personagens, cenas, nuances, onde a grande maioria das pessoas veem apenas fatos e coisas; a preparação física que passamos nos torna mais resistentes e flexíveis, nos protegendo tanto contra desgastes físicos da vida ordinária, como também dos desgastes mentais que podemos sofrer durante os debates com pessoas ordinárias. O nosso treinamento mental, nossos exercícios de memorização e atenção, nossa prática de coexistência – que nos ensina a ver e ouvir o outro, livre de opiniões preconceituadas, nossas revelações emocionais, nossas fragilidades assumidas, assimiladas, e expostas, se transformam em nossas táticas diárias de defesa e ataque.

Fazer teatro é sentir-se vivo. Ser ator é vivenciar a vida. Estar em cena é manifestar a Vida.

Dizemos que um ator nunca está formado, pois todo dia ele aprende algo, ele exercita algo, ele pode (e deve) colocar em função de seu ofício, cada dia, aquilo que lhe então, agora é novo. O ator sempre se renova, e sua arte é sempre nova. Ofício vem do latim Officiu: atividade que envolve a sociedade como um todo. A prática de seu officiu (Ofiiciis), significa: o dever de uma obrigação cumprida.

Ouvimos que o teatro está morrendo. É verdade. Na verdade, o teatro morre toda noite; E todo dia ele renasce. A cada minuto, a cada respiração sua, o teatro se fortalece. Ele vibra dentro de você, e isso contagia a sociedade como um todo.

Lembre-se que nosso corpo é formado em sua maior parte por água. Uma das funções do ator é aprender a locomover essa grande massa de água da melhor maneira possível. Aprender suas capacidades e ampliar os seus limites. Descobrir como e quando sermos firmes, capazes de perfurar a rocha; como e quando sermos flexíveis, e contornar os desafios; como e quando sermos translúcidos, e reflexivos, fazendo o mundo brilhar em nossa ótica… Nossas capacidades são infinitas.

Tenha orgulho de sua arte, e a manifeste todos os dias.

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O Teatro é a última trincheira da humanidade. Defenda-o.

Por | Artigos, Manifesto | Sem comentários

Diante de um oponente maior, ou de uma derrota iminente; ou você se rende ou foge; ou você é morto; ou você dinamiza aquilo que nos torna humanos, nosso “ser” e “fazer”, desperta suas potências, e cria um momento e um espaço para respirar, concentrar suas forças, planejar os próximos movimentos, propor os contra-ataques, vislumbrar uma situação melhor… Você faz uma trincheira.

Fazer trincheiras, apesar de serem bastante simples em termos de engenharia e tecnologia, é algo que possibilita tanto a defesa quanto o ataque; é manifestar sua existência, é expressar a sua recusa em aceitar alguma inferioridade que lhe está sendo imposta.

Nós fazemos teatro. E nos impomos. Manifestamos nossa existência perante nossos oponentes que parecem maiores, perante nossas derrotas que parecem inevitáveis. Lutamos cada dia, para apresentar o que há de humano para a própria humanidade. Enfrentamos conceitos, enfrentamos abstrações, enfrentamos razões irracionais, enfrentamos a subsistência, enfrentamos o descaso. E mesmo assim, nós fazemos teatro.

Nossos inimigos são perigosos porque se parecem conosco. Eles são falhos como nós somos, e acreditam que estão certos, do alto de sua iminente vitória, nos desprezam, a nós e o nosso ato de criar espetáculos, nossos ensaios, nossos coletivos, nossas redes e tramas… desprezam nosso ato de coragem. Mas nós temos uma vantagem: Nós fazemos teatro!

O teatro é a resposta dos fracos.

Aqueles que precisam pensar e agir. Aqueles que se esforçam para alcançar suas metas. Aqueles que precisam se unir para sobreviver. Aqueles que às vezes são obrigados a parecerem estáticos, enquanto se movimentam fora do alcance da visão, enquanto planejam, enquanto concentram suas forças.

O teatro é a resposta dos corajosos.

Aqueles que não se calam. Aqueles que não se submetem. Aqueles que olham para o gigante e não dizem “não temos como derrubá-lo”, mas pensam “não tem como não acertá-lo”.

O teatro é a resposta dos audazes. Dos que ousam. Dos impertinentes.

O Teatro é um ato de resistência, insistência e persistência.

É rebeldia. É proteger o que há de mais frágil e atacar onde é mais frágil. É ser humano diante de outro ser humano. É cavar trincheiras.

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Se você puder não fazer Teatro, não faça. Mas se você não tem outra opção… Por que a dúvida?

Por | Artigos, Manifesto | Sem comentários

Todos nós, quando percebemos que existe diferença entre brincar e fazer teatro, somos tomados pela mesma dúvida: Eu quero mesmo fazer teatro?

Ser ator é vocação; é exigência; é disponibilidade plena. É entregar nossas preciosidades a alguém que talvez não aceite, ou não entenda – mas isso não importa, porque insistiremos nesse ato até o fim. Porque ele é importante. É importante para nós.

Quando alguém me pede uma opinião, ou me pergunta em algum debate, se eu tenho uma boa sugestão para quem está pensando em começar a fazer teatro, eu sempre respondo que sim: “Não faça!

Se você está pensando em fazer teatro, quer dizer que está decidindo entre várias opções. Quem decide fazer teatro, não tem opção.

Se você perguntar para uma pessoa que tem o teatro como parte indissociável de sua vida, como foi que ela decidiu fazer teatro, é bem capaz que ela não saiba responder. Porque foi orgânico, foi natural. Fazer teatro faz parte de nossa natureza.

E lutar contra nossa natureza só machuca a nós mesmos.

Quando entramos numa sala de ensaio pela primeira vez, e ficamos descalços sem saber por que, quando damos as mãos e formamos aquela roda junto com alguns desconhecidos… quando começamos a jogar bolinhas, a correr atrás do outros, a repetir e decorar nomes de nossos companheiros… nós não fazemos ideia que aquilo que parecia apenas um momento divertido, iria invadir tão profundamente a nossa alma.

Possivelmente precisamos até nos afastar para perceber a falta que tudo isso nos faz. E as vezes nos afastamos. “Damos um tempo”. Quem é do teatro nunca para de fazer teatro, “dá um tempo”.

O teatro parece um ser vivo que habita em nós, com fome, que exige atenção; e quando nos afastamos por algum período, ele parece hibernar; mas de repente, esse ser, esse bicho adormecido, acorda, e começa a nos devorar por dentro, obrigando a gente a voltar a ensaiar, a voltar ficar descalço, formar uma roda com pessoas como nós… Aí você não se pergunta mais se quer fazer teatro ou não; porque você já sabe a resposta.

Não. Você não quer. Você precisa!

Você precisa daquele diretor amigo, ou não; bravo, ou não; engraçado, ou não. Precisa daquelas pessoas que te conhecem, ou não; que te admiram, ou não; e não importa, porque você não está lá para ser engraçado, conhecido ou admirado… sua necessidade de estar lá existe porque você sabe que precisa estar ali. Com aquelas pessoas que confiam em você. Com aquelas pessoas que também precisam de você. Teatro é comunhão.

Quando decidimos – e aceitamos – fazer teatro, não sentimos solidão – mesmo estando sozinhos. Nós sentimos solitude.

Solidão é um sentimento de abandono, de inutilidade, e trás, ou surge de, uma necessidade de companhia. E podemos viver essa situação mesmo cercado por pessoas que nos amam. Solitude é um estado em que estamos sós, recolhidos, mas repletos de satisfação. Porque estamos em paz com a gente mesmo.

E acredito que é isso que nos motiva a entrar para o teatro, ou escolher o teatro, ou a voltar para o teatro… Porque queremos estar em paz com a gente mesmo.

O Ator quando olha para fora, sonha. Quando olha para dentro, desperta!

O Ator quando olha para fora, sonha. Quando olha para dentro, desperta!

Por | Artigos | Sem comentários

Muitas pessoas acham que atores vivem de ilusão. Alguns atores também. Esses, vivem na ilusão.

Ser ator é viver repleto de responsabilidades. Você tem responsabilidade com seus companheiros de cena, com seu diretor, com o autor da obra, com os técnicos de som e luz, com os artistas que criaram o cenário, o figurino e a sonoplastia, com os serventes, os faxineiros, os bilheteiros… Você tem responsabilidade com seu público. Você tem responsabilidade com você mesmo.

Não é uma vida de glamour. O único brilho que faz sentido para o ator é o da luz que vem do holofote e que reflete no seu suor.

Não perca tempo vislumbrando a glória. Ator não tem glória, ator tem honra. E dignidade. Uma honrosa dignidade.

Muitos artistas de teatro acreditam que o texto é o principal em um espetáculo. Não é. Claro que o texto tem sua importância. Ele também foi criado à base de suor. Foi pensado, pesquisado, cortado, aumentado, diminuído, relido, apagado, reescrito… enfim, para que o texto fosse eficiente, também foi exigido do dramaturgo o seu melhor. Mas qual é a função do texto? Qual o objetivo, a necessidade, do texto?

O texto tem uma função apenas: ser útil. Ele existe para compor junto com as outras artes, com seu desejo de fazer o melhor espetáculo da noite.

Mas diferente do texto, o ator não tem somente a “função” de ser útil. “ser útil” é somente uma de suas responsabilidades. Ele também tem que ser alerta, disposto, atento, presente…

O ator não pode esquecer que ele é o dínamo transformador de realidades. A sua função é ser ao mesmo tempo a força e o centro de gravidade do espectador.

Nos mitos gregos havia um deus, um titã na verdade, chamado Prometeu. Ele foi condenado por ter roubado o fogo dos deuses e trazido aos homens. Prometeu trouxe um pouco do Olimpo para a Terra. Nunca passou pela cabeça de Prometeu levar os homens até ao Olimpo. Ser ator é ser melhor que Prometeu. O ator pode tanto nos levar, ou trazer para nós, um pouco do céu, ou um pouco do inferno. O ator possui a capacidade de nos dar acesso a um pouco de divindade. Mas esta divindade não está no alto de uma montanha, acima das nuvens, nos mundos subterrâneos, ou no fundo do mar, não. A divindade que o ator nos conduz a tocar está dentro de nós.

E talvez essa condição esteja acima daquilo que chamamos normalmente de “função”, ou “responsabilidade”… talvez devemos chamar de “vocação”. E cumprir sua vocação é algo mais exigente que decorar textos, ou não chegar atrasado no ensaio.

A vocação do ator exige aceitação e preparo. Exige que você pare de se iludir; que aprenda a pensar por si só; que aceite suas capacidades, habilidades e seus defeitos, com humildade; que pratique o amor, não o amor a você mesmo, mas à humanidade, que agora você serve.

Maya é um termo indiano que se refere ao conceito de ilusão do universo, como se tudo que se apresentasse diante de seus olhos fosse falso, um obstáculo que se impõe entre você e a verdade, tornando sua vida uma sucessão de sonhos que lhe seduzem e lhe impede de alcançar toda sua plenitude.

A vocação de ser ator exige que você desperte.