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O Teatro cria memória. Nossa memória é o que nós somos.

Por 3 de julho de 2017Artigos, Manifesto
human minds

“O que nós somos? Nós, como pessoas, como indivíduos? O que você é para você mesmo? Como você se reconhece para você mesmo? O que te faz, você, ser você? Como você sabe que você é você? Pela sua memória. Somente a sua lembrança, dos seus atos, do que você viu, do que você fez, só a intimidade da sua memória é o que te garante que você é você.

Não é apenas “Penso, logo existo”, isso é pouco. Nós, seres humanos somo mais, somos além. Você é muito mais, faz muito mais do que apenas existir. Uma pedra existe. Eu não sei se ela faz algo mais do que isso. Mas eu posso fazer algo mais com ela. Eu posso construir uma casa, ou possa atira-la em alguém… Mas o sentimento que isso irá me proporcionar, seja orgulho, seja vergonha, seja o que for, eu só vou conseguir vive-lo através da minha memória. São suas lembranças que fazem você saber se está feliz ou não. Se conquistou algo que você queria, ou não. Não é “penso, logo existo” é “Lembro, logo sou”. As nossas memórias são eternas, mesmo que elas aparentam não serem de fácil acesso. As suas primeiras vergonhas, se você lembrar delas agora, elas ainda doem. Se você lembrar do que você brincava quando era criança, você vai perceber que é o que você ainda faz, que é o que te deixa feliz. Porque quando você cria uma memória, você molda o que você é. Você é construído pelas suas memórias.

Existem três tipos de memória, e só existe uma coisa criada pela humanidade que afeta todos os três tipos de memória: a Arte. E cada memória tem suas subdivisões. E só existe uma arte que é capaz de afetar todas as subdivisões da memória humana, só uma arte é capaz de moldar, transformar, e recriar um universo inteiro de possibilidades: o Teatro.

Existem as chamadas memórias de longo, que assim que elas criadas elas formam uma trama, uma rede neural que sustenta todas as outras. Desde se vestir sozinho, desde não esquecer como se lê, todos os reconhecimentos dos sentidos, o prazer, a dor, o amor, tudo que você conhece no universo está sustentado em cima dessa rede de neurônios criadas pelas memórias de longo prazo.

Quando as caravelas de Colombo chegaram nas Américas, os nativos, não as viram. A caravela estava vindo e os nativos só viam o mar vazio. Não havia nos seus cérebros nada semelhante com aquelas estruturas, então aquilo não gerava imagem. Só quando estavam muito próximos que alguém conseguiu reconhecer que a água que estava se mexendo, bem depois que poderia ter algo parecido com uma árvore, algo que parece que é madeira, ali…Quando um deles conseguiu ver o primeiro barco, ele teve que mostrar com seu corpo, ele teve que representar o que estava vendo para que os outros pudessem ver. E foi só depois que esse mímico primitivo, possivelmente um ator da tribo, conseguiu expressar o que via, é que todos conseguiram ver. Nesse momento, no momento que a verdade apareceu, porque as caravelas não chegaram, para aquelas pessoas, as caravelas apareceram, foi criada um mudança total nas memórias de longo prazo daqueles nativos; aquele fato deixou de ser memória e se tornou história.
E quais foram as primeiras memórias que moldaram a sociedade? Além das pequenas memórias diárias e cotidianas, dos primeiros seres humanos; quais foram as primeiras grandes memórias daquela tribo? Daquele clã? Daquela comunidade? Daquela família? Daquela cidade? As primeiras grandes memórias se deram com o encontro com o Desconhecido; com o Mistério. E o nosso grande primeiro Desconhecido foi o mar. O mar era uma parede, era intransponível, inatravessável. O mar era o limite do mundo. Do mar vieram nossas primeiras lendas, nossos primeiros heróis, nossos primeiros mitos… O mar era um lugar que não permitia memórias, porque quem ia, não voltava. Até que alguém foi, e voltou. O primeiro navegante. E o fato de alguém encontrar uma maneira de ir para o mar e ir além, modificou a maneira de pensar dessas pessoas, criou novas memórias, novas sinapses, e aumentou o mundo. O mundo não acabava mais naquela linha horizontal que a gente enxergava, o mundo vai além do que os meus olhos enxergam; e ter a consciência disso foi uma imensa revolução.

Todos os povos que modificaram o mundo eram navegantes. Os gregos, os romanos, os ingleses, os vikings, os portugueses, os espanhóis, os chineses, os japoneses, os holandeses… a imensa maioria daqueles que transformaram a memória do mundo eram povos navegantes.

E em todas essas culturas, quando foi pensado na necessidade de se construir uma estrutura para que o ator que se apresentasse, as pessoas pediram ajuda para os navegantes, para os marinheiros. Antes os atores se apresentavam no mesmo nível dos espectadores, num chão de terra batida. Mas chegou um momento que era necessário uma estrutura melhor. Era necessário um chão melhor. E quem sabia fazer um grande chão de madeira, durável, sem falhas? Um grande convés? Os marinheiros. Depois precisávamos de cortinas, de tecidos para esconder coisas, e para revelar coisas. E quem sabia fazer grandes pedaços tecidos, que abriam, que dobravam, que eram móveis? Como se fossem grandes velas de um barco? Os marinheiros. E quem vai amarrar tudo isso? Os marinheiros. E quem vai levantar não-sei-o-quê? Os marinheiros. Os nossos primeiros técnicos de teatro, os primeiros engenheiros, arquitetos, cenógrafos, figurinistas, consultores… eram marinheiros. Não é a toa que se pegarmos esse palco aqui, e colocarmos na água, ele boia. E se colocarmos toda essa estrutura, com todos esses panos, essas velas, isso tudo que chamamos hoje de “palco italiano” e colocarmos no mar, ele navega.

A memória da humanidade, o seu encontro com o desconhecido, se materializa hoje, e como sempre foi, no palco.

Os primeiros marinheiros foram de encontro ao Desconhecido, os atores são os que ainda hoje, nos revela o Desconhecido.

E o que dizer do teatro? Daquilo que fazemos em cima desse barco de mistérios e ilusões? O teatro que é a mais fugaz das artes. O Teatro que assim que termina, que na última fala daquele ator, daquela atriz; que quando o iluminador abaixa a luz do último foco, lentamente; que quando não se ouve mais nenhum som… assim que a peça termina, o teatro acaba. Como algo pode ser tão frágil? E para isso, exigir um esforço tão grande? Tão milenar? Tão cheio de conhecimento, e inteligência, e criatividade, e paixões humanas? Como? E porquê?

Porque o teatro não tem fim. O teatro não acaba. O que acaba é a peça. Mas o teatro é eterno. E nós fazemos a mais poderosa das artes porque nós fazemos algo maravilhosamente bem e intrínseca a nossa existência: nós criamos memórias.

Quando um espectador assiste um espetáculo, ele não sai do teatro da mesma forma que ele entrou. Nós fizemos com que ele modificasse sua estrutura neural, isso se chama neuro-plasticidade, através da criação de uma nova memória.

Nós modificamos uma pessoa, nos tornamos parte dela, estamos para sempre na sua memória. E essa pessoa também fará parte da memória de outra pessoa, que fará parte de outra, de outra… Nós somos eternos.

Nós fazemos a mais poderosa obra humana, porque nossa obra é eterna; nós modificamos o mundo para sempre e o tempo todo. Por isso é tão grande a nossa responsabilidade, nós temos a responsabilidade de não fazer um teatro qualquer-coisa. Nós não podemos nos dar ao luxo de não fazer o nosso melhor teatro possível.”

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