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6-sobrebudismo

O porquê do Teatro dos 108 Desejos – parte II

Por | Artigos, Daquilo que vi, Teatro dos 108 Desejos | Sem comentários

Então o mundo se preparava para o Bug do Milênio. Havia um grande medo, gerando por um grande boato, baseado numa pequena ideia: e se os calendários internos dos computadores de todo mundo não entenderem a mudança do 99 (1999) para o 00 (2000), e zerar tudo, e assim todas as negociações, todos os acordos, toda transação feita pela internet simplesmente sumir?
Havia por perto o eterno companheiro da humanidade: o medo do fim. E o pessoal do teatro estava pronto para receber esse fim.

Pelo menos o pessoal do Teatro Oficina, em São Paulo, estava. Haviam organizando uma apresentação do espetáculo Bacantes, e eu estava lá. No meio do espetáculo, quando virou o ano de 2000, o teto do teatro se abre (sim, o teto do Oficina abre como um “teto solar”.) e está caindo uma suave chuva, e todos os participantes, atores, artistas, público, são convidados para pisar nas uvas que irá fazer o vinho de Dionísio, que será usado mais tarde no espetáculo. E eu estava lá. Pisando em uvas, recebendo a chuva, recebendo o novo ano – muitos não tinham percebido que ainda não era o novo milênio, inclusive eu. Á saber, quem lavou aquelas uvas durante a semana para serem usadas no espetáculo, fui eu. Aconteceram ensaios para quem quisesse atuar na peça, eu fui, mas eu decidi que queria ver acontecer, ser uma testemunha de um dos momentos mais legais que o teatro estava proporcionando no fim daquela década tão insana, estranha, e suicida. Mas para me sentir atuante de alguma forma, me candidatei para lavar as uvas. Valeu a pena.

Pessoas perderam roupas, pessoas tiraram as roupas voluntariamente, pessoas mamaram o leite das bacantes de suas próprias tetas. O espetáculo acabou, eram duas horas da manhã do dia 01 de janeiro, havia uma festa rolando em torno de um casal que conversava fascinados um com o outro. Bem, foi esse o começo de uma história de amor que vivi. E essa história durou muitos anos. E amor que não muda, acaba. E ela ia se mudar. Ia para uma faculdade no interior e eu queria que ela fosse feliz. Terminamos.

E um dia chega a notícia que ela estava namorando uma menina. E que estava apaixonada. E eu fiquei muito feliz. Ela era a mulher que eu mais tinha amado na vida, e estava amando. Eu só podia ficar feliz por ela. Porque ela havia encontrado aquilo que eu vivia. Eu só podia ficar feliz por ela e torcer para que aquilo durasse o tempo necessário para se transformar, e se tornar eterno e bom. A mulher da minha vida tinha encontrado a mulher da vida dela. Porra… eu achava isso maravilhoso!

E na mesma semana chega a notícia de que uma garota próxima de casa havia sido violentamente assassinada por ser lésbica. Isso me destruiu. Eu, que antes sorria e cantava pelo amor encontrado, comecei a sentir medo. Medo de que a mulher que eu amava poderia ser morta, simplesmente por amar outra mulher.

Eu não sabia o que fazer.

Eu decidi mudar o mundo. Se o mundo não é um lugar seguro para as pessoas que eu amo, eu iria fazer ser. Tive algumas ideias. Mas eu só sabia fazer teatro.

Então escrevi um texto chamado “Les”, que ganhou o Prêmio LGBT cedido pelo MinC. Esse texto foi apresentado em diversos lugares, e com o prêmio consegui pagar um ano de locação do espaço Satyros 2, na praça roosevelt. E nesse ano, eu escrevi e ensaiei mais dois espetáculos: “Eu queria ser a Cassia Eller” e “Conheci uma pessoa”. O “…Cássia…” foi assistido por uma quantidade imensa de casais formados por senhoras, o que me fez refletir muito sobre a solidão da mulher lésbica. O “Conheci…” foi escolhido para ser apresentado para as professoras do Ensino Fundamental II de São Bernardo do Campo, para poderem começar a entender, e gerar um diálogo, a respeito da homossexualidade que, na época, estava sendo reconhecida abertamente, inclusive em âmbito escolar. Essa apresentação ia ser num evento especial que acabou sendo cancelado (assim como outras ações LGBT na minha cidade…).

Com toda a experiência e estudo sobre o assunto, resolvi criar um grupo que só ia trabalhar nesta temática. E surgiu assim o Teatro dos 108 Desejos.

Um grupo destinado a acabar assim que fizer seus 108 espetáculos.

*Existe um momento na trajetória da Lua que cabem 108 luas entre a Terra e ela.
*Existem 108 saudações ao Sol na yoga.
*São 108 contas num colar budista.
*108 graus Fahrenheit é o limite que os órgãos internos aguentam, no corpo humano, antes de começarem a falhar.

A escolha de criar um grupo que irá fazer 108 espetáculos e terminar partiu da simples consciência de que se mesmo após tantas palavras escritas e faladas, tantas apresentações, tantas pessoas recebendo a mensagem, tantos esforços para por fim a homofobia, nada mudasse, não valeria mais a pena. Deveríamos pensar em outra coisa…

Ou se, pelo ao contrário, quando estreássemos o nosso 108º espetáculo, não houvesse mais homofobia, pelo menos digna de nota, não faria mais sentido ele existir, pois já tinha realizado sua missão.

O Teatro dos 108 Desejos nasceu para se tornar obsoleto. Esse é nosso maior desejo.

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O porquê do Teatro dos 108 Desejos – parte I

Por | Artigos, Teatro dos 108 Desejos | 2 Comentários

Esse texto abaixo existe porque uma vez, em uma conversa de bar, eu defendi uma questão em relação aos portadores da Síndrome de Down; e o cara em questão, me acusou de ser um fanfarrão, porque que eu apoiava Down, gay, mulher, negro, surdo, hindu, árabe… ele disse de forma bem grosseira que eu não sabia o que queria, porque não era possível alguém ser a favor de tanta gente…

 

Eu sempre quis ter filhos. Sempre. A primeira lembrança que eu tenho disso, eu devia ter 08, 09 anos. Eu amava a possibilidade de ter alguém que eu pudesse entender, já que eu não tinha ninguém que me entendia. Claro que era uma questão de ego. Mas não uma questão egoísta. Eu me achava tão mais esperto do que a maioria dos ursos, que acreditava que meu filho ia se sentir acolhido de um jeito que eu nunca fui, porque afinal eu ia ser o melhor pai do mundo. Ele nem ia precisar da mãe. Eu iria bastar para educar um dos melhores seres que o planeta já teria recebido em sua existência… Bem, eu tinha 08 anos… eu só gostava das meninas, não sabia ainda que elas eram necessárias para meus planos.

Quando eu fiz 14, eu sabia que meu filho seria uma menina. Eu já tinha escolhido diversos nomes, e imaginado diversas aventuras, onde eu – o melhor pai do mundo – era capaz de fazer minha filha sorrir muito. E sempre.

Quando eu fiz 18, percebi que eu não devia ter filhos. Eu já tinha visto muitas coisas ruins no mundo, e não era isso que eu queria para a minha criança. Eu queria que ela crescesse e se desenvolvesse e amasse e fosse feliz. Eu queria o que todo pai quer: dar as oportunidades que não teve. Por mais besta e simplório que seja esse pensamento, o desejo de fazer melhor do que os nossos pais faz parte da natureza, é quase impossível de evitar. Pelo menos em mim.

Eu percebi que meu filho podia nascer negro, e que o mundo não estava preparado ainda para entender a sua beleza.

Eu percebi que meu filho podia nascer com a Síndrome de Down, e que o mundo ainda não era inteligente o suficiente para se adaptar a ele.

Eu percebi que meu filho podia nascer surdo, e que isso tornaria o mundo cego para ele.

Eu percebi que meu filho podia nascer homossexual, e que meu amor por ele teria que ser mais forte que um mundo todo feito de ódio.

Eu percebi que meu filhos e minha filhas – nessa época eu já estava querendo alguns casais de gêmeos – poderiam ser iguais a milhões e milhões de outras pessoas. Pessoas que eram tratadas como se fossem minoria, e caso fossem – e não são, como se ser minoria fizesse alguém menos humano. Menos digno. Menos necessário.

Eu comecei então a estudar para tentar entender a situação e a realidade do negro, do Down, do surdo, do gay, da mulher… e fui fazer teatro na esperança vã de tornar o mundo um lugar mais seguro e confortável para a pessoa que mais amei na minha vida: meu filho que não nasceu.