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Por | Contos Curtos, Projeto Social | Sem comentários

“Foi uma coisa meio brilho, meio reflexo, foi algo que a fez piscar, deixando um pouco mais úmidos seus olhos. O ambiente estava elétrico, deixando as partículas de poeira mais agitadas, era fim de primavera, então o vento varria pólen pela cidade toda, o que fez irritar seus olhos, e a mucosa do seu nariz, fazendo com que respirasse um pouco mais forte, apenas umas duas vezes. O ar-condicionado tinha acabado de ser ligado, o choque térmico fez com os pelos dos seus braços se eriçassem, suas veias se comprimiram tornando sua pele um pouco mais branca, incluindo seus lábios. Eram reações imperceptíveis quando aconteciam separadamente uma da outra, mas tudo aconteceu no mesmo momento que ela ouvia uma desculpa esfarrapada dele sobre o fim-de-semana.
Você está chorando? Ele perguntou com a sensibilidade de um tronco petrificado.
É claro que não, seu idiota. Ela respondeu fungando tentando se livrar daquela coceira impertinente e esfregando os olhos fazendo-os ficarem mais vermelhos.
Ele sorriu. Não acreditando no que ela dizia, e entendendo tudo errado. Como sempre.”

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Por | Contos Curtos, Projeto Social | Um comentário

“Não consigo definir o contorno do teu seio, e não preciso. Minha vista embaçada pela manhã, me lembra de sorrir, e assim fico. Durante o dia, quando fujo para você, fecho os olhos, porque prefiro te ouvir, e te sentir por perto, e te sentir por dentro. A noite chega, e acendo velas. Com poucas luzes, me mostro e meu corpo tímido reflete o teu desejo. Me torno mulher em suas mãos. Durmo logo. Sempre. E me faz bem. Quando acordo, no nevoeiro do meu olhar, sou tua e você é minha. Seu sorriso é meu farol. E teu colo, meu porto seguro.”

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Por | Contos Curtos, Projeto Social | Sem comentários

“Eu já trinquei o cóccix numa aula de Educação Física. Já me quebraram um dente numa briga por causa de um misto quente. Já bateram na minha cara com uma garrafa. Já levei tiro de espingarda de chumbo. Já furei a perna em lança de portão, pulando para fugir de cachorro. Já enfiei uma faca nos dedos, brincando de furar a mesa enquanto a mão ficava se mexendo rápido. Já grampearam minha orelha junto com a de um outro moleque, porque eu dedurei quem tinha fumado no banheiro. Já me machuquei e já me machucaram muito nessa vida. E mesmo assim eu não estava preparado para te conhecer.”

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Por | Projeto Social | Sem comentários

“Você nem tentou roubar o último beijo, então ele não aconteceu. Nem soube dançar, então jogou o cabelo num tchau apressado. Nem tinha para onde ir, então desceu a rua fingindo pressa. Nem sabia o que dizer, então escreveu. Não entendeu que era amor. E nem quis saber.”

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Por | Projeto Social | Sem comentários

“Tinha aquele sorriso rápido. Do tipo que as pessoas se enganam, acreditando que se trata de um sorriso “fácil”. Não era nada fácil sorrir. Demorou para aprender. E treinou em sacar rápido o seu sorriso, como aqueles caras em filmes de faroeste sacavam suas armas. Não era uma boa arma, mas era tudo que ele tinha. Além de uma solidão crônica, uma angústia no peito, e um pedido de socorro em cada piada que fazia, e ria de si mesmo. Mas isso, ninguém sacava.”

Enfim…

Por | Projeto Social | Sem comentários

Enfim, terminou.

Pelo menos o primeiro.

Foram mais de 130 artistas, mais de 33 apresentações… Alguns artistas apareceram de última hora, para se apresentarem no saguão, ali, naquela tarde. Mesmo sem conhecer ninguém. Indo buscar seu público entre as crianças que brincavam na praça em frente ao teatro. Tão grande foi o desejo dos artistas da cidade de estarem presentes, de participarem junto com a gente.

Como foi dito no final da última apresentação: Abrimos agraciados com o grupo mais experiente desta cidade, e fechamos com o grupo mais inocente, mais novo… e ambos ansiosos por se manifestarem. E isso é mais do que um sintoma de nossa condição de “cidade do teatro”, é a nossa natureza! Vida longa a todos nós!

O público apareceu em peso: foram oficialmente 2.308 pessoas que nos assistiram. Pessoas interessadas em aplaudir, em rir, em pensar, em estarem em contato com outras.

Os técnicos da luz e som, as pessoas responsáveis pelo espaço físico, pela limpeza, pelo recebimento e segurança do público. Todos contribuíram, cedendo o que tinham de melhor. Cada um deles merecia um troféu.

Os bolos e tortas que alimentaram artistas, familiares, curiosos… tornaram mais agradáveis os nosso esforços.

O público desta cidade está ávido por teatro. Quem acompanhou as apresentações pôde ver. Eu acredito que eles merecem mais, e melhor, e sempre. E acredito que estamos dispostos a oferecer para eles o que temos, o que queremos, o que fazemos: nossos sonhos, nossos suores… nós.

Esse foi o tema do Santo de Casa: nós. Daqueles que criam laços. Daqueles que mudam o mundo.

Obrigado a todos que participaram desta!
(ano que vem tem mais!)

Ronaldo

Entrevista

Um artista inquieto sem medo de desafio

Por | Artigos, Notícias, Novidades, Projeto Social | Sem comentários

 

Fui entrevistado para o Guia da Cidade, de São Bernardo do Campo.

Cortaram algumas coisas… mas o resultado foi bacana.

 

De 1992, quando começou a fazer teatro, para cá, Ronaldo Ventura busca desvendar os mistérios da mímica, do circo, das danças tradicionais brasileiras. Estudou teatro clássico japonês e mergulhou no universo de mestres como Grotowski, Eugênio Barba e Luis Otávio Burnier. Neste mês, dois espetáculos encenados nos palcos da cidade têm, nos créditos, o nome deste ator, diretor, dramaturgo e escritor, que mora no bairro Paulicéia.

Guia da Cidade: Como sua formação em Educação Física ajuda a ser ator e diretor?

Ronaldo Ventura: A Educação Física estuda o corpo humano, suas possibilidades de movimento, suas potencialidades… E meu teatro sempre foi baseado no que o corpo do intérprete produz e representa. Enquanto ator, aprendi como dispor do meu corpo de uma maneira mais eficiente. Enquanto diretor, aprendi com a Educação Física como ajudar o ator a alcançar sua eficácia.

Há ligação entre a peça Bendita entre as mulheres e o projeto do grupo Teatro dos 108 Desejos?

Ronaldo Ventura: Há a ligação ideológica, que é combater a ignorância. As atrizes do Bendita entre as mulheres, a Ana Claudia Lima e Stela Ramos, me chamaram para participar do projeto porque conheciam o meu trabalho com o Teatro dos 108 Desejos. Juntos, fizemos um espetáculo bem bonito, que descreve a história real da primeira mulher condenada por amar outra mulher. Um tema urgente nos dias de hoje.

Ori Othello é uma adaptação da obra de Willian Shakespeare. Qual é o diferencial do espetáculo?

Ronaldo Ventura: O grande diferencial foi a pesquisa em cima da corporeidade da dança afro. O elenco se apropriou da dança afro para criar as ações dos personagens, isso criou uma movimentação dinâmica, rítmica e ativa.

Qual é o objetivo da dança dos Orixás? Qual é a relação com o espetáculo?

Ronaldo Ventura: A dança dos Orixás é uma dança mítica e mística. Mítica porque suas movimentações contam histórias. Os dramas e o cotidiano dos Orixás estão representados em sua dança. Mística porque sua psique, sua ética, suas potencias também estão presentes naqueles passos de dança. E isso gera uma força cênica e uma plástica que amplia e muito a presença do ator. Não foi uma questão religiosa, mas uma questão estética. Claro que tratada com todo o respeito que todas as crenças merecem.

De um passado recente para cá, toda vez que se fala sobre a produção cultural na cidade o nome do bairro Paulicéia vem à tona. Qual a importância do bairro neste contexto.

Ronaldo Ventura: A Paulicéia foi o maior berço cultural de São Bernardo do Campo numa época em que a cidade era um grande celeiro de arte e cultura. A Paulicéia formou artistas em todas as linguagens, muitos premiados internacionalmente. Lá, ainda moram dramaturgos de renome nacional, autores publicados, grandes nomes do balé nacional foram alunos da saudosa Miti Warangae, na Paulicéia; artistas plásticos como Sarro e Mikio, também produziram muitas de suas obras no bairro. Quando o Teatro Procópio Ferreira estava aberto, o bairro produzia sua própria agenda, e ocupava o espaço o ano todo. Juntos (Teatro Procópio Ferreira, Biblioteca Érico Veríssimo e CREC), promoviam um evento anual que se chamava “Desvairando a Paulicéia” que duravam dias, com apresentação de poetas, bandas, exposição de artes, de colecionadores de vinil, de selos, espetáculos de teatro, de dança…

O bairro tinha 21 grupos de teatro, vou repetir porque é inacreditável mesmo: 21 grupos de teatro, 8 grupos de dança (incluindo balé, sapateado, dança Moderna, sem contar os grupos das escolas de balé do bairro), 5 grafiteiros trabalhando profissionalmente, 2 corais cênicos, 19 bandas de rock… E nem vou falar do esporte, dos times de bocha que foram campeões algumas vezes, representando a cidade; no bairro havia uma sala que grupos de Capoeira Angola e Regional dividiam o mesmo espaço, sem conflito, algo único. Sem contar os encontros para a prática de Yoga, Liam Gong, Tai Chi Chuan, Gatebol, que aconteciam gratuitamente, por estímulo dos próprios moradores, e tudo isso num bairro afastado do Centro.