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Se tudo der errado…

Por | Manifesto | Sem comentários

Se tudo der errado eu viro parteiro de flores.
vou recolher frutos de árvores e arbustos.

Se tudo der errado eu viro apreciador de vidros e líquidos.
e brindarei em louvor a todos aqueles que deram certo.

Se tudo der errado eu serei aquele velho que fica rindo
comendo amendoim, querendo um caldo de cana, olhando para a bunda de alguém, lembrando de todas que deram certo, para as pessoas certas: aquelas que elas queriam.

Se tudo der errado eu viro piada, viro história, viro aquele cara que um dia “morou aqui, sabe, e fez tal coisa,e sumiu”.

Se tudo der errado eu viro apontador de estrelas, fazedor de suspiros, provador de pudim.

Se tudo der errado coçarei meu umbigo para sempre.

Se tudo der errado vou me preocupar em tirar a cadeira do sol.

Se tudo der errado, deixarei minhas filhas com dúvidas e atentas. Deixarei meus livros para suas poeiras. Esquecerei a batata e o peixe ardendo na fogueira.

Se tudo der errado, talvez tenha dado tudo certo. Eu que não prestei atenção.

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Um pequeno barulho sobre o silêncio.

Por | Artigos, Manifesto | Sem comentários

Que som fazem aquelas coisas não fazem barulho? Como soam? O piscar dos olhos, aquele momento entre o sono e o despertar, a sua língua secando por algum motivo que você não gostaria de revelar…

O silêncio existe em pequenas frações, entremeado em nossas ações diárias. Naquele microssegundo antes de pousarmos a caneca de café na mesa, um pouco antes daquele suspiro.
Mas ele também existe depois. Depois que batem a porta. Depois que desligamos o chuveiro. Depois que cansamos de chorar.
Cotidianamente o silêncio nos permite sobreviver em pequenas ilhas de lucidez, enquanto somos inundados por “som e fúria”. É comum, mesmo que de forma inconsciente, utilizar o silêncio para respirar aliviados, ou tomarmos um fôlego.

Mas não estamos falando de pessoas comuns. Estamos falando de atores.

Pessoas que possuem a qualidade de atentar para o ordinário e torna-lo extraordinário. Que têm como tarefa de vida, estar atentos e prontos. E estarmos atento para o silêncio pode nos trazer surpreendentes resultados.
Existe aquele silêncio da plateia antes do espetáculo começar; assim como existe aquele silêncio que nos invade antes de entrarmos em cena. Mas não é desse silêncio que estou falando. Além do quê, se você parar para viver esses silêncios que mencionei, o espetáculo não irá acontecer, e as pessoas ficarão extremamente chateadas.

O silêncio, que estou falando, possui uma particularidade: quando se faz presente, quando o percebemos, ele altera nossa percepção das coisas. Ele se instala. Você o percebe e você o vive, ao mesmo tempo.

Essa sensação pode acontecer em qualquer lugar, com qualquer um; mas nós, atores, temos uma vantagem: nós podemos produzir o silêncio. Somos capazes de o reproduzir, e de o utilizar de forma produtiva, esse momento que surgiu antes de tudo, antes de surgir qualquer coisa, tanto na mente humana, quanto no universo físico que conhecemos.

Perceba: Tudo que o chamamos de “real” são nossas impressões sobre tudo. Temos a impressão de andarmos em uma linda plana, mas o planeta é redondo. Temos a impressão de estarmos de “cabeça para cima”, mas no espaço não existe “cima”; e quem está do outro lado do globo também não está de “cabeça para baixo”. Temos a impressão de que o céu é azul, mas não é. E como a água é transparente, o mar não pode ser verde. E por aí vai.

Quando entramos em estado de “silêncio”, nossas impressões se modificam. Ou se modificam ou não importam; já não faz mais diferença nesse momento. Mas a nossa realidade é ampliada. Até o tempo se manifesta diferente. Já percebeu a diferença da duração das horas em um ensaio, e a duração do mesmo número de horas dentro de uma sala de aula chata?

No colégio, nas ruas, nos meios de transporte, na vida cotidiana como um todo, o que impera é o ruído. Não há melodia. Há uma sobreposição espalhafatosa e forçada de sons, que buscam te oprimir e te prender.
Quando você, em sua sala de ensaio, começa por buscar o silêncio. Primeiro dentro de você, depois com os outros, depois com o trabalho a ser realizado, nada te oprime e nada te prende, porque você alterou sua percepção das coisas, e assim sua realidade.

Lembrando que silêncio não é ausência de som. É sintonia.

terra-natura

O Teatro é o Corpo em Verbo.

Por | Manifesto | Sem comentários

Você pode falar e se mexer. Isso não quer dizer que você esteja se expressando.
Expressar…
“Expressar” é sinônimo de “expor”, de “manifestar”. O que é preciso para você expor, manifestar?

Verdade e Vontade.

Para você atravessar andando de um poste ao outro em cima de um cabo de aço, você precisa de três coisas:
O cabo de aço, saber andar, e bom motivo para isso.

Ou seja, você precisa de ferramenta, conhecimento e força de vontade; querer.

O trabalho da atriz e do ator é viver em cima de um cabo de aço; ligando o que acontece no palco, com o que acontece no espectador.

As ferramentas a gente chama de técnica.
O conhecimento a gente de prática.

Que nome você dá para sua força de vontade? O que você quer?

Faculdades, escolas e cursos de teatro espalhados pelo mundo, normalmente se focam em apenas uma dessas 03 coisas: Milhões de pessoas vivenciam práticas e exercícios que não geram técnica, estimulam vontades, e iludem pessoas que acreditam que estão se formando “atores”.

Assim como outros milhões de pessoas estão repetindo movimentos, assimilando técnicas, na crença que sua “vida” e suas “vontades” serão suficientes para fazer um bom teatro.

Assim como também tem aqueles outros milhões que estão aí, sem experiência, sem técnica, gritando com suas vozes, corpos, e mentes, a suas “verdades” querendo serem atrativos, verossímeis, “reais”… acreditando que aquilo que são, bastam para tornar suas cenas atrativas e necessárias.

NÃO BASTA!

Não bastam laboratórios, exercícios, repetições, assimilações, conjecturas. Não bastam!

Isolados, só criam bobagens, “perfumaria”, “pirotecnia”, “para inglês ver”… só criam clichês, maneirismos, egos travestidos de sinceridade. Não doem em ninguém. Apenas incomodam. Não alteram a realidade, não criam maravilhas. Alguns, ainda conseguem ganhar aplausos.
Se é só isso que você quer, você está num péssimo caminho.

human minds

O Teatro cria memória. Nossa memória é o que nós somos.

Por | Artigos, Manifesto | Sem comentários

“O que nós somos? Nós, como pessoas, como indivíduos? O que você é para você mesmo? Como você se reconhece para você mesmo? O que te faz, você, ser você? Como você sabe que você é você? Pela sua memória. Somente a sua lembrança, dos seus atos, do que você viu, do que você fez, só a intimidade da sua memória é o que te garante que você é você.

Não é apenas “Penso, logo existo”, isso é pouco. Nós, seres humanos somo mais, somos além. Você é muito mais, faz muito mais do que apenas existir. Uma pedra existe. Eu não sei se ela faz algo mais do que isso. Mas eu posso fazer algo mais com ela. Eu posso construir uma casa, ou possa atira-la em alguém… Mas o sentimento que isso irá me proporcionar, seja orgulho, seja vergonha, seja o que for, eu só vou conseguir vive-lo através da minha memória. São suas lembranças que fazem você saber se está feliz ou não. Se conquistou algo que você queria, ou não. Não é “penso, logo existo” é “Lembro, logo sou”. As nossas memórias são eternas, mesmo que elas aparentam não serem de fácil acesso. As suas primeiras vergonhas, se você lembrar delas agora, elas ainda doem. Se você lembrar do que você brincava quando era criança, você vai perceber que é o que você ainda faz, que é o que te deixa feliz. Porque quando você cria uma memória, você molda o que você é. Você é construído pelas suas memórias.

Existem três tipos de memória, e só existe uma coisa criada pela humanidade que afeta todos os três tipos de memória: a Arte. E cada memória tem suas subdivisões. E só existe uma arte que é capaz de afetar todas as subdivisões da memória humana, só uma arte é capaz de moldar, transformar, e recriar um universo inteiro de possibilidades: o Teatro.

Existem as chamadas memórias de longo, que assim que elas criadas elas formam uma trama, uma rede neural que sustenta todas as outras. Desde se vestir sozinho, desde não esquecer como se lê, todos os reconhecimentos dos sentidos, o prazer, a dor, o amor, tudo que você conhece no universo está sustentado em cima dessa rede de neurônios criadas pelas memórias de longo prazo.

Quando as caravelas de Colombo chegaram nas Américas, os nativos, não as viram. A caravela estava vindo e os nativos só viam o mar vazio. Não havia nos seus cérebros nada semelhante com aquelas estruturas, então aquilo não gerava imagem. Só quando estavam muito próximos que alguém conseguiu reconhecer que a água que estava se mexendo, bem depois que poderia ter algo parecido com uma árvore, algo que parece que é madeira, ali…Quando um deles conseguiu ver o primeiro barco, ele teve que mostrar com seu corpo, ele teve que representar o que estava vendo para que os outros pudessem ver. E foi só depois que esse mímico primitivo, possivelmente um ator da tribo, conseguiu expressar o que via, é que todos conseguiram ver. Nesse momento, no momento que a verdade apareceu, porque as caravelas não chegaram, para aquelas pessoas, as caravelas apareceram, foi criada um mudança total nas memórias de longo prazo daqueles nativos; aquele fato deixou de ser memória e se tornou história.
E quais foram as primeiras memórias que moldaram a sociedade? Além das pequenas memórias diárias e cotidianas, dos primeiros seres humanos; quais foram as primeiras grandes memórias daquela tribo? Daquele clã? Daquela comunidade? Daquela família? Daquela cidade? As primeiras grandes memórias se deram com o encontro com o Desconhecido; com o Mistério. E o nosso grande primeiro Desconhecido foi o mar. O mar era uma parede, era intransponível, inatravessável. O mar era o limite do mundo. Do mar vieram nossas primeiras lendas, nossos primeiros heróis, nossos primeiros mitos… O mar era um lugar que não permitia memórias, porque quem ia, não voltava. Até que alguém foi, e voltou. O primeiro navegante. E o fato de alguém encontrar uma maneira de ir para o mar e ir além, modificou a maneira de pensar dessas pessoas, criou novas memórias, novas sinapses, e aumentou o mundo. O mundo não acabava mais naquela linha horizontal que a gente enxergava, o mundo vai além do que os meus olhos enxergam; e ter a consciência disso foi uma imensa revolução.

Todos os povos que modificaram o mundo eram navegantes. Os gregos, os romanos, os ingleses, os vikings, os portugueses, os espanhóis, os chineses, os japoneses, os holandeses… a imensa maioria daqueles que transformaram a memória do mundo eram povos navegantes.

E em todas essas culturas, quando foi pensado na necessidade de se construir uma estrutura para que o ator que se apresentasse, as pessoas pediram ajuda para os navegantes, para os marinheiros. Antes os atores se apresentavam no mesmo nível dos espectadores, num chão de terra batida. Mas chegou um momento que era necessário uma estrutura melhor. Era necessário um chão melhor. E quem sabia fazer um grande chão de madeira, durável, sem falhas? Um grande convés? Os marinheiros. Depois precisávamos de cortinas, de tecidos para esconder coisas, e para revelar coisas. E quem sabia fazer grandes pedaços tecidos, que abriam, que dobravam, que eram móveis? Como se fossem grandes velas de um barco? Os marinheiros. E quem vai amarrar tudo isso? Os marinheiros. E quem vai levantar não-sei-o-quê? Os marinheiros. Os nossos primeiros técnicos de teatro, os primeiros engenheiros, arquitetos, cenógrafos, figurinistas, consultores… eram marinheiros. Não é a toa que se pegarmos esse palco aqui, e colocarmos na água, ele boia. E se colocarmos toda essa estrutura, com todos esses panos, essas velas, isso tudo que chamamos hoje de “palco italiano” e colocarmos no mar, ele navega.

A memória da humanidade, o seu encontro com o desconhecido, se materializa hoje, e como sempre foi, no palco.

Os primeiros marinheiros foram de encontro ao Desconhecido, os atores são os que ainda hoje, nos revela o Desconhecido.

E o que dizer do teatro? Daquilo que fazemos em cima desse barco de mistérios e ilusões? O teatro que é a mais fugaz das artes. O Teatro que assim que termina, que na última fala daquele ator, daquela atriz; que quando o iluminador abaixa a luz do último foco, lentamente; que quando não se ouve mais nenhum som… assim que a peça termina, o teatro acaba. Como algo pode ser tão frágil? E para isso, exigir um esforço tão grande? Tão milenar? Tão cheio de conhecimento, e inteligência, e criatividade, e paixões humanas? Como? E porquê?

Porque o teatro não tem fim. O teatro não acaba. O que acaba é a peça. Mas o teatro é eterno. E nós fazemos a mais poderosa das artes porque nós fazemos algo maravilhosamente bem e intrínseca a nossa existência: nós criamos memórias.

Quando um espectador assiste um espetáculo, ele não sai do teatro da mesma forma que ele entrou. Nós fizemos com que ele modificasse sua estrutura neural, isso se chama neuro-plasticidade, através da criação de uma nova memória.

Nós modificamos uma pessoa, nos tornamos parte dela, estamos para sempre na sua memória. E essa pessoa também fará parte da memória de outra pessoa, que fará parte de outra, de outra… Nós somos eternos.

Nós fazemos a mais poderosa obra humana, porque nossa obra é eterna; nós modificamos o mundo para sempre e o tempo todo. Por isso é tão grande a nossa responsabilidade, nós temos a responsabilidade de não fazer um teatro qualquer-coisa. Nós não podemos nos dar ao luxo de não fazer o nosso melhor teatro possível.”

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fragmento do texto “Camélia – o que há de mais precioso”

Por | Manifesto | Sem comentários

“Nunca entendi política. Nunca gostei. Nunca fez sentido para mim. De repente eu vivia num império, que vira uma república, depois se torna um estado alemão… Vou para Cuba, é um paraíso, depois vira um lugar horrível onde eu vi homens fardados arrancarem instrumentos de uma banda de jazz no meio de uma apresentação, porque o saxofone era um instrumento imperialista. Política para mim, sempre foi uma daquelas brincadeiras entre homens que me faziam o menor sentido.

O dia Internacional na Mulher é uma conquista política das mulheres russas; eu fiquei 05 dias ouvindo sobre isso, sei tudo de cor e salteado. Quando eu era criança, tinha 11 anos, em Viena, vi milhares de mulheres se manifestando por melhores condições. Achei muito bonito aquilo: milhares de mulheres. Eram mulheres que queriam algo que eu não fazia ideia do que era, mas eram diferentes de todas as mulheres que eu conhecia e não queriam nada. Talvez tenha sido na Rússia que tenha percebido que eu era realmente internacional, com meus sapatos de couro, e as mulheres russas com tecidos amarrados nos pés, porque não havia sapatos. A política não permitia. Como eu ia entender isso?

Depois fui para o Japão e lá entendi que eu era mulher. Sob os olhares rasgados e sendo tocada com toda a delicadeza de uma mestra ceramista, eu percebi que o “8” do mês de março, na verdade é o símbolo do infinito. Ser mulher é uma condição infinita. Eu nunca me amei tanto, quanto o que fui amada na ponta daqueles dedos.”

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Discurso de abertura da mostra Santo de Casa.

Por | Aviso Importante, Daquilo que vi, Manifesto, Notícias, Novidades | Sem comentários

“O Teatro é a última trincheira da humanidade. Defenda-o.”

Diante de um oponente maior, ou de uma derrota iminente; ou você se rende ou foge; ou você é morto; ou você dinamiza aquilo que nos torna humanos, nosso “ser” e “fazer”, desperta suas potências, e cria um momento e um espaço para respirar, concentrar suas forças, planejar os próximos movimentos, propor os contra-ataques, vislumbrar uma situação melhor… Você faz uma trincheira.

Fazer trincheiras, apesar de serem bastante simples em termos de engenharia e tecnologia, é algo que possibilita tanto a defesa quanto o ataque; é manifestar sua existência, é expressar a sua recusa em aceitar alguma inferioridade que lhe está sendo imposta.

Nós fazemos teatro. E nos impomos. Manifestamos nossa existência perante nossos oponentes que parecem maiores, perante nossas derrotas que parecem inevitáveis. Lutamos cada dia, para apresentar o que há de humano para a própria humanidade. Enfrentamos conceitos, enfrentamos abstrações, enfrentamos razões irracionais, enfrentamos a subsistência, enfrentamos o descaso. E mesmo assim, nós fazemos teatro.

Nossos inimigos são perigosos porque se parecem conosco. Eles são falhos como nós somos, e acreditam que estão certos, do alto de sua iminente vitória, nos desprezam, a nós e o nosso ato de criar espetáculos, nossos ensaios, nossos coletivos, nossas redes e tramas… desprezam nosso ato de coragem. Mas nós temos uma vantagem: Nós fazemos teatro!

O teatro é a resposta dos fracos. – Aqueles que precisam pensar e agir. Aqueles que se esforçam para alcançar suas metas. Aqueles que precisam se unir para sobreviver. Aqueles que às vezes são obrigados a parecerem estáticos, enquanto se movimentam fora do alcance da visão, enquanto planejam, enquanto concentram suas forças.

O teatro é a resposta dos corajosos. – Aqueles que não se calam. Aqueles que não se submetem. Aqueles que olham para o gigante e não dizem “não temos como derrubá-lo”, mas pensam “não tem como não acertá-lo”.

O teatro é a resposta dos audazes. Dos que ousam. Dos impertinentes.

O Teatro é um ato de resistência, insistência e persistência.

É rebeldia. É proteger o que há de mais frágil e atacar onde é mais frágil. É ser humano diante de outro ser humano. É cavar trincheiras.

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“Não perca o foco, não perca a deixa, não perca a fala. Tanto na vida como na cena.”

Por | Artigos, Manifesto | Sem comentários

Atores e atrizes são atores e atrizes o tempo todo. Ser ator não é algo que se “desliga” – você nunca “está” ator, você “é” ator – e assim, sua ética, sua poética, seu aprendizado e treinamento, te acompanha dentro e fora da sala de ensaio, dentro e fora do palco.

Depois que você fez algum curso, alguma iniciação, e decidiu fazer dessa realidade a sua profissão, e não um hobby – Profissão vem do latim professio e significa professar publicamente: Uma confissão pública de um labor que você diz ter domínio e ter se especializado para sua execução. Quando você assume publicamente que faz Teatro, você assume o Teatro em você para o mundo. Isto significa que você não pode deixar de assumir o Teatro em você, para você mesmo.

Temos o mundo inteiro como um grande laboratório teatral. O trajeto da nossa casa até a sala de ensaio pode estar repleto de opções de treinamento e prática. O tempo todo e em todo lugar podemos criar um momento para nos conhecer melhor, e nos aprimorar, para ter um melhor resultado em cena. Sempre podemos encontrar um jeito de evoluir em nossa arte. Da mesma forma que sempre encontramos uma situação que podemos ser seres humanos melhores.

Assumir o Teatro em você, te permite tratar a vida como algo a ser experienciado, te permite ser o protagonista do seu cotidiano – e não apenas um passageiro, alguém que é simplesmente carregado pelos acontecimentos. Ser ator é ser atuante. É ser guerreiro e servidor.

A prática de nossa arte guerreira e servil nos torna aptos a reconhecer poesia, dança, personagens, cenas, nuances, onde a grande maioria das pessoas veem apenas fatos e coisas; a preparação física que passamos nos torna mais resistentes e flexíveis, nos protegendo tanto contra desgastes físicos da vida ordinária, como também dos desgastes mentais que podemos sofrer durante os debates com pessoas ordinárias. O nosso treinamento mental, nossos exercícios de memorização e atenção, nossa prática de coexistência – que nos ensina a ver e ouvir o outro, livre de opiniões preconceituadas, nossas revelações emocionais, nossas fragilidades assumidas, assimiladas, e expostas, se transformam em nossas táticas diárias de defesa e ataque.

Fazer teatro é sentir-se vivo. Ser ator é vivenciar a vida. Estar em cena é manifestar a Vida.

Dizemos que um ator nunca está formado, pois todo dia ele aprende algo, ele exercita algo, ele pode (e deve) colocar em função de seu ofício, cada dia, aquilo que lhe então, agora é novo. O ator sempre se renova, e sua arte é sempre nova. Ofício vem do latim Officiu: atividade que envolve a sociedade como um todo. A prática de seu officiu (Ofiiciis), significa: o dever de uma obrigação cumprida.

Ouvimos que o teatro está morrendo. É verdade. Na verdade, o teatro morre toda noite; E todo dia ele renasce. A cada minuto, a cada respiração sua, o teatro se fortalece. Ele vibra dentro de você, e isso contagia a sociedade como um todo.

Lembre-se que nosso corpo é formado em sua maior parte por água. Uma das funções do ator é aprender a locomover essa grande massa de água da melhor maneira possível. Aprender suas capacidades e ampliar os seus limites. Descobrir como e quando sermos firmes, capazes de perfurar a rocha; como e quando sermos flexíveis, e contornar os desafios; como e quando sermos translúcidos, e reflexivos, fazendo o mundo brilhar em nossa ótica… Nossas capacidades são infinitas.

Tenha orgulho de sua arte, e a manifeste todos os dias.

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O Teatro é a última trincheira da humanidade. Defenda-o.

Por | Artigos, Manifesto | Sem comentários

Diante de um oponente maior, ou de uma derrota iminente; ou você se rende ou foge; ou você é morto; ou você dinamiza aquilo que nos torna humanos, nosso “ser” e “fazer”, desperta suas potências, e cria um momento e um espaço para respirar, concentrar suas forças, planejar os próximos movimentos, propor os contra-ataques, vislumbrar uma situação melhor… Você faz uma trincheira.

Fazer trincheiras, apesar de serem bastante simples em termos de engenharia e tecnologia, é algo que possibilita tanto a defesa quanto o ataque; é manifestar sua existência, é expressar a sua recusa em aceitar alguma inferioridade que lhe está sendo imposta.

Nós fazemos teatro. E nos impomos. Manifestamos nossa existência perante nossos oponentes que parecem maiores, perante nossas derrotas que parecem inevitáveis. Lutamos cada dia, para apresentar o que há de humano para a própria humanidade. Enfrentamos conceitos, enfrentamos abstrações, enfrentamos razões irracionais, enfrentamos a subsistência, enfrentamos o descaso. E mesmo assim, nós fazemos teatro.

Nossos inimigos são perigosos porque se parecem conosco. Eles são falhos como nós somos, e acreditam que estão certos, do alto de sua iminente vitória, nos desprezam, a nós e o nosso ato de criar espetáculos, nossos ensaios, nossos coletivos, nossas redes e tramas… desprezam nosso ato de coragem. Mas nós temos uma vantagem: Nós fazemos teatro!

O teatro é a resposta dos fracos.

Aqueles que precisam pensar e agir. Aqueles que se esforçam para alcançar suas metas. Aqueles que precisam se unir para sobreviver. Aqueles que às vezes são obrigados a parecerem estáticos, enquanto se movimentam fora do alcance da visão, enquanto planejam, enquanto concentram suas forças.

O teatro é a resposta dos corajosos.

Aqueles que não se calam. Aqueles que não se submetem. Aqueles que olham para o gigante e não dizem “não temos como derrubá-lo”, mas pensam “não tem como não acertá-lo”.

O teatro é a resposta dos audazes. Dos que ousam. Dos impertinentes.

O Teatro é um ato de resistência, insistência e persistência.

É rebeldia. É proteger o que há de mais frágil e atacar onde é mais frágil. É ser humano diante de outro ser humano. É cavar trincheiras.

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Se você puder não fazer Teatro, não faça. Mas se você não tem outra opção… Por que a dúvida?

Por | Artigos, Manifesto | Sem comentários

Todos nós, quando percebemos que existe diferença entre brincar e fazer teatro, somos tomados pela mesma dúvida: Eu quero mesmo fazer teatro?

Ser ator é vocação; é exigência; é disponibilidade plena. É entregar nossas preciosidades a alguém que talvez não aceite, ou não entenda – mas isso não importa, porque insistiremos nesse ato até o fim. Porque ele é importante. É importante para nós.

Quando alguém me pede uma opinião, ou me pergunta em algum debate, se eu tenho uma boa sugestão para quem está pensando em começar a fazer teatro, eu sempre respondo que sim: “Não faça!

Se você está pensando em fazer teatro, quer dizer que está decidindo entre várias opções. Quem decide fazer teatro, não tem opção.

Se você perguntar para uma pessoa que tem o teatro como parte indissociável de sua vida, como foi que ela decidiu fazer teatro, é bem capaz que ela não saiba responder. Porque foi orgânico, foi natural. Fazer teatro faz parte de nossa natureza.

E lutar contra nossa natureza só machuca a nós mesmos.

Quando entramos numa sala de ensaio pela primeira vez, e ficamos descalços sem saber por que, quando damos as mãos e formamos aquela roda junto com alguns desconhecidos… quando começamos a jogar bolinhas, a correr atrás do outros, a repetir e decorar nomes de nossos companheiros… nós não fazemos ideia que aquilo que parecia apenas um momento divertido, iria invadir tão profundamente a nossa alma.

Possivelmente precisamos até nos afastar para perceber a falta que tudo isso nos faz. E as vezes nos afastamos. “Damos um tempo”. Quem é do teatro nunca para de fazer teatro, “dá um tempo”.

O teatro parece um ser vivo que habita em nós, com fome, que exige atenção; e quando nos afastamos por algum período, ele parece hibernar; mas de repente, esse ser, esse bicho adormecido, acorda, e começa a nos devorar por dentro, obrigando a gente a voltar a ensaiar, a voltar ficar descalço, formar uma roda com pessoas como nós… Aí você não se pergunta mais se quer fazer teatro ou não; porque você já sabe a resposta.

Não. Você não quer. Você precisa!

Você precisa daquele diretor amigo, ou não; bravo, ou não; engraçado, ou não. Precisa daquelas pessoas que te conhecem, ou não; que te admiram, ou não; e não importa, porque você não está lá para ser engraçado, conhecido ou admirado… sua necessidade de estar lá existe porque você sabe que precisa estar ali. Com aquelas pessoas que confiam em você. Com aquelas pessoas que também precisam de você. Teatro é comunhão.

Quando decidimos – e aceitamos – fazer teatro, não sentimos solidão – mesmo estando sozinhos. Nós sentimos solitude.

Solidão é um sentimento de abandono, de inutilidade, e trás, ou surge de, uma necessidade de companhia. E podemos viver essa situação mesmo cercado por pessoas que nos amam. Solitude é um estado em que estamos sós, recolhidos, mas repletos de satisfação. Porque estamos em paz com a gente mesmo.

E acredito que é isso que nos motiva a entrar para o teatro, ou escolher o teatro, ou a voltar para o teatro… Porque queremos estar em paz com a gente mesmo.

Se você puder não fazer Teatro, não faça. Mas se você não tem outra opção… Por que a dúvida?

Por | Artigos, Manifesto | Sem comentários

Todos nós, quando percebemos que existe diferença entre brincar e fazer teatro, somos tomados pela mesma dúvida: Eu quero mesmo fazer teatro?

Ser ator é vocação; é exigência; é disponibilidade plena. É entregar nossas preciosidades a alguém que talvez não aceite, ou não entenda – mas isso não importa, porque insistiremos nesse ato até o fim. Porque ele é importante. É importante para nós.

Quando alguém me pede uma opinião, ou me pergunta em algum debate, se eu tenho uma boa sugestão para quem está pensando em começar a fazer teatro, eu sempre respondo que sim: “Não faça!

Se você está pensando em fazer teatro, quer dizer que está decidindo entre várias opções. Quem decide fazer teatro, não tem opção.

Se você perguntar para uma pessoa que tem o teatro como parte indissociável de sua vida, como foi que ela decidiu fazer teatro, é bem capaz que ela não saiba responder. Porque foi orgânico, foi natural. Fazer teatro faz parte de nossa natureza.

E lutar contra nossa natureza só machuca a nós mesmos.

Quando entramos numa sala de ensaio pela primeira vez, e ficamos descalços sem saber por que, quando damos as mãos e formamos aquela roda junto com alguns desconhecidos… quando começamos a jogar bolinhas, a correr atrás do outros, a repetir e decorar nomes de nossos companheiros… nós não fazemos ideia que aquilo que parecia apenas um momento divertido, iria invadir tão profundamente a nossa alma.

Possivelmente precisamos até nos afastar para perceber a falta que tudo isso nos faz. E as vezes nos afastamos. “Damos um tempo”. Quem é do teatro nunca para de fazer teatro, “dá um tempo”.

O teatro parece um ser vivo que habita em nós, com fome, que exige atenção; e quando nos afastamos por algum período, ele parece hibernar; mas de repente, esse ser, esse bicho adormecido, acorda, e começa a nos devorar por dentro, obrigando a gente a voltar a ensaiar, a voltar ficar descalço, formar uma roda com pessoas como nós… Aí você não se pergunta mais se quer fazer teatro ou não; porque você já sabe a resposta.

Não. Você não quer. Você precisa!

Você precisa daquele diretor amigo, ou não; bravo, ou não; engraçado, ou não. Precisa daquelas pessoas que te conhecem, ou não; que te admiram, ou não; e não importa, porque você não está lá para ser engraçado, conhecido ou admirado… sua necessidade de estar lá existe porque você sabe que precisa estar ali. Com aquelas pessoas que confiam em você. Com aquelas pessoas que também precisam de você. Teatro é comunhão.

Quando decidimos – e aceitamos – fazer teatro, não sentimos solidão – mesmo estando sozinhos. Nós sentimos solitude.

Solidão é um sentimento de abandono, de inutilidade, e trás, ou surge de, uma necessidade de companhia. E podemos viver essa situação mesmo cercado por pessoas que nos amam. Solitude é um estado em que estamos sós, recolhidos, mas repletos de satisfação. Porque estamos em paz com a gente mesmo.

E acredito que é isso que nos motiva a entrar para o teatro, ou escolher o teatro, ou a voltar para o teatro… Porque queremos estar em paz com a gente mesmo.