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“Grande Altar ou Palco de Miseráveis Notáveis” do Grupo Brinquedo Torto.

Por | Crítica, Daquilo que vi, Espetáculos | 2 Comentários

Então lá estou vendo mais um espetáculo do Brinquedo Torto. E ele começa e eu não consigo parar de pensar “o que é que isso está me parecendo?”

O espetáculo falando de um megalomaníaco dono de meios de comunicação (“Cidadão Kane”? não… muito antigo para ser uma referência para algo tão atual quanto a temática do espetáculo.)

Ao fundo, ao longo das cenas, eu vejo as personagens como se estivessem “penduradas”, “desligadas”, “em off”… esperando apertarem o botão para “serem ligadas” (“Blade Runner”? não… dark demais para tanto brilho, glitter, pixel…)

Mas tudo bem, sou levado pela fábula, adorando alguns youtubers e odiando outros – afinal, não é essa a sua função? Serem os novos gladiadores nesse pão e circo tosco (ou T.O.S.C.O.) de qualidade duvidosa e gratuita?

No momento perto do fim, vem a voz da força superior e diz a todos que eles estavam cegos. (uma espécie de “Édipoás avessas, onde o castigo é nunca mais fechar os olhos e afogar a consciência num esgoto sem fim? Não… ainda não é isso)
Mas quando pedem o like e a inscrição num novo canal, me cai a ficha (algo velho “cair a ficha”, mas respeitem meus cabelos, brancos.), o que vi foi o que Brecht escreveu em suas “peças didáticas” – onde Santa Joana morre entre matadouros sem mudar nada, onde dizer “sim” ou “não” não muda nada, se a palavra não gera ação; não consegui evitar de pensar nas “Cinco Dificuldades no Escrever a Verdade” que ele escreveu em 1934.

A coragem: Porque falar sobre a verdade, exige coragem, porque você vai ser humilhado, caçado, e o pior: não vai ser entendido.
Inteligência: Para saber qual verdade realmente importa, porque você dizer que a chuva cai do céu, ou que as cadeiras tem assentos, isso são verdades, mas essas verdades não perturbam ninguém.
A arte de tornar a verdade uma arma: A verdade deve ser dita por causa das consequências que ela produzirá, senão, é tolice. Tudo isso pode ser verdade, mas uma verdade pode ser inútil.
A capacidade de escolher aqueles em cuja mão a verdade se torna eficiente: Porque é possível você ouvir algo de alguém que certamente não é seu inimigo, mas isso não significa que essa pessoa seja seu companheiro de luta.
A astúcia de divulgar a verdade entre muitos: Por exemplo, você pode dizer o povo indígena está sendo retirado daquela terra. Isso é uma coisa; mas você pode dizer, a população daquela região está sendo removida de sua propriedade. Ambas são verdades, mas é a mesma coisa?

Saí do espetáculo, como sempre, louco para agradecer a todos do elenco. Por sua Coragem, Inteligência e Astúcia em como divulgar a verdade, da melhor maneira que conheço: com Teatro.
Saiba mais:

Programa Virtual

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Só – Grupo Sobrevento

Por | Crítica, Daquilo que vi | Sem comentários

Quatro homens sábios disseram um dia: “Olhe todas essas pessoas solitárias. De onde elas vêm? De onde elas são?”. Poucas pessoas olharam como o Sobrevento o fez nesse espetáculo que comemora seus 30 anos.
Em seus 30 anos, o Sobrevento se manteve fiel a si mesmo e sempre contando que encontraria eco de seus anseios no seu público. Aparentemente tem dado certo. Diversas pesquisas, diversas técnicas, diversas estéticas foram praticadas e apresentadas, mas ultimamente, ao invés de manipular objetos e figuras inanimadas, o que eles estão fazendo é: ser tornando os seres manipulados pela emoção que os objetos lhes trás. E, aparentemente, tem dado certo.
“Só” apresenta diversas personagens que são impelidas a saírem do seu lugar de conforto (conforto?) devido há algumas questões em aberto: “O que há de importante para alguém, quando não há ninguém lá?”, “Se você não sabe o seu destino, como irá descobrir quando você chegar?”, “O que é o outro, quando seu objetivo é você mesmo?”… O espetáculo propõe uma leitura poética da solidão, e não uma solidão poética – parece um jogo de palavras, mas não é. É uma proposta dramatúrgica.
O que há em cena é uma Solidão que faz mover. Pois o que nos deixa estáticos é a Melancolia.
Mas isso é só aparentemente. O que se revela ultrapassa as aparências. Mas é como um segredo. É algo SÓ seu.

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O porquê do Teatro dos 108 Desejos – parte II

Por | Artigos, Daquilo que vi, Teatro dos 108 Desejos | Sem comentários

Então o mundo se preparava para o Bug do Milênio. Havia um grande medo, gerando por um grande boato, baseado numa pequena ideia: e se os calendários internos dos computadores de todo mundo não entenderem a mudança do 99 (1999) para o 00 (2000), e zerar tudo, e assim todas as negociações, todos os acordos, toda transação feita pela internet simplesmente sumir?
Havia por perto o eterno companheiro da humanidade: o medo do fim. E o pessoal do teatro estava pronto para receber esse fim.

Pelo menos o pessoal do Teatro Oficina, em São Paulo, estava. Haviam organizando uma apresentação do espetáculo Bacantes, e eu estava lá. No meio do espetáculo, quando virou o ano de 2000, o teto do teatro se abre (sim, o teto do Oficina abre como um “teto solar”.) e está caindo uma suave chuva, e todos os participantes, atores, artistas, público, são convidados para pisar nas uvas que irá fazer o vinho de Dionísio, que será usado mais tarde no espetáculo. E eu estava lá. Pisando em uvas, recebendo a chuva, recebendo o novo ano – muitos não tinham percebido que ainda não era o novo milênio, inclusive eu. Á saber, quem lavou aquelas uvas durante a semana para serem usadas no espetáculo, fui eu. Aconteceram ensaios para quem quisesse atuar na peça, eu fui, mas eu decidi que queria ver acontecer, ser uma testemunha de um dos momentos mais legais que o teatro estava proporcionando no fim daquela década tão insana, estranha, e suicida. Mas para me sentir atuante de alguma forma, me candidatei para lavar as uvas. Valeu a pena.

Pessoas perderam roupas, pessoas tiraram as roupas voluntariamente, pessoas mamaram o leite das bacantes de suas próprias tetas. O espetáculo acabou, eram duas horas da manhã do dia 01 de janeiro, havia uma festa rolando em torno de um casal que conversava fascinados um com o outro. Bem, foi esse o começo de uma história de amor que vivi. E essa história durou muitos anos. E amor que não muda, acaba. E ela ia se mudar. Ia para uma faculdade no interior e eu queria que ela fosse feliz. Terminamos.

E um dia chega a notícia que ela estava namorando uma menina. E que estava apaixonada. E eu fiquei muito feliz. Ela era a mulher que eu mais tinha amado na vida, e estava amando. Eu só podia ficar feliz por ela. Porque ela havia encontrado aquilo que eu vivia. Eu só podia ficar feliz por ela e torcer para que aquilo durasse o tempo necessário para se transformar, e se tornar eterno e bom. A mulher da minha vida tinha encontrado a mulher da vida dela. Porra… eu achava isso maravilhoso!

E na mesma semana chega a notícia de que uma garota próxima de casa havia sido violentamente assassinada por ser lésbica. Isso me destruiu. Eu, que antes sorria e cantava pelo amor encontrado, comecei a sentir medo. Medo de que a mulher que eu amava poderia ser morta, simplesmente por amar outra mulher.

Eu não sabia o que fazer.

Eu decidi mudar o mundo. Se o mundo não é um lugar seguro para as pessoas que eu amo, eu iria fazer ser. Tive algumas ideias. Mas eu só sabia fazer teatro.

Então escrevi um texto chamado “Les”, que ganhou o Prêmio LGBT cedido pelo MinC. Esse texto foi apresentado em diversos lugares, e com o prêmio consegui pagar um ano de locação do espaço Satyros 2, na praça roosevelt. E nesse ano, eu escrevi e ensaiei mais dois espetáculos: “Eu queria ser a Cassia Eller” e “Conheci uma pessoa”. O “…Cássia…” foi assistido por uma quantidade imensa de casais formados por senhoras, o que me fez refletir muito sobre a solidão da mulher lésbica. O “Conheci…” foi escolhido para ser apresentado para as professoras do Ensino Fundamental II de São Bernardo do Campo, para poderem começar a entender, e gerar um diálogo, a respeito da homossexualidade que, na época, estava sendo reconhecida abertamente, inclusive em âmbito escolar. Essa apresentação ia ser num evento especial que acabou sendo cancelado (assim como outras ações LGBT na minha cidade…).

Com toda a experiência e estudo sobre o assunto, resolvi criar um grupo que só ia trabalhar nesta temática. E surgiu assim o Teatro dos 108 Desejos.

Um grupo destinado a acabar assim que fizer seus 108 espetáculos.

*Existe um momento na trajetória da Lua que cabem 108 luas entre a Terra e ela.
*Existem 108 saudações ao Sol na yoga.
*São 108 contas num colar budista.
*108 graus Fahrenheit é o limite que os órgãos internos aguentam, no corpo humano, antes de começarem a falhar.

A escolha de criar um grupo que irá fazer 108 espetáculos e terminar partiu da simples consciência de que se mesmo após tantas palavras escritas e faladas, tantas apresentações, tantas pessoas recebendo a mensagem, tantos esforços para por fim a homofobia, nada mudasse, não valeria mais a pena. Deveríamos pensar em outra coisa…

Ou se, pelo ao contrário, quando estreássemos o nosso 108º espetáculo, não houvesse mais homofobia, pelo menos digna de nota, não faria mais sentido ele existir, pois já tinha realizado sua missão.

O Teatro dos 108 Desejos nasceu para se tornar obsoleto. Esse é nosso maior desejo.

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Teatro Delivery

Por | Crítica, Daquilo que vi | 2 Comentários

No texto original de “O que eu aprendi com Steve Jobs” tinha uma fala que era assim: “Em teatro, que é meu trabalho, minha profissão, existe um termo: “amador”. Existem amadores em todas as profissões. E essa palavra, dizem que significa “amar a dor”, amadores são pessoas que amam tanto o teatro, que o fazem apesar da dor, apesar do não reconhecimento, apesar de perderem seus fins-de-semana com ensaios, ensaios, ensaios… Para mim, isso está errado! Amador, para mim, pratica um hobby, porque se ele amasse mesmo fazer teatro, ele fazia. E fazia todo dia. 08, 09, 10 horas por dia. Porque quando você ama, não quer ficar longe.” Isso para mim define a relação de Roberto Borenstein e seu Teatro Delivery com o ato, com o ator, com o Teatro: amor puro!

Imagina um grupo de pessoas dizendo: “Vamos fazer Teatro? Vamos! Mas onde? como? De que jeito? Onde deixarem, como puder, do jeito que der!”. Aí você tem o Teatro Delivery!

Já assisti dois de seus espetáculos, e sempre saio feliz por fazer teatro. Por fazer parte disto, da mais humana das obras, disso que não nos humilha, que não nos distrata, e não nos coloca acima de ninguém. Disto que nos olha de frente, porque estamos no mesmo nível. Disto que dignifica o barro de que somos feitos, disto que enlameia nossa divinidade. Disto que nos faz simplesmente humanos: o Teatro.

O Teatro Delivery pega o que é a essência de fazer teatro e te entrega como um presente.

Aceite.

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Menina Jinga

Por | Crítica, Daquilo que vi | 2 Comentários

A rainha Njinga foi uma figura que se opôs abertamente e diretamente contra a invasão portuguesa em Angola; num acordo de paz, aceitou ser batizada católica recebendo o nome de Ana de Souza, mas a paz durou pouco. Comandou uma guerra, se aliou a holandeses, foi derrotada, e uma de suas penas foi uma grave e imensa humilhação pública.

E a Menina Jinga? Qual a sua revolta? Qual a sua luta? Com quem se alia? Se há derrota e humilhação, deixo a seu critério descobrir, afinal esse espetáculo ainda está em cartaz, e é recomendável que você vá ver.

O Grupo Brinquedo Torto navega de forma aparentemente tranquila sobre mares revoltosos. Seus temas nunca são suaves, suas palavras nunca são fáceis, seus atores nunca são colocados numa situação de conforto. O seu novo elenco, e coloca “novo” nisso, recebeu um problemão nas mãos: falar de racismo. E o espectador recebeu um problemão na vida: ouvir sobre racismo.

Apesar do racismo em si ser pouco falado enquanto texto, ele grita na atuação. Sua atriz mais experiente, com mais falas e atuação principal é negra (e linda! – e isso não é relevante, é só minha empolgação mesmo); a grande maioria do elenco é formada por crianças brancas, que estudam em uma escola particular, no centro de uma grande cidade. Fazer o seu elenco e seu público refletir o mínimo sobre o assunto, já vale a decisão de montar esse espetáculo.

Não subestime a pouca idade do elenco, algumas crias ali são ferozes, e não vejo o momento de que mais algumas horas em sala de ensaio e mais situações de apresentação, irão revelar aqueles talentos… O elenco principal precisa suar para chamar mais atenção do que a molecada, e eles suam.

O figurino vai bem, parece uma solução simples, mas não é. E o figurino sempre é uma preocupação nos espetáculos do grupo. Pegaram o tema, deram uma releitura do óbvio, bem sacado e funcional.

Como sempre, a trilha sonora é impecável e surpreendente. Com uma banda em cena, e abusando da percussão, o espetáculo fica brincando de ora confortar, ora incomodar o seu público.

Está achando que a vida é fácil? Vá ver esse espetáculo. Talvez você se arrependa… de não ter feito nada para mudar o mundo.

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Centreville

Por | Crítica, Daquilo que vi | Sem comentários

Existe um lugar-comum que diz algo como “fale sobre o seu quintal que falará sobre o mundo”, e é isso que a Cia do Nó faz com seu Centreville. O tema e o nome do espetáculo vem de uma história real: a maior ocupação realizada por populares da America Latina, com mais de 30 anos de existência, e parece que ainda está em andamento. O que era para ser um condomínio de alto custo, se tornou palco de histórias e batalhas, e hoje é considerado como bairro.

Assim como no “O Cortiço”, o espetáculo não apresenta um personagem principal. Não há um herói – e se você pensar com um pouco de calma – nem um vilão. É muito tentador dizer que a ocupação é o personagem principal, mas não é. Ela é o Leitmotiv. (quero agradecer aqui a oportunidade de utilizar essa palavra publicamente pela primeira vez).

O personagem principal, de verdade, e é tão verdade que isso fica se repetindo ao longo do texto, que está exposto em carne e ventre: é uma ideia. É um sonho concebido, numa longa gestação, esperando para nascer, ou ser abortado.
O espetáculo apresenta uma gestação onde uma célula se divide em três, depois em 100, depois em mais de 1.000. Com todos os riscos de rejeição que uma gravidez pode sofrer.

Centreville é um corpo estranho criado por um organismo autofágico.

Agora sobre o espetáculo:

Na encenação você sente as influências das teorias e práticas de nomes do Teatro que se rebelaram contra o seu sistema de governo. Tudo muito bem proposto, tudo muito bem executado. O figurino conta a sua história. Não rouba a cena e não atrapalha. Algo raro de ver.

A atuação dinâmica, com o elenco coeso, te permite assimilar todas as mudanças cênicas e temporais que o espetáculo apresenta.

Repetindo: o elenco é muito coeso e orgânico, mas eu não gostaria que você não se atentasse as atuações de Carolina Delphin, Juliano de Assis, e Levi Cintra, que venho acompanhando há alguns anos.

Quando puder, veja!

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Tróilo & Créssida

Por | Crítica, Daquilo que vi | Sem comentários

No filme “Eu sou a Lenda” tem algo que me incomoda muito: quando a Anna (Alice Braga) enaltece o dr. Robert (Will Smith), deixando claro (pelo menos para mim, naquela época, em 2007) que a “lenda” em questão seria o tal dr., e que ele seria o salvador da humanidade, um “herói”. Eu me lembro de como fiquei incomodado, porque eu o achava um idiota, uma pessoa sem empatia, que não percebia algo óbvio (pelo menos para mim)… Mas isso foi antes de eu entender melhor sobre as múltiplas inteligências e o filme também não me dava tempo de me aprofundar no personagem, enfim… Mas eu me lembro de que no final do filme eu fiquei com isso na cabeça: “Mas de que raios é feito um herói?” – Lembrei na hora da “Receita para se fazer um herói” cantada pelo Ira!
Fui assistir “Tróilo e Créssida” da Cia da MATILDE, e novamente saí pensando e cantando sobre a fome, sobre o ódio e sobre nosso jeito irracional.
Parece que é a primeira montagem deste texto de Shakespeare em solo nacional, só isso já vale a conferida. Mas talvez por isso mesmo, o texto era o (meu) principal alvo, aquilo que mais me chamava a atenção.
Poderia falar das influências cênicas, das soluções, da banda, da estética e funcionalidade do figurino, do sarcasmo em que eram apresentadas as piadas… deixo isso por sua conta.
A peça é uma tragédia, logo tem um herói; é de Shakespeare, logo o herói morre no fim. E quem é que morre no fim da peça? (sem spoilers – vai que você não sabe nada sobre a Guerra de Tróia) morre um herói… mas não é Tróilo. Ninguém chamaria Tróilo de herói, por quê? E porque diabos a peça se chama “Tróilo e Créssida” então?

(AGORA SIM TEM SPOILERS)
Agora sim eu entendi porque ninguém chamaria Tróilo de herói… porque ele é fraco e vulgar. Porque defende uma guerra criada pelo amor (ou pelo Orgulho), mas é incapaz de defender seu próprio amor. Falta-lhe ódio, falta-lhe fome, falta-lhe o jeito irracional.
A morte que define a tragédia do espetáculo é a do seu amor. É ele quem morre. Que é assassinado. Destituído e destruído. O amor é o verdadeiro herói trágico desse espetáculo.
E infelizmente, por ele, ninguém clamará. É triste ser um herói de Shakespeare.

(ACABOU O SPOILER)
Mas vá! E note como a atriz Isis Valente continua excelente & como o ator Caio Merseguel é digno de todos os elogios que fazem dele.
Receita Para Se Fazer Um Herói
Toma-se um homem – Feito de nada como nós
Em tamanho natural
Embebe-se-lhe a carne – De um jeito irracional
Como a fome, como o ódio
Serve-se morto.

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Discurso de abertura da mostra Santo de Casa.

Por | Aviso Importante, Daquilo que vi, Manifesto, Notícias, Novidades | Sem comentários

“O Teatro é a última trincheira da humanidade. Defenda-o.”

Diante de um oponente maior, ou de uma derrota iminente; ou você se rende ou foge; ou você é morto; ou você dinamiza aquilo que nos torna humanos, nosso “ser” e “fazer”, desperta suas potências, e cria um momento e um espaço para respirar, concentrar suas forças, planejar os próximos movimentos, propor os contra-ataques, vislumbrar uma situação melhor… Você faz uma trincheira.

Fazer trincheiras, apesar de serem bastante simples em termos de engenharia e tecnologia, é algo que possibilita tanto a defesa quanto o ataque; é manifestar sua existência, é expressar a sua recusa em aceitar alguma inferioridade que lhe está sendo imposta.

Nós fazemos teatro. E nos impomos. Manifestamos nossa existência perante nossos oponentes que parecem maiores, perante nossas derrotas que parecem inevitáveis. Lutamos cada dia, para apresentar o que há de humano para a própria humanidade. Enfrentamos conceitos, enfrentamos abstrações, enfrentamos razões irracionais, enfrentamos a subsistência, enfrentamos o descaso. E mesmo assim, nós fazemos teatro.

Nossos inimigos são perigosos porque se parecem conosco. Eles são falhos como nós somos, e acreditam que estão certos, do alto de sua iminente vitória, nos desprezam, a nós e o nosso ato de criar espetáculos, nossos ensaios, nossos coletivos, nossas redes e tramas… desprezam nosso ato de coragem. Mas nós temos uma vantagem: Nós fazemos teatro!

O teatro é a resposta dos fracos. – Aqueles que precisam pensar e agir. Aqueles que se esforçam para alcançar suas metas. Aqueles que precisam se unir para sobreviver. Aqueles que às vezes são obrigados a parecerem estáticos, enquanto se movimentam fora do alcance da visão, enquanto planejam, enquanto concentram suas forças.

O teatro é a resposta dos corajosos. – Aqueles que não se calam. Aqueles que não se submetem. Aqueles que olham para o gigante e não dizem “não temos como derrubá-lo”, mas pensam “não tem como não acertá-lo”.

O teatro é a resposta dos audazes. Dos que ousam. Dos impertinentes.

O Teatro é um ato de resistência, insistência e persistência.

É rebeldia. É proteger o que há de mais frágil e atacar onde é mais frágil. É ser humano diante de outro ser humano. É cavar trincheiras.

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Sorrio Maravilha

Por | Crítica, Daquilo que vi | Sem comentários

Como é que se comenta uma declaração de amor?

Eu conheço um pouco o Rio de Janeiro, e o teatro que é feito por lá. Um pouco.

Já tive um grupo de teatro lá, e acredite, não é nenhum um pouco mais fácil do que em qualquer outro lugar. Nós quem moramos fora não cogitamos o peso que é fazer teatro para quem gosta de teatro, com a Globo ali, tão presente, tão palpável.

A cidade é uma bagunça! Para um paulista, virginiano, ascendente em Virgem; o Rio de Janeiro pode ser um tormento. As divisas sociais, relacionais, comerciais, e todos os “ais” são meio borradas, não muito definidas… O Rio é difícil de entender, você tem que “ir na onda” para manter a sanidade.

O carioca também não é uma pessoa fácil de se conviver – sejamos honestos, não é! – ou a gente se apaixona pelo ser, ou a gente desgosta profundamente. E ambas as coisas são muito fáceis de acontecer. Às vezes simultaneamente.

E o que dizer então, de um grupo carioca, fazendo teatro de rua, falando do seu amor, pelo Rio de Janeiro?

AsLucianas correram um risco muito grande em colocar em cena – com muito talento, muito apreço, e muito bem medido – diversas, quase uma centena, de músicas que fazem parte do imaginário nacional, e isso apenas pontuando algumas das mudanças históricas e comportamentais que a cidade sofreu e provocou nos últimos séculos. Foi uma aposta. E elas ganharam.

Aquele grupo formado por mulheres lindas e talentosas, pisou no asfalto selvagem e quente, e declarou seu amor por suaterra, sua gente, sua cultura. Com uma apropriação, que parece óbvia, mas quem conhece a realidade do fazer teatral daquela cidade, sabe que não é fácil.

De maneira honesta, elas expõem seus corações, suas memórias, seus talentos, suas belezas, e afirmam sua paixão. E quem se apaixona é você.

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A Bolsa

Por | Crítica, Daquilo que vi | Sem comentários

Eu queria encontrar uma palavra que expressasse tudo aquilo que a Atriz (sim, com maiúsculo) Taciana Moura colocou em cena.

Eu encontrei essa aqui: “Patético”!

“Patético” significa para aqueles que não conhecem a arte da língua portuguesa: “bobo”, “sem sentido”… mas na verdade, quer dizer outra coisa:
             adj. Característica do que provoca um sentimento de piedade, tristeza; aquilo que comove ou causa compaixão; triste, emocionante.
            Que pode ser caracterizado ou que se utiliza da tristeza, da compaixão, para provocar emoção.
            s.m. Algo ou alguém que comove; que provoca ou causa sentimentos de tristeza, de compaixão.

É uma mulher em cena, dois focos, uma lanterna, uma bolsa que foi roubada, e uma alma machucada que pede apenas atenção. Não é carinho, não é reconhecimento. É atenção. É “perceba que eu existo, por favor.”

O texto começa numa direção que poderia ser bobo, o espetáculo parece ir para um lugar que não faz sentido… mas com pequenas palavras, poucos gestos, algumas vírgulas, e alguns olhares, e pronto! Estamos naquele ambiente do Pathos (origem da palavra “patético”, conceito que ambivale “sofrimento” e “amor”).

O espetáculo é uma tragédia, no sentido aristotélico da coisa, que fez a todos sentir Terror e Piedade.

Foi um prazer aplaudir de pé essa mulher, e sua obra patética.