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Swimmer Doing Backstroke --- Image by © Tim Pannell/Corbis

Por | Contos Curtos | Sem comentários

“Ele estava em uma rampa de acesso, olhando para a piscina, incomodado com o calor do lugar fechado, com o cheiro de cloro que ardia o seu nariz e seus olhos.

Ela estava na piscina, treinando velocidade, tentando ser mais rápida.

Ele se perguntava porque estava ali, porque tinha vindo de surpresa, porque ver o sorriso dela se tornara tão importante assim.

Ela tinha outra preocupação. A preocupação dele era olhar para aquela mancha ia de um lado para o outro na piscina, e tentar entender porque gostava de vê-la assim: com um maiô, que apesar de apertar todo seu corpo, não a deixava sexy, a deixava linda. Com aquela pele com uma textura estranha por causa dos produtos na água. Com o seu cabelo, que depois de sair daquela touca ridícula, ficava todo emplastado, e era bonito de se ver. Ele já a viu em outras situações, já a viu usando vestido de noite, com cabelo arrumado, maquiada o suficiente, um lápis, um batom, com brincos e etc. E ela estava maravilhosa! Mas assim, agora, lhe dava a impressão de ver como ela era de verdade: Coordenada, ágil, rápida, graciosa.

Ela ao sair da piscina, estava cansada, um pouco frustrada pelo resultado.

Ele percebeu que, ela fora do seu elemento natural, continuava linda, com aquele maiô, aquele brilho estranho na pele, aquela cara cansada, mas feliz por fazer o que gosta, e fazer bem. E foi ao encontro dela.

Ela o percebeu, e abriu um enorme sorriso verdadeiro, como a muito não fazia.

Ele chegou perto, com uma vontade irresistível de molhar a roupa, e sentir aquele hálito de cloro dentro da sua boca.”

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Por | Contos Curtos | Sem comentários

“Sabe tio, naquele shopping tem um quiosque de doce, e a filha da dona paga o maior pau pra mim. E olha que ela sabe que sou favelão, que sou engraxate, e tudo. Ela é feinha, sabe? Mas é gostosa! Tem uns peitão! Pra quatorze anos tá bom. Mas eu casava com ela! A mãe dela tem muita grana, só se vê a Dona Cora andando de Corsa novo por aí, é! Eu chego lá, ela me dá uns doces, me olha com aquela carinha estranha, aqueles dente torto… o nome dela é Mirela, parece nome de margarina, não parece? Eu falo isso, e ela vira o cão, eu só dou risada… ela é legal… só é feia…. Sabe tio, eu preciso fazer vintão até sexta, porque quero por um piercing, e a promoção só vai até sexta, aí eu vou ficar lindão! Então vou chegar na Mirela e vou falar: Olha minha manteiguinha! Olha o seu Maicou como ficou lindão! Agora a gente pode ficar junto! Eu casava com ela! Não é só pelo dinheiro não! É pelos doces também!”

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Capixabas Crônicas / Crônicas Capixabas – 02

Por | Contos Curtos | Sem comentários

“Ele pagara as contas da luz, água, celular, internet, e a do cartão. Só não pagou a do gás porque ainda usava bujão. Mas isso vai mudar, disse uma vez Janete, cansei dessa coisa feia e suja, não quero nem saber mais se está vazando. Mês que vem, ou você encana o gás, ou leva um cano meu! Ameaçou Janete. Cidinho sabia das coisas. Janete ainda fazia alguma comida durante a semana, ele não queria perder esse prazer. Já estava cansado das pizzas, hot-dogs, beirutes, e o que mais entregassem na sua casa, mas Janete estava mais cansada que ele para ficar em frente do fogão. Cidinho lhe dava atenção, pagava suas roupas, não reclamava quando ela saía para dançar com as amigas, e não comentava que se ela estava tão cansada assim, devia era ficar em casa. Cidinho era um bom marido. não traía, nem nunca pensara nisso; e quando Janete não estava disposta, nem insistia no sexo, que praticava sozinho e escondido. Cidinho era bom para Janete, sabia disso. Mas as vezes ser um homem bom não é suficiente, ele pensou quando decidiu que sim, mês que vem, ia mandar encanar o gás. “

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Ontem eu tentei o suicídio

Por | Contos Curtos | Sem comentários

“Ontem eu tentei o suicídio:
Atravessei a avenida sem olhar para os lados.

Abri o microondas antes de apitar.

Comi toda a salada.

Chamei o judoca de fresco.

Passei por baixo da catraca do ônibus.

Passei a mão na bunda do guarda.

Tomei leite com manga.

Pus a mão na taturana.

Dei a minha mão pro cachorro da vizinha cheirar.

Respirei fundo com a cara enfiada no pote de mostarda.

Pisei descalço na bituca de cigarro.

Competi com o evangélico que apenas mudou de droga.

Li Marcelo Mirisola em voz alta.

Comprei quebra-queixo.

Andei a tarde inteira com o meu pé manco.

Não acendi a vela pro meu santo.

Mandei todos irem tomar, mas longe de mim;

e escrevi uma carta de amor.”

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Por | Contos Curtos | Sem comentários

“Esse cara tem um carro, mas não vai te levar a lugar nenhum.

Esse cara diz que manja tudo de arte, que gosta de cinema, mas nunca assistiu os saltimbancos trapalhões.

Só canta música que podem ser acompanhadas batendo palma.

Não sabe uma letra do Tim Maia.

Esse cara nunca roubou um livro e nunca roubou um beijo seu.

Eu sim!

Eu sei te pegar gostoso e te beijar de jeito. E também sei que só comigo você canta, depois que sai da cama.”

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Por | Contos Curtos | Sem comentários

“O que há entre tu mais eu, é só distância. Isso se resolve num pulo, num galope de cavalo bravo. Se pra ti e pra mim, se pra dois de nós virar um só, se o problema for só esse: chão de terra. Nem que for de mula manca! Cada passo que eu der, é um tanto a menos de mundo que fica pra trás. E é isso que me importa. Eu pra perto de você. E seja sob o sol, e seja sob a lua. E que venha vento, pó e chuva. Que tenha rio, montanha, carrapicho, tiririca, espinho ou farpa. Se cada isso que mostro nesse pequeno espaço com os dedos, se cada disso que conquisto, diminui o tempo que falta pra dormir no teu braço, me derramar no teu cheiro, eu enfrento. Se isso, esse espaço cheio de nada, se toda nossa dificuldade é estar em movimento. Me aguarde que tô chegando.”

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desconexões – Estudo 01

Por | Contos Curtos | Sem comentários

Ela piscou duas ou três vezes. Um pouco mais rápido que o normal. Precisava ficar atenta e isso não estava sendo fácil. Mordeu o lábio inferior como um tique. Sentiu o gosto do próprio batom e voltou para o devaneio. Pensou em qual serio o fim do livro que estava lendo. Cantou um treco de uma música que costumava ouvir. Imaginou que seria uma grande baterista se tivesse tempo para isso. Lembrou de uma roupa que queria comprar. Contou mentalmente o troco do ônibus para saber se dava para comprar um churros ou não. E riu porque lembrou do Chaves e do churros da Dona Florinda.

O rapaz estava falando horas, falou sobre teorias da comunicação, sobre dramaturgia contemporânea, sobre eventos gratuitos e sobre como seria vantajoso para ela, receber um beijo dele. Foi nesse momento que ela riu.

Ele imaginou que ela estava fácil.

Ela ficou pensando em como sair fora rapidinho porque começou a sentir um pouco de fome.

Ele perguntou o que ela achava disso tudo, o que mais lhe interessava.

Ela respondeu doce de leite. E lambeu os lábios.

Ele piscou duas ou três vezes. Um pouco mais lento que o normal. Precisava entender o que ela tinha respondido.

Ela já tinha dado tchau, e descido a rua, indo para o ponto de ônibus.

Ele ainda não tinha percebido.

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Crônicas Capixabas/Capixabas Crônicas 01

Por | Contos Curtos | Sem comentários

Há muito tempo atrás comecei a escrever alguns estudos para contos, inspirado em algumas mulheres capixabas apaixonantes… Decidi trazer a tona alguns deles:

(sobre a imagem: bem, não é ótima?)

“Tinha triscado a pintura da unha. E riu alto pensando na palavra “triscado”. Fechou rápido a boca com medo do que pensariam dela rindo alto de repente. Abriu ainda mais os olhos quando fechou rápido a boca. Ao contrário do que se espera, o abrir ainda mais os olhos não a fazia enxergar melhor. Gastou uns 04 segundos para “consertar” a vista e perceber o que estava diante dos seus olhos. Diante dos seus olhos havia sua mão, com suas unhas mal pintadas, com o esmalte todo triscado. Riu alto quando pensou na palavra “triscado”. E desistiu de fechar a boca”

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Por | Contos Curtos | Sem comentários

“Tinha aquele gosto meio de vidro e aquela sensação de doce. E em torno era um mundinho rosa, ceramicado, com almofadinhas de carne. Havia sinuosidades, reentrâncias e som de uma risada sem dono. Era gostoso assim, comer pé-de-moleque na sua mão.”