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Menor-gato-do-mundo

Por | Contos Curtos | Sem comentários

“Tinha aquele gosto meio de vidro e aquela sensação de doce. E em torno era um mundinho rosa, ceramicado, com almofadinhas de carne. Havia sinuosidades, reentrâncias e som de uma risada sem dono. Era gostoso assim, comer pé-de-moleque na sua mão.”

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Por | Contos Curtos | Sem comentários

“Todos os livros de Dan Brown foram inspirados em mulheres. Cada história, uma mulher específica. Ela sabia disso. Era óbvio. Qualquer homem com olhar clínico saberia também. Se lessem. Se quisessem saber. Mulheres não. Mulheres se interessam por outras coisas. Ela sabia disso também. O mundo era bem óbvio aos seus olhos. Mas ainda assim, se divertia. Quando jogou fora o último livro, porque já sabia como ia terminar, ficou pensando, sem vaidade nenhuma – é bom deixar claro-  o que é que ele escreveria se a conhecesse. Coitado. Sentiu dó dele em voz alta. Ele não saberia nem por onde começar. “

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Por | Contos Curtos | Sem comentários

“Havia uma pelotinha de barro em cima daquela unha. Aquela unha ficava colada num dedo, o menor deles, e assim grudada num pé, o que ficava do lado direito do outro. O pé, o dedo, a unha e a pelotinha de barro estavam muito próximos um do outro, porque o corpo todo estava agachado. De “cócoras”, diriam os especialistas. Todo o corpo se comprimia para que o salto fosse maior. A pelotinha foi para o espaço. O corpo também. Quando pousou, era outro: Batia os joelhos um no outro, como se fosse festa. E assim, pulava, andava e sorria. Era riso em movimento e som. Era brilho nos olhos de quem olhava. A voz surpreendeu a todos que notaram o silêncio brusco do corpo. Era um risco, um talho. O que saiu da garganta abriu espaço entre a paisagem e empurrava as partículas de realidade uma para longe da outra, e criou-se um vão. Um vau que podiam transitar todos que quisessem. O convite, assim como o espaço e o tempo, era aberto aos de boa vontade. Houve quem pulou fora. Quem pulou dentro, pulou ao som de rabecas, de metais do frevo, e seguiram a gargalhada correta, e se perderam… Feito pelotinhas de barro.”

Beijo-Rodin

Por | Contos Curtos | Sem comentários

“Em algum momento, desde o último sábado para cá, ficou muito mais difícil para ela conseguir manter uma conversa. Ela realmente passou a prestar atenção nas palavras que estavam sendo ditas. E as pessoas passaram a ser insuportáveis.
“Mas fala a verdade, você não acha que seria legal a gente…”
Ele era um rapaz bonitinho aos olhos dela. Mas porque ele pedia para dizer a verdade? Ele achava que ela mentiria de qualquer forma, de qualquer assunto? Ele nem conhecia ela o suficiente para imaginar isso. Na verdade, ela nem mentiu para ele até hoje. De onde ele tirou essa idéia? E como assim “eu acho”? Eu não acho nada. Ou sim, ou não. Não tenho tempo para ficar “achando”. E que “a gente” é essa? Somos nos dois? É todo mundo que está por aqui, por perto? É toda a humanidade?
Ela ficou pensando nisso, e acabou não ouvindo o resto da pergunta que o rapaz fizera. Deve ter sido uma pergunta porque ele estava olhando com aquela cara de quem espera uma resposta. Ela sorriu ao invés de gaguejar. Esse era o hábito. Tinha funcionado até o momento. Mas isso não impediu de receber aquele beijo. Ficou brava. Mas achou melhor assim. Ele não beijava bem, aquele rapaz, mas ele era mais agradável assim, em silêncio.”

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Por | Contos Curtos | Sem comentários

Ele segurou na parte de trás da coxa dela, ela instintivamente esticou a perna o quanto que podia e soltou um som forte e baixo.
*Podia ser um suspiro, mas não era.*
Com sua outra mão segurou firme próximo das costelas dela e puxou ela para si. Podia ter escrito “tracionou”, mas não quis. Ele dava pequenos comandos, soltava algumas palavras de estímulos para ela continuar, para sentir a dor e aceitar.
Ela ia gostar disso, foi o que ele disse o tempo topo. Podia ter acreditado, mas ainda não era o momento.
Tensa, suava. Firme, ele conduzia com todo o corpo, o corpo dela.
Ela gemeu, e mordeu os lábios.
Ele sorriu e pediu para ela aguentar um pouco mais.
Ela não quis mais, pediu para parar.
Ele saiu de perto e foi pegar um copo d’água.
*Podia ser uma cena de sexo, mas era só um alongamento.*

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Por | Contos Curtos | Sem comentários

“Era complicado ser menina, e ser mulher não tornou isso mais fácil. Isso, de “ser”. Não entendia muito bem como era “ser” menina, não tinha recebido as instruções corretas que todas pareciam ter recebido quando nasceram. Com certeza eu estava dormindo quando falaram, antes de eu nascer, como deveria sorrir e concordar com as outras meninas, e como eu deveria reagir em contato com os meninos, e qual era o jeito certo de se comportar em relação com as meninas e com os meninos. Mas se eu estava dormindo, deviam ter me chamado. Era importante, pô! Eu não teria passado tanto tempo sozinha, não seria alvo de brincadeiras cruéis – se alguém acha que criança é inocente, é porque nas horas que brincava de humilhar alguém estava na turma dos mais fortes, mais bonitos, e dos que sabiam se portar. Minha vó dizia que um anjo nos contava algo antes de nascer, e colocava o dedo em nossa boca e pedia segredo… acho que meu anjo era mudo. Ou burro. Ou só um sacana que ficou esperando eu brincar de “beijo, abraço, aperto de mão”, só para eu vomitar quando um dos meninos pediu beijo e exigiu a minha boca. Minhas chances de infância foram por água da pia abaixo. Eu não sei se vivi a adolescência ou se pulei direto para uma fase chamada Limbo que os especialistas não conhecem, ou não divulgam. Talvez seja um segredo só entre nós, os que eram vítimas das outras crianças. Os espertos, os feios, os que tiveram que “ralar” para viver, acredito que todos viveram na fase do Limbo algum momento da vida, e se tornaram adultos depois de alguma conquista: uma faculdade, um amor correspondido, sei lá. Eu me tornei adulta depois de ter vivido meu primeiro fim de relacionamento. E se tornar adulto foi algo ruim, não importa que digam que o “importante é que eu aprendi algo e cresci enquanto ser humano”; eu preferiria não ter passado por isto. Eu só me tornei adulta depois de me ter tornado mulher. Ou melhor, eu não me tornei mulher. Me fizeram. Ou me fizemos juntas, não sei, e não importa. Mas eu só descobri todos aqueles segredos, todo o manual de como me portar, do que rir, como se reage corretamente ao toque, e tudo isso que chamam de vida, depois dela existir fora e dentro de mim. Talvez meu anjo, que deveria ter me contado aquele algo secreto, também não soubesse. Anjos não tem sexo, não poderia saber que isso é tão bom.”

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Queria era que você abrisse os olhos e lesse meus lábios falar sem aspas nenhuma, que teu corpo é meu verbo de ligação, que meu amor é um objeto direto. Sem interrogação. Sem reticências. Sem preposição te mostrar que meu olhar é minha afirmação e meu beijo um ponto final.

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Um cheiro de caramelo invade meu nariz enquanto envolvo a pele branca do teu seio com meus lábios. Unhas pequenas tentam arranhar meu braço, mas nada fazem para impedir. Minha pele se estica querendo alcançar a sua. No umbigo, marcas de saudade. Nos teus pelos, marcas de desejo. Teu sorriso sarcástico some no mesmo instante que você arfa…

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Por | Contos Curtos | Sem comentários

“Era um momento de tensão. Era para ser um momento de calma e sossego, mas isso seria pedir demais. Havia um raro silêncio no ar, então só poderia ser um momento de tensão. Ela estava na cama com a mesma camiseta de ontem, que era dele. Ele estava de pé, se olhando no espelho com a mesma cara de ontem, que também era dele. Ela gostava disso nele, ele não tinha outras caras. Era sincero quando era romântico, era sincero quando era bruto. Isso era bom, não havia espaços para joguinhos. Ela nunca gostou de joguinhos, por isso gostava de homens mais velhos. Ele era mais velho, mesmo o aniversário dela ter sido ontem, ela ainda era mais nova, e era dele. Ela sabia, mas não falava. Ele não sabia de nada. Se soubesse, falava.

Mas estava em silêncio, olhando para o espelho, procurando um cravo, ou descobrindo o que era aqui que coçava dentro do nariz.

A casa estava em silêncio, e havia uma tensão no ar.

Ela era mais nova, e por isso se permitia se mais criança do que o esperado. Sem pensar duas vezes, jogou um travesseiro que lhe acertou a nuca. Fez ele enfiar o dedo no nariz e bater com a testa no espelho. Todos os sons se uniram: a batida da cabeça, o grito de susto, e o riso escandaloso dela. Em seguida ele gritou, e chamando ela de peste partiu para cima dela, que rindo muito, não conseguia fugir. O silêncio foi quebrado para sempre, e o que restava da tensão era apenas a risada dela, que ia mudando de tom, parecendo com a mesma que ela deu ontem. Aquela, que ele tanto gostava.”

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Por | Contos Curtos | Um comentário

“Se ela realmente escutasse o que ele estava falando, teria parado de ouvir depois do terceiro pedido clichê de desculpas. Teria tido a impressão que aquele rapaz não saberia dizer serialmente se estava arrependido ou não. Se ele considerava beijo, sexo, mentira, traição ou não. Mas depois de ter visto o beijo, ou descoberto o sexo, ou percebido a mentira, ela não discutiria. Ela explodia em raiva. E nessa explosão ia junto qualquer assunto a ser tratado. Memórias, fatos, esperanças, eram dizimados pela pólvora do desprezo. E isso bastava. Ele deveria saber disso. Ela já tinha dito algumas vezes. Ele realmente não deveria expor sua opinião e perguntar se ela realmente se importava com algo tão pequeno perto de tudo que eles tinham feito juntos.
Eu não sei se me importo com isso. Na verdade, eu gostaria que o Ministro da Cultura e dos Pequenos Prazeres me importasse pra França. Só isso.
E eu? Ele insistia no erro.
Você, eu quero que se foda.
Ele não ficou mais inteligente depois desse dia. Ela passou a sorrir menos, dois dias ou mais. Depois voltou ao normal.”