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Um pequeno barulho sobre o silêncio.

Por | Artigos, Manifesto | Sem comentários

Que som fazem aquelas coisas não fazem barulho? Como soam? O piscar dos olhos, aquele momento entre o sono e o despertar, a sua língua secando por algum motivo que você não gostaria de revelar…

O silêncio existe em pequenas frações, entremeado em nossas ações diárias. Naquele microssegundo antes de pousarmos a caneca de café na mesa, um pouco antes daquele suspiro.
Mas ele também existe depois. Depois que batem a porta. Depois que desligamos o chuveiro. Depois que cansamos de chorar.
Cotidianamente o silêncio nos permite sobreviver em pequenas ilhas de lucidez, enquanto somos inundados por “som e fúria”. É comum, mesmo que de forma inconsciente, utilizar o silêncio para respirar aliviados, ou tomarmos um fôlego.

Mas não estamos falando de pessoas comuns. Estamos falando de atores.

Pessoas que possuem a qualidade de atentar para o ordinário e torna-lo extraordinário. Que têm como tarefa de vida, estar atentos e prontos. E estarmos atento para o silêncio pode nos trazer surpreendentes resultados.
Existe aquele silêncio da plateia antes do espetáculo começar; assim como existe aquele silêncio que nos invade antes de entrarmos em cena. Mas não é desse silêncio que estou falando. Além do quê, se você parar para viver esses silêncios que mencionei, o espetáculo não irá acontecer, e as pessoas ficarão extremamente chateadas.

O silêncio, que estou falando, possui uma particularidade: quando se faz presente, quando o percebemos, ele altera nossa percepção das coisas. Ele se instala. Você o percebe e você o vive, ao mesmo tempo.

Essa sensação pode acontecer em qualquer lugar, com qualquer um; mas nós, atores, temos uma vantagem: nós podemos produzir o silêncio. Somos capazes de o reproduzir, e de o utilizar de forma produtiva, esse momento que surgiu antes de tudo, antes de surgir qualquer coisa, tanto na mente humana, quanto no universo físico que conhecemos.

Perceba: Tudo que o chamamos de “real” são nossas impressões sobre tudo. Temos a impressão de andarmos em uma linda plana, mas o planeta é redondo. Temos a impressão de estarmos de “cabeça para cima”, mas no espaço não existe “cima”; e quem está do outro lado do globo também não está de “cabeça para baixo”. Temos a impressão de que o céu é azul, mas não é. E como a água é transparente, o mar não pode ser verde. E por aí vai.

Quando entramos em estado de “silêncio”, nossas impressões se modificam. Ou se modificam ou não importam; já não faz mais diferença nesse momento. Mas a nossa realidade é ampliada. Até o tempo se manifesta diferente. Já percebeu a diferença da duração das horas em um ensaio, e a duração do mesmo número de horas dentro de uma sala de aula chata?

No colégio, nas ruas, nos meios de transporte, na vida cotidiana como um todo, o que impera é o ruído. Não há melodia. Há uma sobreposição espalhafatosa e forçada de sons, que buscam te oprimir e te prender.
Quando você, em sua sala de ensaio, começa por buscar o silêncio. Primeiro dentro de você, depois com os outros, depois com o trabalho a ser realizado, nada te oprime e nada te prende, porque você alterou sua percepção das coisas, e assim sua realidade.

Lembrando que silêncio não é ausência de som. É sintonia.

human minds

O Teatro cria memória. Nossa memória é o que nós somos.

Por | Artigos, Manifesto | Sem comentários

“O que nós somos? Nós, como pessoas, como indivíduos? O que você é para você mesmo? Como você se reconhece para você mesmo? O que te faz, você, ser você? Como você sabe que você é você? Pela sua memória. Somente a sua lembrança, dos seus atos, do que você viu, do que você fez, só a intimidade da sua memória é o que te garante que você é você.

Não é apenas “Penso, logo existo”, isso é pouco. Nós, seres humanos somo mais, somos além. Você é muito mais, faz muito mais do que apenas existir. Uma pedra existe. Eu não sei se ela faz algo mais do que isso. Mas eu posso fazer algo mais com ela. Eu posso construir uma casa, ou possa atira-la em alguém… Mas o sentimento que isso irá me proporcionar, seja orgulho, seja vergonha, seja o que for, eu só vou conseguir vive-lo através da minha memória. São suas lembranças que fazem você saber se está feliz ou não. Se conquistou algo que você queria, ou não. Não é “penso, logo existo” é “Lembro, logo sou”. As nossas memórias são eternas, mesmo que elas aparentam não serem de fácil acesso. As suas primeiras vergonhas, se você lembrar delas agora, elas ainda doem. Se você lembrar do que você brincava quando era criança, você vai perceber que é o que você ainda faz, que é o que te deixa feliz. Porque quando você cria uma memória, você molda o que você é. Você é construído pelas suas memórias.

Existem três tipos de memória, e só existe uma coisa criada pela humanidade que afeta todos os três tipos de memória: a Arte. E cada memória tem suas subdivisões. E só existe uma arte que é capaz de afetar todas as subdivisões da memória humana, só uma arte é capaz de moldar, transformar, e recriar um universo inteiro de possibilidades: o Teatro.

Existem as chamadas memórias de longo, que assim que elas criadas elas formam uma trama, uma rede neural que sustenta todas as outras. Desde se vestir sozinho, desde não esquecer como se lê, todos os reconhecimentos dos sentidos, o prazer, a dor, o amor, tudo que você conhece no universo está sustentado em cima dessa rede de neurônios criadas pelas memórias de longo prazo.

Quando as caravelas de Colombo chegaram nas Américas, os nativos, não as viram. A caravela estava vindo e os nativos só viam o mar vazio. Não havia nos seus cérebros nada semelhante com aquelas estruturas, então aquilo não gerava imagem. Só quando estavam muito próximos que alguém conseguiu reconhecer que a água que estava se mexendo, bem depois que poderia ter algo parecido com uma árvore, algo que parece que é madeira, ali…Quando um deles conseguiu ver o primeiro barco, ele teve que mostrar com seu corpo, ele teve que representar o que estava vendo para que os outros pudessem ver. E foi só depois que esse mímico primitivo, possivelmente um ator da tribo, conseguiu expressar o que via, é que todos conseguiram ver. Nesse momento, no momento que a verdade apareceu, porque as caravelas não chegaram, para aquelas pessoas, as caravelas apareceram, foi criada um mudança total nas memórias de longo prazo daqueles nativos; aquele fato deixou de ser memória e se tornou história.
E quais foram as primeiras memórias que moldaram a sociedade? Além das pequenas memórias diárias e cotidianas, dos primeiros seres humanos; quais foram as primeiras grandes memórias daquela tribo? Daquele clã? Daquela comunidade? Daquela família? Daquela cidade? As primeiras grandes memórias se deram com o encontro com o Desconhecido; com o Mistério. E o nosso grande primeiro Desconhecido foi o mar. O mar era uma parede, era intransponível, inatravessável. O mar era o limite do mundo. Do mar vieram nossas primeiras lendas, nossos primeiros heróis, nossos primeiros mitos… O mar era um lugar que não permitia memórias, porque quem ia, não voltava. Até que alguém foi, e voltou. O primeiro navegante. E o fato de alguém encontrar uma maneira de ir para o mar e ir além, modificou a maneira de pensar dessas pessoas, criou novas memórias, novas sinapses, e aumentou o mundo. O mundo não acabava mais naquela linha horizontal que a gente enxergava, o mundo vai além do que os meus olhos enxergam; e ter a consciência disso foi uma imensa revolução.

Todos os povos que modificaram o mundo eram navegantes. Os gregos, os romanos, os ingleses, os vikings, os portugueses, os espanhóis, os chineses, os japoneses, os holandeses… a imensa maioria daqueles que transformaram a memória do mundo eram povos navegantes.

E em todas essas culturas, quando foi pensado na necessidade de se construir uma estrutura para que o ator que se apresentasse, as pessoas pediram ajuda para os navegantes, para os marinheiros. Antes os atores se apresentavam no mesmo nível dos espectadores, num chão de terra batida. Mas chegou um momento que era necessário uma estrutura melhor. Era necessário um chão melhor. E quem sabia fazer um grande chão de madeira, durável, sem falhas? Um grande convés? Os marinheiros. Depois precisávamos de cortinas, de tecidos para esconder coisas, e para revelar coisas. E quem sabia fazer grandes pedaços tecidos, que abriam, que dobravam, que eram móveis? Como se fossem grandes velas de um barco? Os marinheiros. E quem vai amarrar tudo isso? Os marinheiros. E quem vai levantar não-sei-o-quê? Os marinheiros. Os nossos primeiros técnicos de teatro, os primeiros engenheiros, arquitetos, cenógrafos, figurinistas, consultores… eram marinheiros. Não é a toa que se pegarmos esse palco aqui, e colocarmos na água, ele boia. E se colocarmos toda essa estrutura, com todos esses panos, essas velas, isso tudo que chamamos hoje de “palco italiano” e colocarmos no mar, ele navega.

A memória da humanidade, o seu encontro com o desconhecido, se materializa hoje, e como sempre foi, no palco.

Os primeiros marinheiros foram de encontro ao Desconhecido, os atores são os que ainda hoje, nos revela o Desconhecido.

E o que dizer do teatro? Daquilo que fazemos em cima desse barco de mistérios e ilusões? O teatro que é a mais fugaz das artes. O Teatro que assim que termina, que na última fala daquele ator, daquela atriz; que quando o iluminador abaixa a luz do último foco, lentamente; que quando não se ouve mais nenhum som… assim que a peça termina, o teatro acaba. Como algo pode ser tão frágil? E para isso, exigir um esforço tão grande? Tão milenar? Tão cheio de conhecimento, e inteligência, e criatividade, e paixões humanas? Como? E porquê?

Porque o teatro não tem fim. O teatro não acaba. O que acaba é a peça. Mas o teatro é eterno. E nós fazemos a mais poderosa das artes porque nós fazemos algo maravilhosamente bem e intrínseca a nossa existência: nós criamos memórias.

Quando um espectador assiste um espetáculo, ele não sai do teatro da mesma forma que ele entrou. Nós fizemos com que ele modificasse sua estrutura neural, isso se chama neuro-plasticidade, através da criação de uma nova memória.

Nós modificamos uma pessoa, nos tornamos parte dela, estamos para sempre na sua memória. E essa pessoa também fará parte da memória de outra pessoa, que fará parte de outra, de outra… Nós somos eternos.

Nós fazemos a mais poderosa obra humana, porque nossa obra é eterna; nós modificamos o mundo para sempre e o tempo todo. Por isso é tão grande a nossa responsabilidade, nós temos a responsabilidade de não fazer um teatro qualquer-coisa. Nós não podemos nos dar ao luxo de não fazer o nosso melhor teatro possível.”

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O porquê do Teatro dos 108 Desejos – parte II

Por | Artigos, Daquilo que vi, Teatro dos 108 Desejos | Sem comentários

Então o mundo se preparava para o Bug do Milênio. Havia um grande medo, gerando por um grande boato, baseado numa pequena ideia: e se os calendários internos dos computadores de todo mundo não entenderem a mudança do 99 (1999) para o 00 (2000), e zerar tudo, e assim todas as negociações, todos os acordos, toda transação feita pela internet simplesmente sumir?
Havia por perto o eterno companheiro da humanidade: o medo do fim. E o pessoal do teatro estava pronto para receber esse fim.

Pelo menos o pessoal do Teatro Oficina, em São Paulo, estava. Haviam organizando uma apresentação do espetáculo Bacantes, e eu estava lá. No meio do espetáculo, quando virou o ano de 2000, o teto do teatro se abre (sim, o teto do Oficina abre como um “teto solar”.) e está caindo uma suave chuva, e todos os participantes, atores, artistas, público, são convidados para pisar nas uvas que irá fazer o vinho de Dionísio, que será usado mais tarde no espetáculo. E eu estava lá. Pisando em uvas, recebendo a chuva, recebendo o novo ano – muitos não tinham percebido que ainda não era o novo milênio, inclusive eu. Á saber, quem lavou aquelas uvas durante a semana para serem usadas no espetáculo, fui eu. Aconteceram ensaios para quem quisesse atuar na peça, eu fui, mas eu decidi que queria ver acontecer, ser uma testemunha de um dos momentos mais legais que o teatro estava proporcionando no fim daquela década tão insana, estranha, e suicida. Mas para me sentir atuante de alguma forma, me candidatei para lavar as uvas. Valeu a pena.

Pessoas perderam roupas, pessoas tiraram as roupas voluntariamente, pessoas mamaram o leite das bacantes de suas próprias tetas. O espetáculo acabou, eram duas horas da manhã do dia 01 de janeiro, havia uma festa rolando em torno de um casal que conversava fascinados um com o outro. Bem, foi esse o começo de uma história de amor que vivi. E essa história durou muitos anos. E amor que não muda, acaba. E ela ia se mudar. Ia para uma faculdade no interior e eu queria que ela fosse feliz. Terminamos.

E um dia chega a notícia que ela estava namorando uma menina. E que estava apaixonada. E eu fiquei muito feliz. Ela era a mulher que eu mais tinha amado na vida, e estava amando. Eu só podia ficar feliz por ela. Porque ela havia encontrado aquilo que eu vivia. Eu só podia ficar feliz por ela e torcer para que aquilo durasse o tempo necessário para se transformar, e se tornar eterno e bom. A mulher da minha vida tinha encontrado a mulher da vida dela. Porra… eu achava isso maravilhoso!

E na mesma semana chega a notícia de que uma garota próxima de casa havia sido violentamente assassinada por ser lésbica. Isso me destruiu. Eu, que antes sorria e cantava pelo amor encontrado, comecei a sentir medo. Medo de que a mulher que eu amava poderia ser morta, simplesmente por amar outra mulher.

Eu não sabia o que fazer.

Eu decidi mudar o mundo. Se o mundo não é um lugar seguro para as pessoas que eu amo, eu iria fazer ser. Tive algumas ideias. Mas eu só sabia fazer teatro.

Então escrevi um texto chamado “Les”, que ganhou o Prêmio LGBT cedido pelo MinC. Esse texto foi apresentado em diversos lugares, e com o prêmio consegui pagar um ano de locação do espaço Satyros 2, na praça roosevelt. E nesse ano, eu escrevi e ensaiei mais dois espetáculos: “Eu queria ser a Cassia Eller” e “Conheci uma pessoa”. O “…Cássia…” foi assistido por uma quantidade imensa de casais formados por senhoras, o que me fez refletir muito sobre a solidão da mulher lésbica. O “Conheci…” foi escolhido para ser apresentado para as professoras do Ensino Fundamental II de São Bernardo do Campo, para poderem começar a entender, e gerar um diálogo, a respeito da homossexualidade que, na época, estava sendo reconhecida abertamente, inclusive em âmbito escolar. Essa apresentação ia ser num evento especial que acabou sendo cancelado (assim como outras ações LGBT na minha cidade…).

Com toda a experiência e estudo sobre o assunto, resolvi criar um grupo que só ia trabalhar nesta temática. E surgiu assim o Teatro dos 108 Desejos.

Um grupo destinado a acabar assim que fizer seus 108 espetáculos.

*Existe um momento na trajetória da Lua que cabem 108 luas entre a Terra e ela.
*Existem 108 saudações ao Sol na yoga.
*São 108 contas num colar budista.
*108 graus Fahrenheit é o limite que os órgãos internos aguentam, no corpo humano, antes de começarem a falhar.

A escolha de criar um grupo que irá fazer 108 espetáculos e terminar partiu da simples consciência de que se mesmo após tantas palavras escritas e faladas, tantas apresentações, tantas pessoas recebendo a mensagem, tantos esforços para por fim a homofobia, nada mudasse, não valeria mais a pena. Deveríamos pensar em outra coisa…

Ou se, pelo ao contrário, quando estreássemos o nosso 108º espetáculo, não houvesse mais homofobia, pelo menos digna de nota, não faria mais sentido ele existir, pois já tinha realizado sua missão.

O Teatro dos 108 Desejos nasceu para se tornar obsoleto. Esse é nosso maior desejo.

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O porquê do Teatro dos 108 Desejos – parte I

Por | Artigos, Teatro dos 108 Desejos | 2 Comentários

Esse texto abaixo existe porque uma vez, em uma conversa de bar, eu defendi uma questão em relação aos portadores da Síndrome de Down; e o cara em questão, me acusou de ser um fanfarrão, porque que eu apoiava Down, gay, mulher, negro, surdo, hindu, árabe… ele disse de forma bem grosseira que eu não sabia o que queria, porque não era possível alguém ser a favor de tanta gente…

 

Eu sempre quis ter filhos. Sempre. A primeira lembrança que eu tenho disso, eu devia ter 08, 09 anos. Eu amava a possibilidade de ter alguém que eu pudesse entender, já que eu não tinha ninguém que me entendia. Claro que era uma questão de ego. Mas não uma questão egoísta. Eu me achava tão mais esperto do que a maioria dos ursos, que acreditava que meu filho ia se sentir acolhido de um jeito que eu nunca fui, porque afinal eu ia ser o melhor pai do mundo. Ele nem ia precisar da mãe. Eu iria bastar para educar um dos melhores seres que o planeta já teria recebido em sua existência… Bem, eu tinha 08 anos… eu só gostava das meninas, não sabia ainda que elas eram necessárias para meus planos.

Quando eu fiz 14, eu sabia que meu filho seria uma menina. Eu já tinha escolhido diversos nomes, e imaginado diversas aventuras, onde eu – o melhor pai do mundo – era capaz de fazer minha filha sorrir muito. E sempre.

Quando eu fiz 18, percebi que eu não devia ter filhos. Eu já tinha visto muitas coisas ruins no mundo, e não era isso que eu queria para a minha criança. Eu queria que ela crescesse e se desenvolvesse e amasse e fosse feliz. Eu queria o que todo pai quer: dar as oportunidades que não teve. Por mais besta e simplório que seja esse pensamento, o desejo de fazer melhor do que os nossos pais faz parte da natureza, é quase impossível de evitar. Pelo menos em mim.

Eu percebi que meu filho podia nascer negro, e que o mundo não estava preparado ainda para entender a sua beleza.

Eu percebi que meu filho podia nascer com a Síndrome de Down, e que o mundo ainda não era inteligente o suficiente para se adaptar a ele.

Eu percebi que meu filho podia nascer surdo, e que isso tornaria o mundo cego para ele.

Eu percebi que meu filho podia nascer homossexual, e que meu amor por ele teria que ser mais forte que um mundo todo feito de ódio.

Eu percebi que meu filhos e minha filhas – nessa época eu já estava querendo alguns casais de gêmeos – poderiam ser iguais a milhões e milhões de outras pessoas. Pessoas que eram tratadas como se fossem minoria, e caso fossem – e não são, como se ser minoria fizesse alguém menos humano. Menos digno. Menos necessário.

Eu comecei então a estudar para tentar entender a situação e a realidade do negro, do Down, do surdo, do gay, da mulher… e fui fazer teatro na esperança vã de tornar o mundo um lugar mais seguro e confortável para a pessoa que mais amei na minha vida: meu filho que não nasceu.

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“Não perca o foco, não perca a deixa, não perca a fala. Tanto na vida como na cena.”

Por | Artigos, Manifesto | Sem comentários

Atores e atrizes são atores e atrizes o tempo todo. Ser ator não é algo que se “desliga” – você nunca “está” ator, você “é” ator – e assim, sua ética, sua poética, seu aprendizado e treinamento, te acompanha dentro e fora da sala de ensaio, dentro e fora do palco.

Depois que você fez algum curso, alguma iniciação, e decidiu fazer dessa realidade a sua profissão, e não um hobby – Profissão vem do latim professio e significa professar publicamente: Uma confissão pública de um labor que você diz ter domínio e ter se especializado para sua execução. Quando você assume publicamente que faz Teatro, você assume o Teatro em você para o mundo. Isto significa que você não pode deixar de assumir o Teatro em você, para você mesmo.

Temos o mundo inteiro como um grande laboratório teatral. O trajeto da nossa casa até a sala de ensaio pode estar repleto de opções de treinamento e prática. O tempo todo e em todo lugar podemos criar um momento para nos conhecer melhor, e nos aprimorar, para ter um melhor resultado em cena. Sempre podemos encontrar um jeito de evoluir em nossa arte. Da mesma forma que sempre encontramos uma situação que podemos ser seres humanos melhores.

Assumir o Teatro em você, te permite tratar a vida como algo a ser experienciado, te permite ser o protagonista do seu cotidiano – e não apenas um passageiro, alguém que é simplesmente carregado pelos acontecimentos. Ser ator é ser atuante. É ser guerreiro e servidor.

A prática de nossa arte guerreira e servil nos torna aptos a reconhecer poesia, dança, personagens, cenas, nuances, onde a grande maioria das pessoas veem apenas fatos e coisas; a preparação física que passamos nos torna mais resistentes e flexíveis, nos protegendo tanto contra desgastes físicos da vida ordinária, como também dos desgastes mentais que podemos sofrer durante os debates com pessoas ordinárias. O nosso treinamento mental, nossos exercícios de memorização e atenção, nossa prática de coexistência – que nos ensina a ver e ouvir o outro, livre de opiniões preconceituadas, nossas revelações emocionais, nossas fragilidades assumidas, assimiladas, e expostas, se transformam em nossas táticas diárias de defesa e ataque.

Fazer teatro é sentir-se vivo. Ser ator é vivenciar a vida. Estar em cena é manifestar a Vida.

Dizemos que um ator nunca está formado, pois todo dia ele aprende algo, ele exercita algo, ele pode (e deve) colocar em função de seu ofício, cada dia, aquilo que lhe então, agora é novo. O ator sempre se renova, e sua arte é sempre nova. Ofício vem do latim Officiu: atividade que envolve a sociedade como um todo. A prática de seu officiu (Ofiiciis), significa: o dever de uma obrigação cumprida.

Ouvimos que o teatro está morrendo. É verdade. Na verdade, o teatro morre toda noite; E todo dia ele renasce. A cada minuto, a cada respiração sua, o teatro se fortalece. Ele vibra dentro de você, e isso contagia a sociedade como um todo.

Lembre-se que nosso corpo é formado em sua maior parte por água. Uma das funções do ator é aprender a locomover essa grande massa de água da melhor maneira possível. Aprender suas capacidades e ampliar os seus limites. Descobrir como e quando sermos firmes, capazes de perfurar a rocha; como e quando sermos flexíveis, e contornar os desafios; como e quando sermos translúcidos, e reflexivos, fazendo o mundo brilhar em nossa ótica… Nossas capacidades são infinitas.

Tenha orgulho de sua arte, e a manifeste todos os dias.

Entrevista

Um artista inquieto sem medo de desafio

Por | Artigos, Notícias, Novidades, Projeto Social | Sem comentários

 

Fui entrevistado para o Guia da Cidade, de São Bernardo do Campo.

Cortaram algumas coisas… mas o resultado foi bacana.

 

De 1992, quando começou a fazer teatro, para cá, Ronaldo Ventura busca desvendar os mistérios da mímica, do circo, das danças tradicionais brasileiras. Estudou teatro clássico japonês e mergulhou no universo de mestres como Grotowski, Eugênio Barba e Luis Otávio Burnier. Neste mês, dois espetáculos encenados nos palcos da cidade têm, nos créditos, o nome deste ator, diretor, dramaturgo e escritor, que mora no bairro Paulicéia.

Guia da Cidade: Como sua formação em Educação Física ajuda a ser ator e diretor?

Ronaldo Ventura: A Educação Física estuda o corpo humano, suas possibilidades de movimento, suas potencialidades… E meu teatro sempre foi baseado no que o corpo do intérprete produz e representa. Enquanto ator, aprendi como dispor do meu corpo de uma maneira mais eficiente. Enquanto diretor, aprendi com a Educação Física como ajudar o ator a alcançar sua eficácia.

Há ligação entre a peça Bendita entre as mulheres e o projeto do grupo Teatro dos 108 Desejos?

Ronaldo Ventura: Há a ligação ideológica, que é combater a ignorância. As atrizes do Bendita entre as mulheres, a Ana Claudia Lima e Stela Ramos, me chamaram para participar do projeto porque conheciam o meu trabalho com o Teatro dos 108 Desejos. Juntos, fizemos um espetáculo bem bonito, que descreve a história real da primeira mulher condenada por amar outra mulher. Um tema urgente nos dias de hoje.

Ori Othello é uma adaptação da obra de Willian Shakespeare. Qual é o diferencial do espetáculo?

Ronaldo Ventura: O grande diferencial foi a pesquisa em cima da corporeidade da dança afro. O elenco se apropriou da dança afro para criar as ações dos personagens, isso criou uma movimentação dinâmica, rítmica e ativa.

Qual é o objetivo da dança dos Orixás? Qual é a relação com o espetáculo?

Ronaldo Ventura: A dança dos Orixás é uma dança mítica e mística. Mítica porque suas movimentações contam histórias. Os dramas e o cotidiano dos Orixás estão representados em sua dança. Mística porque sua psique, sua ética, suas potencias também estão presentes naqueles passos de dança. E isso gera uma força cênica e uma plástica que amplia e muito a presença do ator. Não foi uma questão religiosa, mas uma questão estética. Claro que tratada com todo o respeito que todas as crenças merecem.

De um passado recente para cá, toda vez que se fala sobre a produção cultural na cidade o nome do bairro Paulicéia vem à tona. Qual a importância do bairro neste contexto.

Ronaldo Ventura: A Paulicéia foi o maior berço cultural de São Bernardo do Campo numa época em que a cidade era um grande celeiro de arte e cultura. A Paulicéia formou artistas em todas as linguagens, muitos premiados internacionalmente. Lá, ainda moram dramaturgos de renome nacional, autores publicados, grandes nomes do balé nacional foram alunos da saudosa Miti Warangae, na Paulicéia; artistas plásticos como Sarro e Mikio, também produziram muitas de suas obras no bairro. Quando o Teatro Procópio Ferreira estava aberto, o bairro produzia sua própria agenda, e ocupava o espaço o ano todo. Juntos (Teatro Procópio Ferreira, Biblioteca Érico Veríssimo e CREC), promoviam um evento anual que se chamava “Desvairando a Paulicéia” que duravam dias, com apresentação de poetas, bandas, exposição de artes, de colecionadores de vinil, de selos, espetáculos de teatro, de dança…

O bairro tinha 21 grupos de teatro, vou repetir porque é inacreditável mesmo: 21 grupos de teatro, 8 grupos de dança (incluindo balé, sapateado, dança Moderna, sem contar os grupos das escolas de balé do bairro), 5 grafiteiros trabalhando profissionalmente, 2 corais cênicos, 19 bandas de rock… E nem vou falar do esporte, dos times de bocha que foram campeões algumas vezes, representando a cidade; no bairro havia uma sala que grupos de Capoeira Angola e Regional dividiam o mesmo espaço, sem conflito, algo único. Sem contar os encontros para a prática de Yoga, Liam Gong, Tai Chi Chuan, Gatebol, que aconteciam gratuitamente, por estímulo dos próprios moradores, e tudo isso num bairro afastado do Centro.

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O Teatro é a última trincheira da humanidade. Defenda-o.

Por | Artigos, Manifesto | Sem comentários

Diante de um oponente maior, ou de uma derrota iminente; ou você se rende ou foge; ou você é morto; ou você dinamiza aquilo que nos torna humanos, nosso “ser” e “fazer”, desperta suas potências, e cria um momento e um espaço para respirar, concentrar suas forças, planejar os próximos movimentos, propor os contra-ataques, vislumbrar uma situação melhor… Você faz uma trincheira.

Fazer trincheiras, apesar de serem bastante simples em termos de engenharia e tecnologia, é algo que possibilita tanto a defesa quanto o ataque; é manifestar sua existência, é expressar a sua recusa em aceitar alguma inferioridade que lhe está sendo imposta.

Nós fazemos teatro. E nos impomos. Manifestamos nossa existência perante nossos oponentes que parecem maiores, perante nossas derrotas que parecem inevitáveis. Lutamos cada dia, para apresentar o que há de humano para a própria humanidade. Enfrentamos conceitos, enfrentamos abstrações, enfrentamos razões irracionais, enfrentamos a subsistência, enfrentamos o descaso. E mesmo assim, nós fazemos teatro.

Nossos inimigos são perigosos porque se parecem conosco. Eles são falhos como nós somos, e acreditam que estão certos, do alto de sua iminente vitória, nos desprezam, a nós e o nosso ato de criar espetáculos, nossos ensaios, nossos coletivos, nossas redes e tramas… desprezam nosso ato de coragem. Mas nós temos uma vantagem: Nós fazemos teatro!

O teatro é a resposta dos fracos.

Aqueles que precisam pensar e agir. Aqueles que se esforçam para alcançar suas metas. Aqueles que precisam se unir para sobreviver. Aqueles que às vezes são obrigados a parecerem estáticos, enquanto se movimentam fora do alcance da visão, enquanto planejam, enquanto concentram suas forças.

O teatro é a resposta dos corajosos.

Aqueles que não se calam. Aqueles que não se submetem. Aqueles que olham para o gigante e não dizem “não temos como derrubá-lo”, mas pensam “não tem como não acertá-lo”.

O teatro é a resposta dos audazes. Dos que ousam. Dos impertinentes.

O Teatro é um ato de resistência, insistência e persistência.

É rebeldia. É proteger o que há de mais frágil e atacar onde é mais frágil. É ser humano diante de outro ser humano. É cavar trincheiras.

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Se você puder não fazer Teatro, não faça. Mas se você não tem outra opção… Por que a dúvida?

Por | Artigos, Manifesto | Sem comentários

Todos nós, quando percebemos que existe diferença entre brincar e fazer teatro, somos tomados pela mesma dúvida: Eu quero mesmo fazer teatro?

Ser ator é vocação; é exigência; é disponibilidade plena. É entregar nossas preciosidades a alguém que talvez não aceite, ou não entenda – mas isso não importa, porque insistiremos nesse ato até o fim. Porque ele é importante. É importante para nós.

Quando alguém me pede uma opinião, ou me pergunta em algum debate, se eu tenho uma boa sugestão para quem está pensando em começar a fazer teatro, eu sempre respondo que sim: “Não faça!

Se você está pensando em fazer teatro, quer dizer que está decidindo entre várias opções. Quem decide fazer teatro, não tem opção.

Se você perguntar para uma pessoa que tem o teatro como parte indissociável de sua vida, como foi que ela decidiu fazer teatro, é bem capaz que ela não saiba responder. Porque foi orgânico, foi natural. Fazer teatro faz parte de nossa natureza.

E lutar contra nossa natureza só machuca a nós mesmos.

Quando entramos numa sala de ensaio pela primeira vez, e ficamos descalços sem saber por que, quando damos as mãos e formamos aquela roda junto com alguns desconhecidos… quando começamos a jogar bolinhas, a correr atrás do outros, a repetir e decorar nomes de nossos companheiros… nós não fazemos ideia que aquilo que parecia apenas um momento divertido, iria invadir tão profundamente a nossa alma.

Possivelmente precisamos até nos afastar para perceber a falta que tudo isso nos faz. E as vezes nos afastamos. “Damos um tempo”. Quem é do teatro nunca para de fazer teatro, “dá um tempo”.

O teatro parece um ser vivo que habita em nós, com fome, que exige atenção; e quando nos afastamos por algum período, ele parece hibernar; mas de repente, esse ser, esse bicho adormecido, acorda, e começa a nos devorar por dentro, obrigando a gente a voltar a ensaiar, a voltar ficar descalço, formar uma roda com pessoas como nós… Aí você não se pergunta mais se quer fazer teatro ou não; porque você já sabe a resposta.

Não. Você não quer. Você precisa!

Você precisa daquele diretor amigo, ou não; bravo, ou não; engraçado, ou não. Precisa daquelas pessoas que te conhecem, ou não; que te admiram, ou não; e não importa, porque você não está lá para ser engraçado, conhecido ou admirado… sua necessidade de estar lá existe porque você sabe que precisa estar ali. Com aquelas pessoas que confiam em você. Com aquelas pessoas que também precisam de você. Teatro é comunhão.

Quando decidimos – e aceitamos – fazer teatro, não sentimos solidão – mesmo estando sozinhos. Nós sentimos solitude.

Solidão é um sentimento de abandono, de inutilidade, e trás, ou surge de, uma necessidade de companhia. E podemos viver essa situação mesmo cercado por pessoas que nos amam. Solitude é um estado em que estamos sós, recolhidos, mas repletos de satisfação. Porque estamos em paz com a gente mesmo.

E acredito que é isso que nos motiva a entrar para o teatro, ou escolher o teatro, ou a voltar para o teatro… Porque queremos estar em paz com a gente mesmo.

Se você puder não fazer Teatro, não faça. Mas se você não tem outra opção… Por que a dúvida?

Por | Artigos, Manifesto | Sem comentários

Todos nós, quando percebemos que existe diferença entre brincar e fazer teatro, somos tomados pela mesma dúvida: Eu quero mesmo fazer teatro?

Ser ator é vocação; é exigência; é disponibilidade plena. É entregar nossas preciosidades a alguém que talvez não aceite, ou não entenda – mas isso não importa, porque insistiremos nesse ato até o fim. Porque ele é importante. É importante para nós.

Quando alguém me pede uma opinião, ou me pergunta em algum debate, se eu tenho uma boa sugestão para quem está pensando em começar a fazer teatro, eu sempre respondo que sim: “Não faça!

Se você está pensando em fazer teatro, quer dizer que está decidindo entre várias opções. Quem decide fazer teatro, não tem opção.

Se você perguntar para uma pessoa que tem o teatro como parte indissociável de sua vida, como foi que ela decidiu fazer teatro, é bem capaz que ela não saiba responder. Porque foi orgânico, foi natural. Fazer teatro faz parte de nossa natureza.

E lutar contra nossa natureza só machuca a nós mesmos.

Quando entramos numa sala de ensaio pela primeira vez, e ficamos descalços sem saber por que, quando damos as mãos e formamos aquela roda junto com alguns desconhecidos… quando começamos a jogar bolinhas, a correr atrás do outros, a repetir e decorar nomes de nossos companheiros… nós não fazemos ideia que aquilo que parecia apenas um momento divertido, iria invadir tão profundamente a nossa alma.

Possivelmente precisamos até nos afastar para perceber a falta que tudo isso nos faz. E as vezes nos afastamos. “Damos um tempo”. Quem é do teatro nunca para de fazer teatro, “dá um tempo”.

O teatro parece um ser vivo que habita em nós, com fome, que exige atenção; e quando nos afastamos por algum período, ele parece hibernar; mas de repente, esse ser, esse bicho adormecido, acorda, e começa a nos devorar por dentro, obrigando a gente a voltar a ensaiar, a voltar ficar descalço, formar uma roda com pessoas como nós… Aí você não se pergunta mais se quer fazer teatro ou não; porque você já sabe a resposta.

Não. Você não quer. Você precisa!

Você precisa daquele diretor amigo, ou não; bravo, ou não; engraçado, ou não. Precisa daquelas pessoas que te conhecem, ou não; que te admiram, ou não; e não importa, porque você não está lá para ser engraçado, conhecido ou admirado… sua necessidade de estar lá existe porque você sabe que precisa estar ali. Com aquelas pessoas que confiam em você. Com aquelas pessoas que também precisam de você. Teatro é comunhão.

Quando decidimos – e aceitamos – fazer teatro, não sentimos solidão – mesmo estando sozinhos. Nós sentimos solitude.

Solidão é um sentimento de abandono, de inutilidade, e trás, ou surge de, uma necessidade de companhia. E podemos viver essa situação mesmo cercado por pessoas que nos amam. Solitude é um estado em que estamos sós, recolhidos, mas repletos de satisfação. Porque estamos em paz com a gente mesmo.

E acredito que é isso que nos motiva a entrar para o teatro, ou escolher o teatro, ou a voltar para o teatro… Porque queremos estar em paz com a gente mesmo.

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Um Teatro que não dói, não é um bom Teatro.

Por | Artigos | Um comentário

“Eu não sei o que faz uma peça, ser uma peça ruim. Mas eu reconheço uma peça ruim quando eu a vejo.” – Uma vez eu disse isso numa reunião cheia de “artistas” e apesar de ser massacrado pelas opiniões contrárias e hipócritas, percebi que era uma verdade. Eu não sabia o que tornava um espetáculo – mesmo que ele tivesse sido ensaiado seriamente, com atores realmente esforçados, com elementos plásticos bem produzidos – um espetáculo ruim.

Parece pecado falarmos de Qualidade, Importância, e até mesmo Utilidade de nossa arte. Mas se nós não falarmos sobre isso, te garanto que ninguém irá falar. A pior coisa do mundo é um teatro ruim. Além de ser algo triste de ver, ele joga contra. Uma pessoa que nunca foi ao teatro, e a primeira peça que assiste na vida é uma coisa ruim… acredite, será a primeira e última experiência daquela pessoa. E assim, não perderemos só um espectador; perderemos vários, pois essa pessoa tem amigos que irão saber muito bem (ou muito mal) aquilo que você fez em cena; e esta pessoa também terá filhos, que não serão educados a apreciar nosso trabalho. Muito pelo contrário, só ouvirão coisas ruins sobre nós e nossa arte.

Já é difícil explicar para nossos pais e amigos o porquê de fazermos teatro. Explicar o porquê de termos feito um teatro ruim então, é algo impossível. É inexplicável!

Sim. Não temos o direito de fazer uma arte duvidosa.

Mas como qualificar nossa obra? Se o teatro, enquanto arte, se baseia em tantos elementos subjetivos, como apontar, de forma objetiva essa suposta “qualidade”? Em outras palavras: O que faz nosso trabalho ser bom?

Nossos espetáculos podem ter diversas origens, diversos princípios, diversos objetivos, e variados fins… Mas somente a sua arte possui uma única coisa exclusiva: você.

Não estou dizendo que se estiver bom para você, quer dizer que está bom para o mundo. Eu realmente NÃO quero dizer isso. Esse pensamento é um dos grandes responsáveis pela baixa qualidade de alguns espetáculos. Quero dizer que você pode utilizar um “termômetro de qualidade” que existe dentro de cada artista: a dor.

O ator deve doar. O Teatro deve doer.

Deve doer na consciência. Doer no afeto. Doer na alma.

Toda vez que temos dúvida, dói. Toda vez que amamos, dói. Toda vez que encontramos uma verdade que queremos negar, dói.

Dói quando vemos aquela série de situações que poderiam ser facilmente evitadas, levando dois apaixonados a se matarem em Romeu e Julieta; dói quando vemos aquela mulher sendo forçada a entregar os seus filhos, um a um para a guerra, em Mãe Coragem; dói a sentença de Antígone que só queria enterrar o irmão. Como dói aquele gesto firme e cheio de significados do ator. Como dói a verdade transparente nos olhos daquela atriz que não precisa dizer nada. Como faz doer aquela música que apareceu naquele justo momento da cena. Como faz doer aquele silêncio imóvel que vai sumindo diante de nossos olhos, enquanto a luz abaixa.

As vezes não sabemos o quê, nem porquê, mas sabemos que dói. E se doeu, significa que algo reverberou em algum lugar dentro de você.

Você pode criar suas cenas pensando em fazer doer no espectador. Talvez, repito: TALVEZ, isso implique na utilidade da sua obra (“Ela é útil? Ela faz doer? Essa dor vai gerar alguma mudança?”). Mas se a sua dúvida for sobre a qualidade de sua obra, se ela é boa ou não, você tem que se perguntar: “Isso dói em mim?”. Se a resposta for sim: Se é um tema que te motiva, se é uma estética que te provoca, se é um processo de criação que te estimula… se algo, no meio do caos coordenado, que é a criação de um espetáculo, dói em você… Então, pelo menos, você está em um bom caminho.
Mesmo que você acredite que não será bom para ninguém o ver, se dói, é um bom Teatro.

“Uma peça só é boa se é de verdade”, “Faltou verdade em cena”, “O elenco não fazia de verdade”. Estas e muitas frases parecidas já foram ditas, e não ajudaram ninguém a melhorar o seu trabalho; exatamente porque é algo realmente difícil de explicar quando uma peça “não chega” no espectador. Uma dica? Faça doer.

É muito fácil fingir que se faz teatro. Vemos isso todo dia, mesmo em nossos próprios ensaios. Ás vezes, até na gente mesmo. Devemos lutar contra isso. Agir no desconforto.

O espectador é um sujeito que saiu de casa; desligou a tv, fechou o jornal, se desconectou da internet, e foi ao teatro na busca de algo que ele não encontra em nenhum desses lugares: uma Verdade. O espectador que sentir e viver uma Verdade que até então ele não sabia que existia. E ele precisa que você ator/atriz vivencie uma Verdade, para que o espectador possa reconhecer a dele.

Os seres humanos se reconhecem na Verdade, e se atraem pela Verdade. E por mais clichê que isso pareça, te garanto: a Verdade dói.