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Por | Contos Curtos | Sem comentários

“O que há entre tu mais eu, é só distância. Isso se resolve num pulo, num galope de cavalo bravo. Se pra ti e pra mim, se pra dois de nós virar um só, se o problema for só esse: chão de terra. Nem que for de mula manca! Cada passo que eu der, é um tanto a menos de mundo que fica pra trás. E é isso que me importa. Eu pra perto de você. E seja sob o sol, e seja sob a lua. E que venha vento, pó e chuva. Que tenha rio, montanha, carrapicho, tiririca, espinho ou farpa. Se cada isso que mostro nesse pequeno espaço com os dedos, se cada disso que conquisto, diminui o tempo que falta pra dormir no teu braço, me derramar no teu cheiro, eu enfrento. Se isso, esse espaço cheio de nada, se toda nossa dificuldade é estar em movimento. Me aguarde que tô chegando.”

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Se tudo der errado…

Por | Manifesto | Sem comentários

Se tudo der errado eu viro parteiro de flores.
vou recolher frutos de árvores e arbustos.

Se tudo der errado eu viro apreciador de vidros e líquidos.
e brindarei em louvor a todos aqueles que deram certo.

Se tudo der errado eu serei aquele velho que fica rindo
comendo amendoim, querendo um caldo de cana, olhando para a bunda de alguém, lembrando de todas que deram certo, para as pessoas certas: aquelas que elas queriam.

Se tudo der errado eu viro piada, viro história, viro aquele cara que um dia “morou aqui, sabe, e fez tal coisa,e sumiu”.

Se tudo der errado eu viro apontador de estrelas, fazedor de suspiros, provador de pudim.

Se tudo der errado coçarei meu umbigo para sempre.

Se tudo der errado vou me preocupar em tirar a cadeira do sol.

Se tudo der errado, deixarei minhas filhas com dúvidas e atentas. Deixarei meus livros para suas poeiras. Esquecerei a batata e o peixe ardendo na fogueira.

Se tudo der errado, talvez tenha dado tudo certo. Eu que não prestei atenção.

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desconexões – Estudo 01

Por | Contos Curtos | Sem comentários

Ela piscou duas ou três vezes. Um pouco mais rápido que o normal. Precisava ficar atenta e isso não estava sendo fácil. Mordeu o lábio inferior como um tique. Sentiu o gosto do próprio batom e voltou para o devaneio. Pensou em qual serio o fim do livro que estava lendo. Cantou um treco de uma música que costumava ouvir. Imaginou que seria uma grande baterista se tivesse tempo para isso. Lembrou de uma roupa que queria comprar. Contou mentalmente o troco do ônibus para saber se dava para comprar um churros ou não. E riu porque lembrou do Chaves e do churros da Dona Florinda.

O rapaz estava falando horas, falou sobre teorias da comunicação, sobre dramaturgia contemporânea, sobre eventos gratuitos e sobre como seria vantajoso para ela, receber um beijo dele. Foi nesse momento que ela riu.

Ele imaginou que ela estava fácil.

Ela ficou pensando em como sair fora rapidinho porque começou a sentir um pouco de fome.

Ele perguntou o que ela achava disso tudo, o que mais lhe interessava.

Ela respondeu doce de leite. E lambeu os lábios.

Ele piscou duas ou três vezes. Um pouco mais lento que o normal. Precisava entender o que ela tinha respondido.

Ela já tinha dado tchau, e descido a rua, indo para o ponto de ônibus.

Ele ainda não tinha percebido.

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Crônicas Capixabas/Capixabas Crônicas 01

Por | Contos Curtos | Sem comentários

Há muito tempo atrás comecei a escrever alguns estudos para contos, inspirado em algumas mulheres capixabas apaixonantes… Decidi trazer a tona alguns deles:

(sobre a imagem: bem, não é ótima?)

“Tinha triscado a pintura da unha. E riu alto pensando na palavra “triscado”. Fechou rápido a boca com medo do que pensariam dela rindo alto de repente. Abriu ainda mais os olhos quando fechou rápido a boca. Ao contrário do que se espera, o abrir ainda mais os olhos não a fazia enxergar melhor. Gastou uns 04 segundos para “consertar” a vista e perceber o que estava diante dos seus olhos. Diante dos seus olhos havia sua mão, com suas unhas mal pintadas, com o esmalte todo triscado. Riu alto quando pensou na palavra “triscado”. E desistiu de fechar a boca”

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Por | Contos Curtos | Sem comentários

“Tinha aquele gosto meio de vidro e aquela sensação de doce. E em torno era um mundinho rosa, ceramicado, com almofadinhas de carne. Havia sinuosidades, reentrâncias e som de uma risada sem dono. Era gostoso assim, comer pé-de-moleque na sua mão.”

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Um pequeno barulho sobre o silêncio.

Por | Artigos, Manifesto | Sem comentários

Que som fazem aquelas coisas não fazem barulho? Como soam? O piscar dos olhos, aquele momento entre o sono e o despertar, a sua língua secando por algum motivo que você não gostaria de revelar…

O silêncio existe em pequenas frações, entremeado em nossas ações diárias. Naquele microssegundo antes de pousarmos a caneca de café na mesa, um pouco antes daquele suspiro.
Mas ele também existe depois. Depois que batem a porta. Depois que desligamos o chuveiro. Depois que cansamos de chorar.
Cotidianamente o silêncio nos permite sobreviver em pequenas ilhas de lucidez, enquanto somos inundados por “som e fúria”. É comum, mesmo que de forma inconsciente, utilizar o silêncio para respirar aliviados, ou tomarmos um fôlego.

Mas não estamos falando de pessoas comuns. Estamos falando de atores.

Pessoas que possuem a qualidade de atentar para o ordinário e torna-lo extraordinário. Que têm como tarefa de vida, estar atentos e prontos. E estarmos atento para o silêncio pode nos trazer surpreendentes resultados.
Existe aquele silêncio da plateia antes do espetáculo começar; assim como existe aquele silêncio que nos invade antes de entrarmos em cena. Mas não é desse silêncio que estou falando. Além do quê, se você parar para viver esses silêncios que mencionei, o espetáculo não irá acontecer, e as pessoas ficarão extremamente chateadas.

O silêncio, que estou falando, possui uma particularidade: quando se faz presente, quando o percebemos, ele altera nossa percepção das coisas. Ele se instala. Você o percebe e você o vive, ao mesmo tempo.

Essa sensação pode acontecer em qualquer lugar, com qualquer um; mas nós, atores, temos uma vantagem: nós podemos produzir o silêncio. Somos capazes de o reproduzir, e de o utilizar de forma produtiva, esse momento que surgiu antes de tudo, antes de surgir qualquer coisa, tanto na mente humana, quanto no universo físico que conhecemos.

Perceba: Tudo que o chamamos de “real” são nossas impressões sobre tudo. Temos a impressão de andarmos em uma linda plana, mas o planeta é redondo. Temos a impressão de estarmos de “cabeça para cima”, mas no espaço não existe “cima”; e quem está do outro lado do globo também não está de “cabeça para baixo”. Temos a impressão de que o céu é azul, mas não é. E como a água é transparente, o mar não pode ser verde. E por aí vai.

Quando entramos em estado de “silêncio”, nossas impressões se modificam. Ou se modificam ou não importam; já não faz mais diferença nesse momento. Mas a nossa realidade é ampliada. Até o tempo se manifesta diferente. Já percebeu a diferença da duração das horas em um ensaio, e a duração do mesmo número de horas dentro de uma sala de aula chata?

No colégio, nas ruas, nos meios de transporte, na vida cotidiana como um todo, o que impera é o ruído. Não há melodia. Há uma sobreposição espalhafatosa e forçada de sons, que buscam te oprimir e te prender.
Quando você, em sua sala de ensaio, começa por buscar o silêncio. Primeiro dentro de você, depois com os outros, depois com o trabalho a ser realizado, nada te oprime e nada te prende, porque você alterou sua percepção das coisas, e assim sua realidade.

Lembrando que silêncio não é ausência de som. É sintonia.

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Por | Contos Curtos | Sem comentários

“Ela estava sorrindo. Não havia muitos motivos para isso, mas nem pensava nisso, sorria e pronto. Esticou os braços, as pernas, cheirou a própria pele, e lembrou de uma história engraçada que é particular demais para registrar aqui. Decidiu pela roupa que usar a noite começando pela lingerie, que era simples, bonita, nova e confortável. Do jeito que gostava. Não tinha o que reclamar do seu corpo, até agora ninguém nunca tinha reclamado, e sabia que não era uma roupa que ia ficar escondida a maior parte da noite que ia lhe deixar mais bonita. E também, se houver tempo e luz suficientes para analisar a calcinha e o sutiã, para quê que eu vou então, né? E deu uma fungadinha no fim do pensamento. Para confirmar o pensamento e dar um jeito numa coceirinha no nariz. Saiu andando até o quarto para confirmar se ia de saia ou calça. Mulher quando quer, quer. Escolheu a saia e foi para o banheiro. Lavando os cabelos começou a pensar nos motivos que a levou a aceitar o jantar, mesmo imaginando onde seria o café-da-manhã. Achou que eram motivos suficientes, e desligou o chuveiro cantando uma música que era mais velha que suas roupas. Riu de sua própria vergonha. Quando terminou a maquiagem simples, gostou do que viu. Ainda estava sorrindo. Ela era sincera e sorria quando queria. Foi atender a campainha pagando todas as luzes que ia deixando para trás. Abriu a porta e gostou do que viu. Ela sorria e pronto.”

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Por | Contos Curtos | Sem comentários

“Elas piscou os olhos, que eram claros demais para assimilar tanta luminosidade. Ainda mais a essa hora da manhã, ela pensaria nessa frase, se tivesse tempo. Ouviu um ruído que poderia ser uma turbina de avião caindo, ou algum ataque de animal selvagem, mas apesar do susto, seu cérebro era mais esperto que ela, e reconheceu o som como algo conhecido como “mãe”. Estava de pé, procurando algum chinelo. Arrastava as meias pelo quarto, mas isso não era um problema dela. Sua mãe gritava constantemente sobre isso. Mãe! Usou 20% acordados do cérebro para se lembrar que essa pessoa existia. Estava gritando. Essa informação acordou o que restava. Desceu a escada se atropelando e tropeçando em si mesma, apenas para voltar correndo, seguindo a ordem para ir se trocar logo, e sendo informada que já estavam atrasadas. Ainda estava atordoada pelo sonho. Era um sonho bom e longo. Não esperava estar atrasada, assim, logo cedo. Na verdade, ela nem sabia para o quê ela estava atrasada. Mas ela teria tempo para isso. Teria muito tempo. Um dia inteiro para desejar não ter acordado logo na hora que ia receber um beijo.”

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Estrelas no céu da sua boca.

Por | Contos Curtos | Sem comentários

“Ele mordeu uma carambola, que devia estar muito doce e suculenta. Sei por que conheço seu sorriso, naquela forma de quase riso; nos pequenos sons que soltava nos seus momentos de pequenos prazeres. Ele sorriu e passou as costas das mãos naquele lapso de rosto entre o queixo e o lábio. Havia muitas coisas que só eu percebia. Uma delas é que sua voz ficava um pouco mais suave depois de comer qualquer fruta, outra é que minha barba arranhava sua nuca e nunca ficava vermelha, diferente do seu pescoço. Algo que ele nunca soube era que seus olhos brilhavam diferentes quando tinha acesso a alguma novidade doce, como também nunca deve ter percebido que distende os músculos da perna, como um bailarino, na hora que a gente se ama. Talvez tudo isso e algo mais que nunca foram necessários serem notados. Para mim estava tudo bem, se apenas eu for capaz de saber o quanto ele estava bem e contente no seu pequeno ato de criar estrelas a cada mordida.”