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Capixabas Crônicas / Crônicas Capixabas – 02

Por | Contos Curtos | Sem comentários

“Ele pagara as contas da luz, água, celular, internet, e a do cartão. Só não pagou a do gás porque ainda usava bujão. Mas isso vai mudar, disse uma vez Janete, cansei dessa coisa feia e suja, não quero nem saber mais se está vazando. Mês que vem, ou você encana o gás, ou leva um cano meu! Ameaçou Janete. Cidinho sabia das coisas. Janete ainda fazia alguma comida durante a semana, ele não queria perder esse prazer. Já estava cansado das pizzas, hot-dogs, beirutes, e o que mais entregassem na sua casa, mas Janete estava mais cansada que ele para ficar em frente do fogão. Cidinho lhe dava atenção, pagava suas roupas, não reclamava quando ela saía para dançar com as amigas, e não comentava que se ela estava tão cansada assim, devia era ficar em casa. Cidinho era um bom marido. não traía, nem nunca pensara nisso; e quando Janete não estava disposta, nem insistia no sexo, que praticava sozinho e escondido. Cidinho era bom para Janete, sabia disso. Mas as vezes ser um homem bom não é suficiente, ele pensou quando decidiu que sim, mês que vem, ia mandar encanar o gás. “

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Ontem eu tentei o suicídio

Por | Contos Curtos | Sem comentários

“Ontem eu tentei o suicídio:
Atravessei a avenida sem olhar para os lados.

Abri o microondas antes de apitar.

Comi toda a salada.

Chamei o judoca de fresco.

Passei por baixo da catraca do ônibus.

Passei a mão na bunda do guarda.

Tomei leite com manga.

Pus a mão na taturana.

Dei a minha mão pro cachorro da vizinha cheirar.

Respirei fundo com a cara enfiada no pote de mostarda.

Pisei descalço na bituca de cigarro.

Competi com o evangélico que apenas mudou de droga.

Li Marcelo Mirisola em voz alta.

Comprei quebra-queixo.

Andei a tarde inteira com o meu pé manco.

Não acendi a vela pro meu santo.

Mandei todos irem tomar, mas longe de mim;

e escrevi uma carta de amor.”

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Por | Contos Curtos | Sem comentários

“Esse cara tem um carro, mas não vai te levar a lugar nenhum.

Esse cara diz que manja tudo de arte, que gosta de cinema, mas nunca assistiu os saltimbancos trapalhões.

Só canta música que podem ser acompanhadas batendo palma.

Não sabe uma letra do Tim Maia.

Esse cara nunca roubou um livro e nunca roubou um beijo seu.

Eu sim!

Eu sei te pegar gostoso e te beijar de jeito. E também sei que só comigo você canta, depois que sai da cama.”

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Por | Contos Curtos | Sem comentários

“O que há entre tu mais eu, é só distância. Isso se resolve num pulo, num galope de cavalo bravo. Se pra ti e pra mim, se pra dois de nós virar um só, se o problema for só esse: chão de terra. Nem que for de mula manca! Cada passo que eu der, é um tanto a menos de mundo que fica pra trás. E é isso que me importa. Eu pra perto de você. E seja sob o sol, e seja sob a lua. E que venha vento, pó e chuva. Que tenha rio, montanha, carrapicho, tiririca, espinho ou farpa. Se cada isso que mostro nesse pequeno espaço com os dedos, se cada disso que conquisto, diminui o tempo que falta pra dormir no teu braço, me derramar no teu cheiro, eu enfrento. Se isso, esse espaço cheio de nada, se toda nossa dificuldade é estar em movimento. Me aguarde que tô chegando.”

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Se tudo der errado…

Por | Manifesto | Sem comentários

Se tudo der errado eu viro parteiro de flores.
vou recolher frutos de árvores e arbustos.

Se tudo der errado eu viro apreciador de vidros e líquidos.
e brindarei em louvor a todos aqueles que deram certo.

Se tudo der errado eu serei aquele velho que fica rindo
comendo amendoim, querendo um caldo de cana, olhando para a bunda de alguém, lembrando de todas que deram certo, para as pessoas certas: aquelas que elas queriam.

Se tudo der errado eu viro piada, viro história, viro aquele cara que um dia “morou aqui, sabe, e fez tal coisa,e sumiu”.

Se tudo der errado eu viro apontador de estrelas, fazedor de suspiros, provador de pudim.

Se tudo der errado coçarei meu umbigo para sempre.

Se tudo der errado vou me preocupar em tirar a cadeira do sol.

Se tudo der errado, deixarei minhas filhas com dúvidas e atentas. Deixarei meus livros para suas poeiras. Esquecerei a batata e o peixe ardendo na fogueira.

Se tudo der errado, talvez tenha dado tudo certo. Eu que não prestei atenção.

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desconexões – Estudo 01

Por | Contos Curtos | Sem comentários

Ela piscou duas ou três vezes. Um pouco mais rápido que o normal. Precisava ficar atenta e isso não estava sendo fácil. Mordeu o lábio inferior como um tique. Sentiu o gosto do próprio batom e voltou para o devaneio. Pensou em qual serio o fim do livro que estava lendo. Cantou um treco de uma música que costumava ouvir. Imaginou que seria uma grande baterista se tivesse tempo para isso. Lembrou de uma roupa que queria comprar. Contou mentalmente o troco do ônibus para saber se dava para comprar um churros ou não. E riu porque lembrou do Chaves e do churros da Dona Florinda.

O rapaz estava falando horas, falou sobre teorias da comunicação, sobre dramaturgia contemporânea, sobre eventos gratuitos e sobre como seria vantajoso para ela, receber um beijo dele. Foi nesse momento que ela riu.

Ele imaginou que ela estava fácil.

Ela ficou pensando em como sair fora rapidinho porque começou a sentir um pouco de fome.

Ele perguntou o que ela achava disso tudo, o que mais lhe interessava.

Ela respondeu doce de leite. E lambeu os lábios.

Ele piscou duas ou três vezes. Um pouco mais lento que o normal. Precisava entender o que ela tinha respondido.

Ela já tinha dado tchau, e descido a rua, indo para o ponto de ônibus.

Ele ainda não tinha percebido.