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Crônicas Capixabas/Capixabas Crônicas 01

Por | Contos Curtos | Sem comentários

Há muito tempo atrás comecei a escrever alguns estudos para contos, inspirado em algumas mulheres capixabas apaixonantes… Decidi trazer a tona alguns deles:

(sobre a imagem: bem, não é ótima?)

“Tinha triscado a pintura da unha. E riu alto pensando na palavra “triscado”. Fechou rápido a boca com medo do que pensariam dela rindo alto de repente. Abriu ainda mais os olhos quando fechou rápido a boca. Ao contrário do que se espera, o abrir ainda mais os olhos não a fazia enxergar melhor. Gastou uns 04 segundos para “consertar” a vista e perceber o que estava diante dos seus olhos. Diante dos seus olhos havia sua mão, com suas unhas mal pintadas, com o esmalte todo triscado. Riu alto quando pensou na palavra “triscado”. E desistiu de fechar a boca”

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Por | Contos Curtos | Sem comentários

“Tinha aquele gosto meio de vidro e aquela sensação de doce. E em torno era um mundinho rosa, ceramicado, com almofadinhas de carne. Havia sinuosidades, reentrâncias e som de uma risada sem dono. Era gostoso assim, comer pé-de-moleque na sua mão.”

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Um pequeno barulho sobre o silêncio.

Por | Artigos, Manifesto | Sem comentários

Que som fazem aquelas coisas não fazem barulho? Como soam? O piscar dos olhos, aquele momento entre o sono e o despertar, a sua língua secando por algum motivo que você não gostaria de revelar…

O silêncio existe em pequenas frações, entremeado em nossas ações diárias. Naquele microssegundo antes de pousarmos a caneca de café na mesa, um pouco antes daquele suspiro.
Mas ele também existe depois. Depois que batem a porta. Depois que desligamos o chuveiro. Depois que cansamos de chorar.
Cotidianamente o silêncio nos permite sobreviver em pequenas ilhas de lucidez, enquanto somos inundados por “som e fúria”. É comum, mesmo que de forma inconsciente, utilizar o silêncio para respirar aliviados, ou tomarmos um fôlego.

Mas não estamos falando de pessoas comuns. Estamos falando de atores.

Pessoas que possuem a qualidade de atentar para o ordinário e torna-lo extraordinário. Que têm como tarefa de vida, estar atentos e prontos. E estarmos atento para o silêncio pode nos trazer surpreendentes resultados.
Existe aquele silêncio da plateia antes do espetáculo começar; assim como existe aquele silêncio que nos invade antes de entrarmos em cena. Mas não é desse silêncio que estou falando. Além do quê, se você parar para viver esses silêncios que mencionei, o espetáculo não irá acontecer, e as pessoas ficarão extremamente chateadas.

O silêncio, que estou falando, possui uma particularidade: quando se faz presente, quando o percebemos, ele altera nossa percepção das coisas. Ele se instala. Você o percebe e você o vive, ao mesmo tempo.

Essa sensação pode acontecer em qualquer lugar, com qualquer um; mas nós, atores, temos uma vantagem: nós podemos produzir o silêncio. Somos capazes de o reproduzir, e de o utilizar de forma produtiva, esse momento que surgiu antes de tudo, antes de surgir qualquer coisa, tanto na mente humana, quanto no universo físico que conhecemos.

Perceba: Tudo que o chamamos de “real” são nossas impressões sobre tudo. Temos a impressão de andarmos em uma linda plana, mas o planeta é redondo. Temos a impressão de estarmos de “cabeça para cima”, mas no espaço não existe “cima”; e quem está do outro lado do globo também não está de “cabeça para baixo”. Temos a impressão de que o céu é azul, mas não é. E como a água é transparente, o mar não pode ser verde. E por aí vai.

Quando entramos em estado de “silêncio”, nossas impressões se modificam. Ou se modificam ou não importam; já não faz mais diferença nesse momento. Mas a nossa realidade é ampliada. Até o tempo se manifesta diferente. Já percebeu a diferença da duração das horas em um ensaio, e a duração do mesmo número de horas dentro de uma sala de aula chata?

No colégio, nas ruas, nos meios de transporte, na vida cotidiana como um todo, o que impera é o ruído. Não há melodia. Há uma sobreposição espalhafatosa e forçada de sons, que buscam te oprimir e te prender.
Quando você, em sua sala de ensaio, começa por buscar o silêncio. Primeiro dentro de você, depois com os outros, depois com o trabalho a ser realizado, nada te oprime e nada te prende, porque você alterou sua percepção das coisas, e assim sua realidade.

Lembrando que silêncio não é ausência de som. É sintonia.

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Por | Contos Curtos | Sem comentários

“Ela estava sorrindo. Não havia muitos motivos para isso, mas nem pensava nisso, sorria e pronto. Esticou os braços, as pernas, cheirou a própria pele, e lembrou de uma história engraçada que é particular demais para registrar aqui. Decidiu pela roupa que usar a noite começando pela lingerie, que era simples, bonita, nova e confortável. Do jeito que gostava. Não tinha o que reclamar do seu corpo, até agora ninguém nunca tinha reclamado, e sabia que não era uma roupa que ia ficar escondida a maior parte da noite que ia lhe deixar mais bonita. E também, se houver tempo e luz suficientes para analisar a calcinha e o sutiã, para quê que eu vou então, né? E deu uma fungadinha no fim do pensamento. Para confirmar o pensamento e dar um jeito numa coceirinha no nariz. Saiu andando até o quarto para confirmar se ia de saia ou calça. Mulher quando quer, quer. Escolheu a saia e foi para o banheiro. Lavando os cabelos começou a pensar nos motivos que a levou a aceitar o jantar, mesmo imaginando onde seria o café-da-manhã. Achou que eram motivos suficientes, e desligou o chuveiro cantando uma música que era mais velha que suas roupas. Riu de sua própria vergonha. Quando terminou a maquiagem simples, gostou do que viu. Ainda estava sorrindo. Ela era sincera e sorria quando queria. Foi atender a campainha pagando todas as luzes que ia deixando para trás. Abriu a porta e gostou do que viu. Ela sorria e pronto.”

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Por | Contos Curtos | Sem comentários

“Elas piscou os olhos, que eram claros demais para assimilar tanta luminosidade. Ainda mais a essa hora da manhã, ela pensaria nessa frase, se tivesse tempo. Ouviu um ruído que poderia ser uma turbina de avião caindo, ou algum ataque de animal selvagem, mas apesar do susto, seu cérebro era mais esperto que ela, e reconheceu o som como algo conhecido como “mãe”. Estava de pé, procurando algum chinelo. Arrastava as meias pelo quarto, mas isso não era um problema dela. Sua mãe gritava constantemente sobre isso. Mãe! Usou 20% acordados do cérebro para se lembrar que essa pessoa existia. Estava gritando. Essa informação acordou o que restava. Desceu a escada se atropelando e tropeçando em si mesma, apenas para voltar correndo, seguindo a ordem para ir se trocar logo, e sendo informada que já estavam atrasadas. Ainda estava atordoada pelo sonho. Era um sonho bom e longo. Não esperava estar atrasada, assim, logo cedo. Na verdade, ela nem sabia para o quê ela estava atrasada. Mas ela teria tempo para isso. Teria muito tempo. Um dia inteiro para desejar não ter acordado logo na hora que ia receber um beijo.”

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Estrelas no céu da sua boca.

Por | Contos Curtos | Sem comentários

“Ele mordeu uma carambola, que devia estar muito doce e suculenta. Sei por que conheço seu sorriso, naquela forma de quase riso; nos pequenos sons que soltava nos seus momentos de pequenos prazeres. Ele sorriu e passou as costas das mãos naquele lapso de rosto entre o queixo e o lábio. Havia muitas coisas que só eu percebia. Uma delas é que sua voz ficava um pouco mais suave depois de comer qualquer fruta, outra é que minha barba arranhava sua nuca e nunca ficava vermelha, diferente do seu pescoço. Algo que ele nunca soube era que seus olhos brilhavam diferentes quando tinha acesso a alguma novidade doce, como também nunca deve ter percebido que distende os músculos da perna, como um bailarino, na hora que a gente se ama. Talvez tudo isso e algo mais que nunca foram necessários serem notados. Para mim estava tudo bem, se apenas eu for capaz de saber o quanto ele estava bem e contente no seu pequeno ato de criar estrelas a cada mordida.”

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Por | Contos Curtos | Sem comentários

“Foi naquele momento. Parecendo daquelas vezes quando algo indefinido e úmido coça dentro e na pontinha do nariz; como quando um arrepio rápido e estranho gela algum pedaço de pele e você passa a olhar paras os lados; quase que nem a textura dos dentes que se sente diferente ao passar a língua. Foi num instante tão desagradável quanto isso, que descobri que te ainda te amava.”

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O Teatro é o Corpo em Verbo.

Por | Manifesto | Sem comentários

Você pode falar e se mexer. Isso não quer dizer que você esteja se expressando.
Expressar…
“Expressar” é sinônimo de “expor”, de “manifestar”. O que é preciso para você expor, manifestar?

Verdade e Vontade.

Para você atravessar andando de um poste ao outro em cima de um cabo de aço, você precisa de três coisas:
O cabo de aço, saber andar, e bom motivo para isso.

Ou seja, você precisa de ferramenta, conhecimento e força de vontade; querer.

O trabalho da atriz e do ator é viver em cima de um cabo de aço; ligando o que acontece no palco, com o que acontece no espectador.

As ferramentas a gente chama de técnica.
O conhecimento a gente de prática.

Que nome você dá para sua força de vontade? O que você quer?

Faculdades, escolas e cursos de teatro espalhados pelo mundo, normalmente se focam em apenas uma dessas 03 coisas: Milhões de pessoas vivenciam práticas e exercícios que não geram técnica, estimulam vontades, e iludem pessoas que acreditam que estão se formando “atores”.

Assim como outros milhões de pessoas estão repetindo movimentos, assimilando técnicas, na crença que sua “vida” e suas “vontades” serão suficientes para fazer um bom teatro.

Assim como também tem aqueles outros milhões que estão aí, sem experiência, sem técnica, gritando com suas vozes, corpos, e mentes, a suas “verdades” querendo serem atrativos, verossímeis, “reais”… acreditando que aquilo que são, bastam para tornar suas cenas atrativas e necessárias.

NÃO BASTA!

Não bastam laboratórios, exercícios, repetições, assimilações, conjecturas. Não bastam!

Isolados, só criam bobagens, “perfumaria”, “pirotecnia”, “para inglês ver”… só criam clichês, maneirismos, egos travestidos de sinceridade. Não doem em ninguém. Apenas incomodam. Não alteram a realidade, não criam maravilhas. Alguns, ainda conseguem ganhar aplausos.
Se é só isso que você quer, você está num péssimo caminho.

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Ruth Escobar

Por | Palco Pesado | Sem comentários

Ruth Escobar está morta.

Eu tenho tanto para falar sobre ela. E tão pouco. Porque eu nunca a conheci. Sei de suas histórias. Suas aventuras amorosas, loucuras sexuais, devaneios e coragens. Pelos deuses, quanta coragem!

Acredito que tudo de ruim que possa ser dito sobre ela, é menor que tudo que possa ser dito de ruim sobre muita gente. E acredito mesmo, que tudo isso é pequeno diante do que ela fez, e do que poderia ter feito se tivessem lhe dado apoio, e um pouco de justiça.

Se eu estou fazendo o que estou fazendo, que é pouco diante de tudo que quero fazer, é porque pessoas como ela permitiram que esse pensamento pudesse existir.

Ela colocou o Brasil no Mapa de Teatro do Mundo. Isso não é pouco. É mais que todos os governos e políticos conseguiram fazer desde o Brasil Império.

A foto é da montagem de O Balcão, que ela permitiu destruir todos os andares do seu teatro, para que o cenário pudesse ser feito de acordo a visão do diretor.
Não vou colocar nenhuma foto dela, porque ela sempre soube que o Teatro é maior do que ela. É maior do que todos nós.

Obrigado Ruth Escobar.
Que você incomode, onde você estiver.