was successfully added to your cart.

Ambar-Zu2611061120

Parabéns Mariane Ribeiro

Por | Aviso Importante | Sem comentários

– Diz uma antiga tradição, que os deuses contam as lágrimas da mulher, que quando uma mulher chora, todos os deuses, de todas as religiões, param o que estão fazendo e olham a mulher chorando, e refletem. Eles fazem isso porque sabem que as mulheres entendem melhor o mundo. Quando uma mulher chora, mãe,irmã, filha, quando uma mulher chora, é sinal de que algo está errado, que há algum problema na criação. Mas essa é uma antiga tradição, é de um tempo que não existe mais.

trecho de “Âmbar”

pegada-01-submissao-da-mulher-como-forma-de-prazer-sexual-feminino

Por | Contos Curtos | Sem comentários

“De nada me valem essas modernidades que ouço, que vejo. Não me importa se é tela retina ou não, não é definição que me falta. Tanto me faz se é LED, ConfotLight, danem-se, não é esse brilho que estou procurando. Os Gigas, os Wi-fi, as Redes sem senhas, nada disso me deixa mais perto de você. A sua foto na tela touch do meu celular, não tem a menor graça da tua pele.”

negra linda

Por | Contos Curtos | Sem comentários

“O príncipe parecia não ouvir as piadas do pai, mal tocou na comida, e não reparara nas novas empregadinhas do palácio. Foi para seu quarto apreciar novamente o motivo de sua desolação: Um sapato. Um frágil, e delicado sapatinho de cristal. Ele dançou com a dona deste sapato, mas era um baile de máscaras, não sabia como ela era. Mas se sentia enamorado, o que fazer? Com tanta agonia, procurou o conselheiro real. Este, disse que ele poderia ir de casa em casa procurar a dona do sapatinho, ou mais fácil ainda, ir logo na casa da mulher mais linda do reino, pois nela o sapatinho serviria. Ela existe, perguntou o ansioso príncipe. Pois sim, respondeu o conselheiro. E como ela é? Negra, é claro. Pisco o experiente homem, abrindo a porta para o príncipe passar, e levando-o para a carruagem.
Em pouco tempo chegaram na casa daquela que era a mulher mais bonita do reino.

O príncipe ficou se arrumando, alinhando seu traje, enquanto o conselheiro batia na porta.

A porta abriu, e a visão foi única.

Era sábado, dia de faxina. Aquela negra, alta e elegante, estava agora com um pano torcido, amarrado na cabeça, segurando o cabelo para cima; usava uma camiseta furada e uma bermuda tão velha quanto os seus chinelos. Sim, estava de chinelos. Um de cada cor. Estava sem brincos, sem maquiagem, e o esmalte de suas unhas já não existiam.
O conselheiro olhou para o príncipe, dizendo com o olhar: “não falei que ela era linda?”

Sim, era. Desconcertantemente linda. O príncipe gaguejou um pouco antes de lhe oferecer uma almofada, onde repousava o belo sapatinho de cristal.

Minha jovem donzela, acredito realmente que vossa beleza esqueceu seu sapato no meu último baile.

A moça achou engraçado o jeito do príncipe, um jeito fofo poderia dizer, mas acho melhor ser direta.

Puxa, bonitinho. Obrigada, mas não é meu não. Eu nunca iria num baile com um salto baixo, com sua licença. E fechou a porta.

Era sábado, a comida estava no fogo, o cachorro começou a latir e a casa não se limpava sozinha.”

a-melancolia-de-grahan-franciose.html

Por | Contos Curtos | Sem comentários

“Antes de morrer ele me ligou e deixou recado. Eu espero realmente que ele tenha ligado antes de entrar naquele carro. Que ele tenha ligado para dar um recado idiota, mas que com certeza era importante demais para ele. Ele tinha alguns problemas e nunca soube muito bem tratar disso. Eu demorei para entender que no jeito bronco dele, era só o jeito dele me dizer que gostava de mim, que tinha orgulho de mim. Demorei tempo demais. Uma vez brigamos feio. Eu o respeitava demais para mandá-lo a merda ou falar coisas piores, mas nunca disse que o amava. Isso foi antes do incêndio que queimou boa parte da casa. Inclusive todas as fotos. O recado que tenho guardado no celular é o único registro que tenho do meu pai. A única prova que ele existiu. E aquelas palavras me dizendo para não esquecer de fechar a janela já que tenho uma cabeça de vento me fazem chorar. Sempre. É a maior declaração de amor que já ouvi.”

4

Por | Contos Curtos | Sem comentários

“Ela tirou delicadamente meus óculos, e eu querendo que ela me beijasse a boca. Ela falando sobre lágrimas que se transformaram em vidros, e eu despindo ela na minha mente. Contou de uma escritora genial que ninguém leu, e por mim, nossos seios já tinham se amassado, nossas pernas já tinham se cruzado e nosso sexo já era uma confusão só. Suspirou e disse que me achava linda e que meus olhos eram inocentes, e eu respondendo que a menina dos olhos que ela via, não era eu. Ela não entendendo nada, e eu beijando a boca dela.”

968888_545472815505689_114220790_n

Por | Contos Curtos, Projeto Social | Sem comentários

“Foi uma coisa meio brilho, meio reflexo, foi algo que a fez piscar, deixando um pouco mais úmidos seus olhos. O ambiente estava elétrico, deixando as partículas de poeira mais agitadas, era fim de primavera, então o vento varria pólen pela cidade toda, o que fez irritar seus olhos, e a mucosa do seu nariz, fazendo com que respirasse um pouco mais forte, apenas umas duas vezes. O ar-condicionado tinha acabado de ser ligado, o choque térmico fez com os pelos dos seus braços se eriçassem, suas veias se comprimiram tornando sua pele um pouco mais branca, incluindo seus lábios. Eram reações imperceptíveis quando aconteciam separadamente uma da outra, mas tudo aconteceu no mesmo momento que ela ouvia uma desculpa esfarrapada dele sobre o fim-de-semana.
Você está chorando? Ele perguntou com a sensibilidade de um tronco petrificado.
É claro que não, seu idiota. Ela respondeu fungando tentando se livrar daquela coceira impertinente e esfregando os olhos fazendo-os ficarem mais vermelhos.
Ele sorriu. Não acreditando no que ela dizia, e entendendo tudo errado. Como sempre.”

l58255-selbstportraits-typo-portrait

Por | Contos Curtos | Sem comentários

“É um tiquinho assim”, e levantou seus dois indicadores numa distância razoável, um pouco menos de um metro, foi o que me pareceu. Ela me disse que, como todo mundo, separava as pessoas em blocos. Mas o seu critério era diferente, não era por tamanho, cor, possibilidade para sexo, importância financeira, contatos mercadológicos, conhecimentos em informática, nada disso. Era uma questão de distância. Eu realmente não entendia. “São dois palmos”, ela insistia, “e esse tanto” mostrando os dedos, “que fazem toda a diferença”. Eu me mantinha sorrindo, com meu copo quase cheio e quase quente, e pensando que eu devia entender o que ela estava dizendo, ou fingir pelo menos, se eu quisesse leva-la pra cama. Ela levantou as mãos abrindo bem os dedos, e depois girou uma mão me mostrando a palma de uma e as costas de outra, e uniu o polegar e o dedo mindinho, “Dois palmos” repetiu e colocou as mãos no seu tronco deixando o polegar bem no meio dos seios. “Do meu coração até minha vagina são dois palmos; é essa distancia que as pessoas tem que percorrer tanto para cima quanto para baixo”, fiquei meio bobo tentando assimilar aquilo, era uma honestidade que não estou acostumado. “E isso aqui”, mostrou novamente os dedos distantes um do outro, e depois colocou o da mão direita no mesmo lugar onde estava antes o polegar, abrindo o outro braço para o lado definindo no seu corpo aquela largura que tinha demonstrado no ar, “é a distância entre o meu coração e o meu dedo do Foda-se. É uma distância longa demais para qualquer um. Quem eu quero que se foda, quero bem longe de mim.” E onde eu estou, perguntei sem saber muito bem o que estava fazendo. “Você está bem aqui” e levantou o seu dedo médio e quase enfiando na minha cara, “na ponta da lasquinha do esmalte”. Tinha entendido o suficiente, ela não precisava ter continuado, “quero que você se foda bem longe de mim”. Levantei meu copo, e sai sorrindo. Era só o que podia fazer.

human minds

O Teatro cria memória. Nossa memória é o que nós somos.

Por | Artigos, Manifesto | Sem comentários

“O que nós somos? Nós, como pessoas, como indivíduos? O que você é para você mesmo? Como você se reconhece para você mesmo? O que te faz, você, ser você? Como você sabe que você é você? Pela sua memória. Somente a sua lembrança, dos seus atos, do que você viu, do que você fez, só a intimidade da sua memória é o que te garante que você é você.

Não é apenas “Penso, logo existo”, isso é pouco. Nós, seres humanos somo mais, somos além. Você é muito mais, faz muito mais do que apenas existir. Uma pedra existe. Eu não sei se ela faz algo mais do que isso. Mas eu posso fazer algo mais com ela. Eu posso construir uma casa, ou possa atira-la em alguém… Mas o sentimento que isso irá me proporcionar, seja orgulho, seja vergonha, seja o que for, eu só vou conseguir vive-lo através da minha memória. São suas lembranças que fazem você saber se está feliz ou não. Se conquistou algo que você queria, ou não. Não é “penso, logo existo” é “Lembro, logo sou”. As nossas memórias são eternas, mesmo que elas aparentam não serem de fácil acesso. As suas primeiras vergonhas, se você lembrar delas agora, elas ainda doem. Se você lembrar do que você brincava quando era criança, você vai perceber que é o que você ainda faz, que é o que te deixa feliz. Porque quando você cria uma memória, você molda o que você é. Você é construído pelas suas memórias.

Existem três tipos de memória, e só existe uma coisa criada pela humanidade que afeta todos os três tipos de memória: a Arte. E cada memória tem suas subdivisões. E só existe uma arte que é capaz de afetar todas as subdivisões da memória humana, só uma arte é capaz de moldar, transformar, e recriar um universo inteiro de possibilidades: o Teatro.

Existem as chamadas memórias de longo, que assim que elas criadas elas formam uma trama, uma rede neural que sustenta todas as outras. Desde se vestir sozinho, desde não esquecer como se lê, todos os reconhecimentos dos sentidos, o prazer, a dor, o amor, tudo que você conhece no universo está sustentado em cima dessa rede de neurônios criadas pelas memórias de longo prazo.

Quando as caravelas de Colombo chegaram nas Américas, os nativos, não as viram. A caravela estava vindo e os nativos só viam o mar vazio. Não havia nos seus cérebros nada semelhante com aquelas estruturas, então aquilo não gerava imagem. Só quando estavam muito próximos que alguém conseguiu reconhecer que a água que estava se mexendo, bem depois que poderia ter algo parecido com uma árvore, algo que parece que é madeira, ali…Quando um deles conseguiu ver o primeiro barco, ele teve que mostrar com seu corpo, ele teve que representar o que estava vendo para que os outros pudessem ver. E foi só depois que esse mímico primitivo, possivelmente um ator da tribo, conseguiu expressar o que via, é que todos conseguiram ver. Nesse momento, no momento que a verdade apareceu, porque as caravelas não chegaram, para aquelas pessoas, as caravelas apareceram, foi criada um mudança total nas memórias de longo prazo daqueles nativos; aquele fato deixou de ser memória e se tornou história.
E quais foram as primeiras memórias que moldaram a sociedade? Além das pequenas memórias diárias e cotidianas, dos primeiros seres humanos; quais foram as primeiras grandes memórias daquela tribo? Daquele clã? Daquela comunidade? Daquela família? Daquela cidade? As primeiras grandes memórias se deram com o encontro com o Desconhecido; com o Mistério. E o nosso grande primeiro Desconhecido foi o mar. O mar era uma parede, era intransponível, inatravessável. O mar era o limite do mundo. Do mar vieram nossas primeiras lendas, nossos primeiros heróis, nossos primeiros mitos… O mar era um lugar que não permitia memórias, porque quem ia, não voltava. Até que alguém foi, e voltou. O primeiro navegante. E o fato de alguém encontrar uma maneira de ir para o mar e ir além, modificou a maneira de pensar dessas pessoas, criou novas memórias, novas sinapses, e aumentou o mundo. O mundo não acabava mais naquela linha horizontal que a gente enxergava, o mundo vai além do que os meus olhos enxergam; e ter a consciência disso foi uma imensa revolução.

Todos os povos que modificaram o mundo eram navegantes. Os gregos, os romanos, os ingleses, os vikings, os portugueses, os espanhóis, os chineses, os japoneses, os holandeses… a imensa maioria daqueles que transformaram a memória do mundo eram povos navegantes.

E em todas essas culturas, quando foi pensado na necessidade de se construir uma estrutura para que o ator que se apresentasse, as pessoas pediram ajuda para os navegantes, para os marinheiros. Antes os atores se apresentavam no mesmo nível dos espectadores, num chão de terra batida. Mas chegou um momento que era necessário uma estrutura melhor. Era necessário um chão melhor. E quem sabia fazer um grande chão de madeira, durável, sem falhas? Um grande convés? Os marinheiros. Depois precisávamos de cortinas, de tecidos para esconder coisas, e para revelar coisas. E quem sabia fazer grandes pedaços tecidos, que abriam, que dobravam, que eram móveis? Como se fossem grandes velas de um barco? Os marinheiros. E quem vai amarrar tudo isso? Os marinheiros. E quem vai levantar não-sei-o-quê? Os marinheiros. Os nossos primeiros técnicos de teatro, os primeiros engenheiros, arquitetos, cenógrafos, figurinistas, consultores… eram marinheiros. Não é a toa que se pegarmos esse palco aqui, e colocarmos na água, ele boia. E se colocarmos toda essa estrutura, com todos esses panos, essas velas, isso tudo que chamamos hoje de “palco italiano” e colocarmos no mar, ele navega.

A memória da humanidade, o seu encontro com o desconhecido, se materializa hoje, e como sempre foi, no palco.

Os primeiros marinheiros foram de encontro ao Desconhecido, os atores são os que ainda hoje, nos revela o Desconhecido.

E o que dizer do teatro? Daquilo que fazemos em cima desse barco de mistérios e ilusões? O teatro que é a mais fugaz das artes. O Teatro que assim que termina, que na última fala daquele ator, daquela atriz; que quando o iluminador abaixa a luz do último foco, lentamente; que quando não se ouve mais nenhum som… assim que a peça termina, o teatro acaba. Como algo pode ser tão frágil? E para isso, exigir um esforço tão grande? Tão milenar? Tão cheio de conhecimento, e inteligência, e criatividade, e paixões humanas? Como? E porquê?

Porque o teatro não tem fim. O teatro não acaba. O que acaba é a peça. Mas o teatro é eterno. E nós fazemos a mais poderosa das artes porque nós fazemos algo maravilhosamente bem e intrínseca a nossa existência: nós criamos memórias.

Quando um espectador assiste um espetáculo, ele não sai do teatro da mesma forma que ele entrou. Nós fizemos com que ele modificasse sua estrutura neural, isso se chama neuro-plasticidade, através da criação de uma nova memória.

Nós modificamos uma pessoa, nos tornamos parte dela, estamos para sempre na sua memória. E essa pessoa também fará parte da memória de outra pessoa, que fará parte de outra, de outra… Nós somos eternos.

Nós fazemos a mais poderosa obra humana, porque nossa obra é eterna; nós modificamos o mundo para sempre e o tempo todo. Por isso é tão grande a nossa responsabilidade, nós temos a responsabilidade de não fazer um teatro qualquer-coisa. Nós não podemos nos dar ao luxo de não fazer o nosso melhor teatro possível.”