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Por | Contos Curtos | Sem comentários

“Não fale comigo.
Não me abrace.
Não me deixe sozinha!
Não me ofereça doces.
Não deixe de me dar bombons.
Não me lembre que fui eu mesma que pedi para não me oferecer doces.
Não me dê opiniões rasas.
Não me venha com filosofias.
Não ligue a tevê.
Não reclame da demora.
Não pense que eu vou dividir a conta com você.
Não faça cara de cachorro na chuva.
Não insista em assuntos da semana passada.
Não seja estúpido.
Não diga que sou grossa.
Não pergunte se eu quero pipoca. Faça e pronto.
Não espere uma opinião sensata sobre suas roupas.
Não pergunte o que eu achei do filme sem antes me pagar um milk-shake de ovomaltine.
Não me lembre que fui eu mesma que pedi para não me oferecer doces.
Não me faça repetir tudo isso de novo!”

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Por | Contos Curtos | Sem comentários

“Ele tinha aquele apontador em forma de capacete quando criança. Era diferente, caro, causava inveja. Não durou dois meses. Primeiro quebrou, depois roubaram. Anos depois teve aquele apontador que era uma caixinha retangular transparente, o apontador de fato, era amarelo. Durou anos. Mas também se perdeu. Faz anos. Hoje ele usa uma faca.

Hoje ele estava afiando um lápis preto, dava golpes em diagonal com sua faca, lascando a madeira, desprotegendo o grafite, criando pontas. Gostou do resultado e divagava lembrando que a ordem de matar Garcia Lorca, foi justificada dizendo que ele era mais perigoso com uma caneta que com um revolver. Pensou em outros perigosos que conviviam na sua estante. Pegou outro lápis. Pensou que se a situação continuar assim, teria que tirar um porte de armas para poder comprar o Bukowski no fim do mês. Pegou outro lápis. Pensou que quando isso acontecer, com certeza seus Fantes, Rimbauds, e Leminsks já teriam sido confiscados. Sem pensar pegou uma caneca, e deu um golpe certeiro. Pensou, todo coberto de um sangue Bic azul, que sim, literatura era algo perigoso em mãos erradas.”

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Por | Contos Curtos | Sem comentários

“Ela estava em outra. Não que fosse alienada, dissimulada, nada disso. Só estava feliz, e ocupada demais com o que chamaria de suas “pequenas coisas”, para dar toda a atenção que aquele sujeito ali falando estava querendo. Ela já tinha sorrido e dito bom dia, o que mais uma pessoa pode querer? Afeição? Que vá comprar um par de sapatos e não me incomode. É o que ela pensaria, e talvez até diria, se percebesse o que estava acontecendo. Ela não era esnobe, não era tímida, nem autista. Só estava em outra, estava na dela. Ela merecia. Usava uma roupa nova, sapatos que gostava tanto, e tinha ouvido aquela música que sempre a fazia dar um sorriso. Era de manhã, o sol estava gostoso, o caminho era agradável, a companhia é que não saberia dizer. Era resultado do acaso, nada para se preocupar. Se conseguisse desligar a música que tocava dentro da cabeça, teria ouvido o rapaz falar mal dos fast food’s, do uso criminoso da pele dos animais para roupas, bancos de carro, bolsas e sapatos. A vida acontece quando menos se espera. Ouviu a palavra sapatos, palavra que também tinha acabado de cantar em pensamentos no meio de um acorde simples de música pop, no mesmo instante tina pisado numa caixinha colorida largada aberta com um hambúrguer xexelento dentro, que estraçalhou em sua sola.

Malditos! – grunhiu, com raiva, enquanto levantava a perna e analisar o estrago.

Você também odeia eles? – perguntou com esperança aquele que não imaginava que não estava sendo ouvido.

Não, não. Eu os amo. – Disse com sinceridade, falando de seus sapatos, confundindo ainda mais aquele garoto.”

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Por | Contos Curtos | Sem comentários

“Ela se espreguiçou toda gostosa e percebi que esse era a melhor redundância de toda a minha vida. Impossível ela se espreguiçar menos gostosa. Impossível eu querer sair do lado dela, mas ela sai da cama e eu que ficar aqui. Pronto, meu primeiro conflito do dia, e o dia nem começou ainda. Ela tira a camisola e joga em mim, rindo. E falando alguma que não ouço, porque começo a pensar se há contradição no fato de que gosto dela de camisola, e ela talvez gostasse de mim de camisola, mas só consigo dormir de camiseta. E se nós duas estivéssemos de camisola, ninguém dormia. Ok, estou oficialmente excitada, pulo da cama e vou atrás dela. Já está de jeans e o café no fogo. Enfio minhas mãos dentro da sua calça, aperto e roubo um beijo. Ela me manda colocar uma roupa. Só coloco depois de você tirar a sua. Ela diz que a gente está sem tempo para isso, e que não quer nada rápido. Dane-se, a gente se atrasa. E estou pronta para quebrar mais uma promessa de chegar mais atrasada no ensaio. Ela fala que eu não devia fazer isso. É, eu também acho que não, mas percebo que ela está falando da minha boca no seu seio, e não de trabalho, então nem ligo. Suas roupas estão no chão e nós estamos de pé na parede. Ela fala algo sobre fogo. Eu sorrio por dentro, e meus dedos sorriem junto comigo. Ela fala sobre o fogo e eu só entendo o que ela diz quando ouço o café fervendo, derrubando, e sujando o fogão. Desligo o gás, e ela fala que fodeu. Eu me viro, sem vergonha nenhuma. Mas eu nem comecei ainda.”

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“Não consigo definir o contorno do teu seio, e não preciso. Minha vista embaçada pela manhã, me lembra de sorrir, e assim fico. Durante o dia, quando fujo para você, fecho os olhos, porque prefiro te ouvir, e te sentir por perto, e te sentir por dentro. A noite chega, e acendo velas. Com poucas luzes, me mostro e meu corpo tímido reflete o teu desejo. Me torno mulher em suas mãos. Durmo logo. Sempre. E me faz bem. Quando acordo, no nevoeiro do meu olhar, sou tua e você é minha. Seu sorriso é meu farol. E teu colo, meu porto seguro.”

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“Ela o viu do outro lado do bar. Ele era do tempo que lhe incomodava ser chamada de baixinha. Ele era do tempo em que ele lhe incomodava. Sentada, olhando por cima dos gargalhos, das espumas brancas sobre os copos, e no meio da fumaça de alguns cigarros, lembrou o quanto de sua felicidade dependia daquele cara ali. Pelo menos era o que imaginava na época. Imaginava muita coisa na época. Ali, com seu decote e seu batom, nem percebeu que sorria. Sorria de si mesma. Nem cogitou em ir falar com ele, ou provocar um encontro “acidental”, mas então começou a tocar aquela música que a fazia pular, e cantar junto, e quase todos se levantaram e começaram a pular e cantar junto. Ela achou melhor não. Manteve a pose para as amigas e conteve qualquer emoção que não fosse própria para aquele momento. Levantou os olhos e não o encontrou, devia estar se divertindo com os outros. Ela não era própria para aquele momento. Se levantou, ostentou um sorriso e foi andando balançando a cabeça no ritmo até lá fora. Precisa respirar longe dele. Saco. Às vezes havia pessoas demais no seu mundo.”

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Por | Contos Curtos | Sem comentários

“Ela estava em outra. Não que fosse alienada, dissimulada, nada disso. Só estava feliz, e ocupada demais com o que chamaria de suas “pequenas coisas”, para dar toda a atenção que aquele sujeito ali falando estava querendo. Ela já tinha sorrido e dito bom dia, o que mais uma pessoa pode querer? Afeição? Que vá comprar um par de sapatos e não me incomode. É o que ela pensaria, e talvez até diria, se percebesse o que estava acontecendo. Ela não era esnobe, não era tímida, nem autista. Só estava em outra, estava na dela. Ela merecia. Usava uma roupa nova, sapatos que gostava tanto, e tinha ouvido aquela música que sempre a fazia dar um sorriso. Era de manhã, o sol estava gostoso, o caminho era agradável, a companhia é que não saberia dizer. Era resultado do acaso, nada para se preocupar. Se conseguisse desligar a música que tocava dentro da cabeça, teria ouvido o rapaz falar mal dos fast food’s, do uso criminoso da pele dos animais para roupas, bancos de carro, bolsas e sapatos. A vida acontece quando menos se espera. Ouviu a palavra sapatos, palavra que também tinha acabado de cantar em pensamentos no meio de um acorde simples de música pop, no mesmo instante tina pisado numa caixinha colorida largada aberta com um hambúrguer xexelento dentro, que estraçalhou em sua sola.
Malditos! – grunhiu, com raiva, enquanto levantava a perna e analisar o estrago.

Você também odeia eles? – perguntou com esperança aquele que não imaginava que não estava sendo ouvido.

Não, não. Eu os amo. – Disse com sinceridade, falando de seus sapatos, confundindo ainda mais aquele garoto.”

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Por | Contos Curtos | Sem comentários

“Tirou as chaves do bolso e se entreteu com o som. Balançou o chaveiro enquanto entrava em casa e tirava os sapatos. Seus pés puderam enfim se desenrolar, e voltar ao tamanho correto. Calçou suas pantufas coloridas com pompons na ponta e foi ao banheiro. Diante da pia, suspirou fundo. Fez sons irreproduzíveis enquanto tremelicava por causa da água fria que levou ao rosto. Pegou uma toalha, que logo ficou manchada com uma sujeira cor-da-pele. Se olhou no espelho e finalmente pode ver o branco, o vermelho e o preto em torno da boca e olhos. Estava mais calmo. Levantou os ombros, entortou as pernas, projetou a barriga e foi até o quarto Tirou todas as roupas que eram cinzas, a camisa que era branca, e a gravata que era preta. Colocou o paletó verde, virou a gola amarela para fora, e pegou uma flor vermelha que estava num vaso e colocou na lapela. Não resistiu e cheirou. O jato de água foi bem no seu olho, e o fez sorrir. Finalmente pode sorrir. Saiu pela casa cantarolando, se jogou no sofá, tirou do bolso pequenas bolinhas, mirou com um olho fechado, e começou a jogar discriminadamente, enquanto ria, pintando a televisão.”