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Por | Contos Curtos | Sem comentários

“De todas as minhas mulheres, sinto falta dela. Ela parecia uma gata ao meu toque. Negra, sinuosa, cheirosa e com manha. Ronronava no meu colo antes do sexo. Depois, logo assim que acabava, ela saltitava, se agitava, e ia fazer algo pela casa, ou pela rua. Era diferente para mim. Era muito diferente de mim. Primeiro: nenhuma das minhas mulheres anteriores realmente “acabava”, era sempre um prolongamento do prazer, um carinho contínuo, algo assim. Eram gozos. Ela não, se satisfazia, me deixava feliz, e estava pronta para outra coisa. Eu queria ficar mais na cama, e ficava, mas sozinha. Queria cheirar o cabelo dela, o suor delicado que ficava na sua nuca, mas ela já estava se maquiando, ou colocando um salto. Segundo: nenhuma delas também ficava serelepe. Somente antes, mas não depois. Ela ficava elétrica, e precisava gastar toda essa energia, senão começava a encrencar, a quebrar copos, a reclamar dos quadros, a pegar minhas calcinhas emprestadas. Isso realmente me incomodava. Nenhuma das minhas mulheres pegava calcinhas minhas emprestadas. Nunca. Eu nunca deixei nenhuma fazer isso. Nem ela. Ela somente não pedia, e eu nunca tive oportunidade de dizer não, só quando ela voltava da rua, meio bêbada, toda carinhosa, me querendo para recobrar suas energias. Terceira diferença: nenhuma delas voltava. Eu sinto a falta dela. “

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Por | Contos Curtos | Sem comentários

“Sabe o que são isso? Perguntou mostrando o copo. Gotas de Lua. E eu não entendi o por que. A lua reflete aqui na água e no vidro, e fica assim, lindo. Não falei que no ângulo que tinha me mostrado não dava para ver nada. Mas acreditava nela. Acredito em você. Não precisa. Ela sorriu. Não digo nada que você não possa ver por si mesmo. Nisso eu não acreditei, mas fiquei quieto. O que foi? Que cara é essa? Eu também não digo nada que eu não possa provar. Eu não disse isso. Rimos. Eu mais do que ela. Você não precisa dizer nada, porque mostra tudo na sua cara. Eu não sabia como reagir. Então ela riu mais do que eu. Não se preocupe. Eu não me preocupo. Ela olhou para mim, me analisou, e voltou a olhar para seu copo. Estou vendo que sim. Achei melhor ficar quieto, e aguardar o que pudesse vir, enquanto ela dava goles na sua Lua.”

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Por | Contos Curtos, Projeto Social | Um comentário

“Não consigo definir o contorno do teu seio, e não preciso. Minha vista embaçada pela manhã, me lembra de sorrir, e assim fico. Durante o dia, quando fujo para você, fecho os olhos, porque prefiro te ouvir, e te sentir por perto, e te sentir por dentro. A noite chega, e acendo velas. Com poucas luzes, me mostro e meu corpo tímido reflete o teu desejo. Me torno mulher em suas mãos. Durmo logo. Sempre. E me faz bem. Quando acordo, no nevoeiro do meu olhar, sou tua e você é minha. Seu sorriso é meu farol. E teu colo, meu porto seguro.”

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Por | Contos Curtos | Sem comentários

“Havia coloridos diante dela, mas ela disfarçava em tons de sépia. Havia nanquim, Polaroides, tesoura sem ponta, e um corretivo que ela nunca chamava de “branquinho” porque essa palavra lhe lembrava “coisas de menino”. Ele sempre chamava os homens de meninos. Há muito não conhecia um que pudesse chamar de homem. Pelo menos não de seu. Afastou o pensamento e a franja dos olhos ao mesmo tempo com um gesto de cabeça. Caso se lembrasse de Tarantino, teria feito seu próprio efeito sonoro. Não tinha tempo para isso. O mundo andava moderno demais em volta dela, que era a que girava mais rápido no salão, assustando as menininhas e os menininhos de todas as idades. Ela gostava quando assustava. Ainda gosta quando assusta, com suas frases e bocas; porque “cara”, ela sempre teve a mesma. Infeliz de quem está triste no meio dessa confusão. Riu de si. De suas memórias e de suas ações atuais. Diria “traquinagens” se seu vocabulário fosse do tipo que revelasse descaradamente seus pensamentos. Deixou tudo em cima da mesa e foi pegar uma jaqueta. “Cansei” disse do nada, para ninguém, sobre nada realmente feito. Já era noite, e isso era motivo suficiente para não se estar onde quer que fosse. Então, ela não estaria em casa. Levou seus feitos e confusões para darem um volta e, quem sabe, não voltarem sozinhos. Nenhum dos três.”

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Só – Grupo Sobrevento

Por | Crítica, Daquilo que vi | Sem comentários

Quatro homens sábios disseram um dia: “Olhe todas essas pessoas solitárias. De onde elas vêm? De onde elas são?”. Poucas pessoas olharam como o Sobrevento o fez nesse espetáculo que comemora seus 30 anos.
Em seus 30 anos, o Sobrevento se manteve fiel a si mesmo e sempre contando que encontraria eco de seus anseios no seu público. Aparentemente tem dado certo. Diversas pesquisas, diversas técnicas, diversas estéticas foram praticadas e apresentadas, mas ultimamente, ao invés de manipular objetos e figuras inanimadas, o que eles estão fazendo é: ser tornando os seres manipulados pela emoção que os objetos lhes trás. E, aparentemente, tem dado certo.
“Só” apresenta diversas personagens que são impelidas a saírem do seu lugar de conforto (conforto?) devido há algumas questões em aberto: “O que há de importante para alguém, quando não há ninguém lá?”, “Se você não sabe o seu destino, como irá descobrir quando você chegar?”, “O que é o outro, quando seu objetivo é você mesmo?”… O espetáculo propõe uma leitura poética da solidão, e não uma solidão poética – parece um jogo de palavras, mas não é. É uma proposta dramatúrgica.
O que há em cena é uma Solidão que faz mover. Pois o que nos deixa estáticos é a Melancolia.
Mas isso é só aparentemente. O que se revela ultrapassa as aparências. Mas é como um segredo. É algo SÓ seu.

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Por | Contos Curtos | Sem comentários

Ele olhava para ela e insistia em não ver. Fazia perguntas e ela não devaneava, respondia direto, e ele suspirava, sem ter ouvido nada. Estava de preto e não verde, amarelo, ou azul turquesa. Era Jeans e couro e não tule, pétala ou asa de borboleta. Era uma mulher pô, e não uma lenda. Uma mulher com fome, desejos, tristezas e segredos e mulher. Mas ele não percebia, ria de algumas coisas, ficava em silêncio em momentos aleatórios, mas seus olhos brilhavam. Isso devia funcionar com a maioria das mulheres em que ele projetava suas ilusões. Não com ela. Sua última frase antes de ser esquecido, ou devorado – nunca saberemos, foi: “você é uma fada, sabia?”. “Eu sou uma bruxa!”, ela respondeu.

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Por | Contos Curtos | Sem comentários

O metal frio sob a pele, rasgando e transpassando…” Pensou que daria um bom início de história enquanto realmente passada o metal frio da agulha naqueles pedaços de pele dos seus dedos. “Com uma linha, costurava calmamente sua própria pele”. Esse talvez já não fosse tão interessante. Era verdade, ela se costurava calmamente e isso não doía e não lhe trazia nenhuma espécie de redenção, nem se tratava de uma autoafirmação, nada disso. Era só uma garota que percebeu que existia alguns trechos de pele sem terminações nervosas nos seus dedos e tentou passar uma agulha e estava vendo o que acontecia. Não era nada demais. Ela não precisa se afirmar para ninguém, não se incomodava com os próprios pecados – nem os chamava assim, e não acreditava que a dor produzisse algum tipo de prazer que não pudesse ser conquistado com vinho, ou línguas. Essa era a verdade. E verdades não produziam bons parágrafos. Nenhum que ela tenha lido pelo menos. “Sem algum sentimento de piedade, atacou sua própria carne”. Poderia ser verdade, se fosse carne aquilo que alinhavava, às vezes admirando, às vezes pensando em outra coisa. Algum tipo de prazer poderia ser de verdade. “Cansada, diante de tantos corpos e tanto sangue, a Jovem Guerreira abaixou sua espada, ajoelhou e antes de descansar, agradeceu aos céus por estar viva” podia ser o final de um mangá. Ela escreveria um mangá se tivesse paciência para isso, e se imaginasse que alguém fosse ler. Olhou para aqueles pontinhos que tinha feito perto de sua unha, achou graça e logo se esqueceu deles, quase no instante que largou a agulha e a linha em algum lugar que não se irá se lembrar até vê-las de novo. A vida acontecia em algum lugar, havia livros para ler, algum tipo de prazer poderia acontecer de verdade, e frases soltas e histórias ruins não lhe interessavam mais.”