was successfully added to your cart.

18056356_1006171936185676_5126457713575099810_o

Por | Contos Curtos | Sem comentários

“Ela sentia um gosto verde nos dentes, e mantinha uma saudade roxa na boca. Gastava orvalho no olhar, e aninhava o coração envolto numa almofada quente e fofa de veias, artérias, pulmões, fotos preto & branco, cuia, mate quente e chapéu de couro. No céu havia duas estrelas. Haviam mais, mas só duas importavam naquele momento. Numa delas, amarrou um barquinho de papel – que era meu. No outro, amarrou um segredo – que era dela. Se manteve quieta e esperando para ver se o vento ia arrastar quem na direção de qual. Não muito longe, surgiam os barulhos do limite da noite e do dia. A onça, o rio, o sapo, e as flores que se fechavam. Um traço diferente de diferentes tons apareceu nos seus lábios. Não tinha muito tempo. E ela não gostava de esperar.”

17203199_1506763972667342_484294656179024251_n

Por | Contos Curtos | Sem comentários

“Ela precisou usar o antebraço para desembaçar o espelho e poder se ver melhor. Não gostava de usar as mãos para nada depois de tomar banho. Se sentia limpa e queria ficar assim. O espelho estava fosco, com um traço de visibilidade no meio. E no meio dele, ela. O banheiro estava ainda cheio de vapores, Seu cabelo ainda estava molhado, sua toalha ainda se mantinha segura, e seus olhos procuravam algo de bom para enxergar. Se via. Isso devia bastar. Mas hoje não. Soltou a toalha Se fosse um filme, teria caído bem devagar sobre seus pés. Mas não era. Apoiou as mãos na pia e chegou mais perto de si mesma, agora um pouco mais translúcida, riscou o espelho com o dedo e só havia seus olhos. Se fosse uma música, seria o momento ideal para uma lágrima. Não era. Piscou. Passou a língua sem perceber sobre os dentes, e se fosse um homem, cuspiria. Soltou um som que qualquer um pensaria ser o som de uma resolução. Se fosse a vida dela tudo aquilo, sairia nua do banheiro, com passos firmes e mandaria todo mundo a merda. E era.”

697430

Por | Contos Curtos | Um comentário

“Ela abriu a janela e o calor entrou. Era um pouco mais do que o necessário, mas não se importou. Estava ocupada com outras coisas. Havia mudado suas prioridades e não havia tempo para gastar com qualquer coisa que não fosse sua nova decisão. Tinha definido assim, de bate-pronto, daquele jeito sem pensar, mas muito sentir. Ela abriu a janela, o calor entrou, e muita luz veio junto. Se houvesse poesia diria que parecia um nascimento. Ela era uma nova mulher, com uma nova decisão, e com novas atitudes. Ela decidiu que ia ser feliz.”

5b5e8a85d1ec73e34f1ab0ae182a27f6

Por | Contos Curtos | 2 Comentários

“era como se Deus existisse naquelas grossas gotas de chuva que me batiam e me doíam e me lavavam e levavam com elas as minhas grossas gotas de lágrimas que me batiam e me doíam e me secavam, arrancando de mim todo um sentimento que se era bom ou mal eu não saberia dizer, não ficando muito de mim além de bom ou mal, só um pouco de carne, osso e pele úmida, assim que me sentia, com minha pele úmida, meus poucos ossos, minhas poucas carne: um pouco e só.”

561318_522596441112956_1024585681_n

Por | Contos Curtos | Sem comentários

“e tinha aquele pé enorme de azaleia que parou de flor quando você foi embora. e tinha também aquele manjericão que parei de cuidar quando você voltou. Quando você voltou a alfazema também deu flor. O telhado parou de deixar a chuva pingar dentro. Até a casa parou de chorar quando você voltou. Depois você foi embora de novo. E a lua foi junto. e algumas estrelas iam e vinham, parei de contar com medo de me enganar com mais alguma coisa além de tudo que já havia me enganado depois de tanta certeza. Quando você foi embora de novo eu desisti de ter certeza. Daí você voltou. Parecia nuvem que não se prega no chão. Parecia estrela que vem e brilha e vai e deixa o escuro no lugar. Parecia flor que vem só para mostrar que vai embora de novo. Te aceitei. e tudo isso que vem junto com você. Dentro de mim. Somos natureza. você tem a sua. eu tenho a minha. e você faz parte da minha. e a minha sabe que você vai embora de novo. Desisti de afirmar qualquer coisa com palavra. Te espero. amo você. É natural.”

21406_612465172108082_937758334_n

Por | Contos Curtos, Projeto Social | Sem comentários

“Eu já trinquei o cóccix numa aula de Educação Física. Já me quebraram um dente numa briga por causa de um misto quente. Já bateram na minha cara com uma garrafa. Já levei tiro de espingarda de chumbo. Já furei a perna em lança de portão, pulando para fugir de cachorro. Já enfiei uma faca nos dedos, brincando de furar a mesa enquanto a mão ficava se mexendo rápido. Já grampearam minha orelha junto com a de um outro moleque, porque eu dedurei quem tinha fumado no banheiro. Já me machuquei e já me machucaram muito nessa vida. E mesmo assim eu não estava preparado para te conhecer.”

rain-2

PAULICÉIA CITY

Por | Contos Curtos | Sem comentários

-onde as ondas se chocam e as verdades nascem-

Ele era o pai dela.
E sorrindo me perguntava coisas sobre minha mãe, meu pai…
E ia colocando em mim tiras de uma fita onde saiam fios.
Perguntou se eu mentiria para ele
E eu disse que não.
Perguntou se eu amava a sua filha
E eu disse que sim.
Então ele apertou um botão e começou a me choques.
E esperava eu mudar de resposta depois de cada grito
que eu dava.

lobo-mujer

Por | Contos Curtos | Sem comentários

“Como te dizer que cada mordida minha é um pedido de afeto? Como esconder que quero apenas te proteger quando te dou as costas, quando não te olho nos olhos, quando finjo que não te ouço? Como eu te garanto que a resposta física do meu corpo é mais do que minhas palavras chulas conseguem explicar? Como deixar visível, além dessas marcas, que isso é tudo que quero te provar quando eu te provo?”

hqdefault

Por | Contos Curtos | Um comentário

“Ela me abraça. Eu minto umas duas bobagens, ela sorri e me abraça. Dou a partida e logo a moto vai cortando o trânsito; aponto os prédios da orla e digo que ela pode escolher qualquer um, que um dia eu lhe dou. Ela ri, eu acelero. Ela aponta para um edifício qualquer e pergunta a minha opinião. Começamos a subir a serra, estou com pressa, estou feliz, estou correndo e amando. Ela dá um grito, imitando alguma cena de filme. Eu falo sobre isso, mas percebo que sai saliva da minha boca, e eu fico com vergonha de estar praticamente cuspindo na cara dela. Ela fala algo sobre horário, local, alguém, algo assim. Eu não ouço porque estava rezando, agradecendo. Minha Virgem do belo amor. Me lembro de poucas frases. Devo ter dito em voz alta, porque ela me abraça mais. Tu bem conhece o meu desespero. Ela começa a dizer algo que parece uma desculpa, e eu não sei se ouço ou se tento terminar a reza. Em tuas mãos o que não pode ser desfeito. Sinto ela abraçar mais forte. E pedir perdão por algo que não sei, mas não posso parar a moto agora. Estamos naquela parte da pista que não tem acostamento, só tem aquelas curvas malditas, que só sei atravessar pisando fundo e jogando o corpo. Pelo jeito que se mexe, deve estar chorando. Eu quase agradeço pelo vento não deixar que as lágrimas dela caiam em mim. A fortaleza das minhas débeis forças, a riqueza das minhas misérias, a liberdade das minhas prisões. Eu sinto ela não me abraçar mais. Faço uma das curvas, daquelas, malditas, sem acostamento, jogando o corpo para virar a moto na velocidade. Eu viro o rosto e consigo ver ela abrir os abraços e se deixar levar. O vento, a velocidade, a reza, o choro, o meu amor e o seu pedido de desculpas, e tudo aquilo que não entendi, praticamente jogam ela para fora da moto, jogam ela para fora da pista, jogam ela para o morro abaixo. Eu não consigo parar a moto, e nem parar de rezar.”