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lobos

Por | Contos Curtos | Sem comentários

“Foi naquele momento… Parecido como uma daquelas vezes que algo indefinido e úmido coça dentro do nariz e você não pode tocar; como quando um arrepio rápido e estranho gela suas costas e você passa a olhar com medo para os lados; como quando percebe uma textura diferente nos dentes ao passar a língua. Foi num instante tão desagradável quanto isso, que descobri que te ainda te amava.”

tesoura

Por | Contos Curtos | Sem comentários

“As pessoas têm defeitos. Todas elas. Todo mundo. Mas os adultos, talvez por serem maiores, os seus defeitos são mais visíveis, ou pelo menos aparecem mais. Ou talvez seja somente isso que esteja visível… os seus defeitos. E não estou falando de falha ou erro. Todo mundo erra, todo mundo falha… Mas a repetição dos erros, a constante falha… é um defeito. Ou causa de algum, ou o resultado. Não sei, e na verdade não importa. Ela chegou no auge do seu defeito, empinando o nariz, o peito, e seu ego – todos eles, defeituosos. Tortos. Convencidos de uma superioridade regada a influência religiosa e rancor dos seus amores antigos e falhos. Ela chegou errando e gritando suas verdades. Tentou diminuir todos ali diante dela como se fácil fosse. Exigiu uma autoridade que não foi conquistada, uma obediência que não foi combinada, e deu uma ordem que não entendida. Estava convencida do seu poder, do seu cargo, do seu tom de voz, do seu avental, dos seus anos perdidos em estudos, das suas horas perdidas em reuniões, do seu corpo perdido em desejos frustrados, da sua nota em um concurso público, da mesma ilusão daqueles que se perdem em redes sociais, ou daqueles que perdem tudo em mesas de jogo. Não enxergava nada além de si mesma. E esse foi o seu maior defeito naquele momento. Porque não viu a tesoura na mão da menina. A tesoura que arrancou seu brinco, rasgando sua orelha; que arranhou seu rosto, quase perdendo um olho; que arrancou tufos de cabelo, fatias do couro cabeludo; que a vulgarizou; que a fez chorar e transformar o seu rosto numa máscara repulsiva. Ela não imaginava, e nem nunca irá saber, mas aquele momento, onde ela chorava, quando suas frustrações foram ultrapassadas pelo aço, quando sua ganância e vaidade foram extirpadas com golpes tortos de uma tesoura quase cega; naquele momento que ela não buscava enganar ninguém, nem a si mesma, querendo só proteger aquilo que ela chamava de vida; quando o susto se transformou em medo, e logo após em pavor; com seus olhos esbugalhados, com seus fluídos e lágrimas escapando e derretendo sua péssima maquiagem, com seus gritos e urros que eram abafados pelos gritos e urros de uma plateia ensandecida, que queria mais, que queria sangue, que queria vingança sem saber exatamente do quê; foi nesse momento que ela aparentou ter apenas um defeito: ser humana.”

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Por | Contos Curtos | Sem comentários

Houvesse um narrador para essa história ele teria 03, talvez 04 possibilidades:

A do ponto de vista dela; onde poderia dizer que elas e suas amigas riam de bobagens amenas, que eram sérias para elas e para aquelas idades; onde uma dobradinha no cós da saia, xadrez e pregueada, fazia um pouco mais sobre o joelho, revelando quase um palmo de peles morenas, quentes e lisas, e criava risos, e incentivava disputas tolas.

Ou a do ponto de vista dele; onde um cara um pouco mais velho, simplesmente desce a rua, talvez procurando seu carro, talvez só querendo esquecer algo, talvez conversando com alguém – como não temos narrador, nunca saberemos ao certo; o que é certo é que ele está totalmente alheio sobre o que é dito dele, no meio de uma roda de meninas, na porta da escola, com suas saias um pouco mais curtas do que o que se espera, com seus risos estridentes, onde uma delas passa um gloss exagerado, sabor morango, e aceita uma aposta, pouco antes de correr em direção a ele, e quando ele finalmente percebe o que está havendo, há uma garota, mais nova, pendurada no seu pescoço, com a boca presa na sua, com um gosto quente de morando em chamas, com uma saliva doce de chiclete novo, com um perfume que ele nunca mais esqueceria.

Poderia ser do ponto de vista de alguma amiga dela, talvez invejosa, talvez querida; ou de um amigo dele, que assiste a cena de longe; ou quem sabe até de um namorado ou namorada de algum deles, quem sabe? Mas acho que de todos esses, nenhum valeria a pena a gente conhecer no momento.

Resta apenas o ponto de vista onipresente, de um narrador que sabe de tudo e de todos, um narrador que diria que quando ela larga daquele rapaz, há nela um brilho no olhar que ela é muito nova para entender; uma dor no peito que ele ainda não saberia dizer se é do sutiã ou do coração, mesmo se prestasse atenção; que ela deu uns dois ou três pulinhos de euforia antes de voltar correndo e rindo para suas amigas; mas teria que ser um narrador que fosse capaz de explicar o porquê daquele rapaz, ao ser deixado assim, no vácuo do momento, que ao perceber que não havia mais ninguém preso nos seus lábios, pela primeira vez na vida, se sentiu um homem.

Mas infelizmente não o temos.

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O porquê do Teatro dos 108 Desejos – parte I

Por | Artigos, Teatro dos 108 Desejos | 2 Comentários

Esse texto abaixo existe porque uma vez, em uma conversa de bar, eu defendi uma questão em relação aos portadores da Síndrome de Down; e o cara em questão, me acusou de ser um fanfarrão, porque que eu apoiava Down, gay, mulher, negro, surdo, hindu, árabe… ele disse de forma bem grosseira que eu não sabia o que queria, porque não era possível alguém ser a favor de tanta gente…

 

Eu sempre quis ter filhos. Sempre. A primeira lembrança que eu tenho disso, eu devia ter 08, 09 anos. Eu amava a possibilidade de ter alguém que eu pudesse entender, já que eu não tinha ninguém que me entendia. Claro que era uma questão de ego. Mas não uma questão egoísta. Eu me achava tão mais esperto do que a maioria dos ursos, que acreditava que meu filho ia se sentir acolhido de um jeito que eu nunca fui, porque afinal eu ia ser o melhor pai do mundo. Ele nem ia precisar da mãe. Eu iria bastar para educar um dos melhores seres que o planeta já teria recebido em sua existência… Bem, eu tinha 08 anos… eu só gostava das meninas, não sabia ainda que elas eram necessárias para meus planos.

Quando eu fiz 14, eu sabia que meu filho seria uma menina. Eu já tinha escolhido diversos nomes, e imaginado diversas aventuras, onde eu – o melhor pai do mundo – era capaz de fazer minha filha sorrir muito. E sempre.

Quando eu fiz 18, percebi que eu não devia ter filhos. Eu já tinha visto muitas coisas ruins no mundo, e não era isso que eu queria para a minha criança. Eu queria que ela crescesse e se desenvolvesse e amasse e fosse feliz. Eu queria o que todo pai quer: dar as oportunidades que não teve. Por mais besta e simplório que seja esse pensamento, o desejo de fazer melhor do que os nossos pais faz parte da natureza, é quase impossível de evitar. Pelo menos em mim.

Eu percebi que meu filho podia nascer negro, e que o mundo não estava preparado ainda para entender a sua beleza.

Eu percebi que meu filho podia nascer com a Síndrome de Down, e que o mundo ainda não era inteligente o suficiente para se adaptar a ele.

Eu percebi que meu filho podia nascer surdo, e que isso tornaria o mundo cego para ele.

Eu percebi que meu filho podia nascer homossexual, e que meu amor por ele teria que ser mais forte que um mundo todo feito de ódio.

Eu percebi que meu filhos e minha filhas – nessa época eu já estava querendo alguns casais de gêmeos – poderiam ser iguais a milhões e milhões de outras pessoas. Pessoas que eram tratadas como se fossem minoria, e caso fossem – e não são, como se ser minoria fizesse alguém menos humano. Menos digno. Menos necessário.

Eu comecei então a estudar para tentar entender a situação e a realidade do negro, do Down, do surdo, do gay, da mulher… e fui fazer teatro na esperança vã de tornar o mundo um lugar mais seguro e confortável para a pessoa que mais amei na minha vida: meu filho que não nasceu.

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Por | Contos Curtos | Sem comentários

“Meu peito dói, e eu sinto uma batedeira no coração, que se eu prestasse mais atenção, poderia dizer que sinto como se meu esterno fosse trincar; como os meus olhos trincam, com veias aparecendo, vermelhas e doentias, como se fosse louco, como se não dormisse; como todas as vezes que eu penso mais do que deveria, do que gostaria, do seria necessário para perceber que estou perdendo tempo, como aquele velho que senta na praça, como quando era criança e ficava sentado na sala de aula, querendo fugir, querendo qualquer coisa, querendo estar longe daquelas pessoas e daquelas palavras que não me diziam nada, a não ser quando me xingavam, como xingam qualquer um que não sabe o que fazer para se encaixar como eles sabem; como se fossem peças de um Playmobil exclusivo, de um Lego hipócrita e esquizofrênico, que precisam de vítimas fáceis como os chacais, covardes como as hienas; como daquela vez que me cercaram e disseram verdades sobre meu futuro, meu destino, e meu jeito, e eles, todos eles, como se fossem melhores, como se não percebessem que eram ridículo e míseros, estavam certos sobre tudo, como o agora, por exemplo, como esse meu futuro que chegou, como o meu destino que me cerca, como esse meu jeito, com esses olhos trincados de insônia e desprezo, com meu coração que trinca os ossos do meu peito, com essa verdade triste que eu poderia tentar colocar em palavras, mas eu não sei como; então eu engulo.”

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Por | Contos Curtos | Sem comentários

“Algumas coisas sempre voltam ao poema.
A chuva, a bebida, a solidão.
Algumas coisas não fazem falta alguma
porque sempre estão lá.
Onde se espera que estejam.
E isso não é agradável.
Algumas pessoas doem mais que feridas
Algumas palavras são mais perigosas que facas
E o fato de isso não ser novidade para ninguém
Não torna a vida mais suportável.”

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Por | Contos Curtos | Sem comentários

“Essa xícara aqui na minha mão, o dono dela já morreu. Assim como quem construiu aquela casa ali. Também já morreu. As pessoas que escreveram esses livros todos que eu vejo daqui, também morreram todas. Quem inventou todos esses objetos e aparelhos que tenho sobre a minha mesa, não importa qual objeto, não importa quem foi, essa pessoa está morta. Quem me trouxe ao mundo, quem ajudou de alguma forma que eu existisse, seja o médico, o motorista da ambulância, até mesmo a minha mãe, também morreu. Todos eles. Todos. Quem descobriu a vacina que permitiu que eu sobrevivesse; quem criou todos os tecidos, vestimentas, tudo que me vestiu, cobriu, ou me protegeu ao longo da minha vida; quem inovou receitas, ou mesmo quem apenas reproduziu o jeito de fazer qualquer comida que eu tenha provado nesses anos todos; todos eles, essa quantidade absurda de pessoas, todos eles estão mortos. E eu só consigo pensar que essa xícara, e esse chá dentro dela, esquentando a minha mão, não conseguem me aquecer tanto como a sua mão foi capaz um dia.”

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Por | Projeto Social | Sem comentários

“Você nem tentou roubar o último beijo, então ele não aconteceu. Nem soube dançar, então jogou o cabelo num tchau apressado. Nem tinha para onde ir, então desceu a rua fingindo pressa. Nem sabia o que dizer, então escreveu. Não entendeu que era amor. E nem quis saber.”

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Por | Contos Curtos | Sem comentários

“Ela tinha medo de parecer cool, hipster, ou qualquer outra palavra parecida, dita e escrita num inglês fácil e acessível. Porque, desde sempre, as coisas que ela gostava acabavam se tornando moda. Tinha aquele blue nos olhos que as pessoas procuravam na Lana Del Rey. Queria comprar num brechó aquele vestido tão Deee Lite, quase Le Tigre, meio B-52’s; mas o brechó não existia mais. Tinham aberto uma cervejaria artesanal no lugar. Ela não sabia explicar o porquê, mas isso a irritava – queria dizer “fula da vida”, mas suas gírias idosas poderiam cair no gosto popular de alguma youtuber fitness, e após isso, somente o suicídio. Finalmente aceitou fazer sua tatoo. Ia doer, foi avisada. Que bom, disse em silêncio. Queria ter tatuado uma letra do The Mamas and The Papas, mas suas segundas-feiras nunca eram tão marcantes.”

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fragmento do texto “Camélia – o que há de mais precioso”

Por | Manifesto | Sem comentários

“Nunca entendi política. Nunca gostei. Nunca fez sentido para mim. De repente eu vivia num império, que vira uma república, depois se torna um estado alemão… Vou para Cuba, é um paraíso, depois vira um lugar horrível onde eu vi homens fardados arrancarem instrumentos de uma banda de jazz no meio de uma apresentação, porque o saxofone era um instrumento imperialista. Política para mim, sempre foi uma daquelas brincadeiras entre homens que me faziam o menor sentido.

O dia Internacional na Mulher é uma conquista política das mulheres russas; eu fiquei 05 dias ouvindo sobre isso, sei tudo de cor e salteado. Quando eu era criança, tinha 11 anos, em Viena, vi milhares de mulheres se manifestando por melhores condições. Achei muito bonito aquilo: milhares de mulheres. Eram mulheres que queriam algo que eu não fazia ideia do que era, mas eram diferentes de todas as mulheres que eu conhecia e não queriam nada. Talvez tenha sido na Rússia que tenha percebido que eu era realmente internacional, com meus sapatos de couro, e as mulheres russas com tecidos amarrados nos pés, porque não havia sapatos. A política não permitia. Como eu ia entender isso?

Depois fui para o Japão e lá entendi que eu era mulher. Sob os olhares rasgados e sendo tocada com toda a delicadeza de uma mestra ceramista, eu percebi que o “8” do mês de março, na verdade é o símbolo do infinito. Ser mulher é uma condição infinita. Eu nunca me amei tanto, quanto o que fui amada na ponta daqueles dedos.”