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Teatro Delivery

Por | Crítica, Daquilo que vi | 2 Comentários

No texto original de “O que eu aprendi com Steve Jobs” tinha uma fala que era assim: “Em teatro, que é meu trabalho, minha profissão, existe um termo: “amador”. Existem amadores em todas as profissões. E essa palavra, dizem que significa “amar a dor”, amadores são pessoas que amam tanto o teatro, que o fazem apesar da dor, apesar do não reconhecimento, apesar de perderem seus fins-de-semana com ensaios, ensaios, ensaios… Para mim, isso está errado! Amador, para mim, pratica um hobby, porque se ele amasse mesmo fazer teatro, ele fazia. E fazia todo dia. 08, 09, 10 horas por dia. Porque quando você ama, não quer ficar longe.” Isso para mim define a relação de Roberto Borenstein e seu Teatro Delivery com o ato, com o ator, com o Teatro: amor puro!

Imagina um grupo de pessoas dizendo: “Vamos fazer Teatro? Vamos! Mas onde? como? De que jeito? Onde deixarem, como puder, do jeito que der!”. Aí você tem o Teatro Delivery!

Já assisti dois de seus espetáculos, e sempre saio feliz por fazer teatro. Por fazer parte disto, da mais humana das obras, disso que não nos humilha, que não nos distrata, e não nos coloca acima de ninguém. Disto que nos olha de frente, porque estamos no mesmo nível. Disto que dignifica o barro de que somos feitos, disto que enlameia nossa divinidade. Disto que nos faz simplesmente humanos: o Teatro.

O Teatro Delivery pega o que é a essência de fazer teatro e te entrega como um presente.

Aceite.

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Menina Jinga

Por | Crítica, Daquilo que vi | 2 Comentários

A rainha Njinga foi uma figura que se opôs abertamente e diretamente contra a invasão portuguesa em Angola; num acordo de paz, aceitou ser batizada católica recebendo o nome de Ana de Souza, mas a paz durou pouco. Comandou uma guerra, se aliou a holandeses, foi derrotada, e uma de suas penas foi uma grave e imensa humilhação pública.

E a Menina Jinga? Qual a sua revolta? Qual a sua luta? Com quem se alia? Se há derrota e humilhação, deixo a seu critério descobrir, afinal esse espetáculo ainda está em cartaz, e é recomendável que você vá ver.

O Grupo Brinquedo Torto navega de forma aparentemente tranquila sobre mares revoltosos. Seus temas nunca são suaves, suas palavras nunca são fáceis, seus atores nunca são colocados numa situação de conforto. O seu novo elenco, e coloca “novo” nisso, recebeu um problemão nas mãos: falar de racismo. E o espectador recebeu um problemão na vida: ouvir sobre racismo.

Apesar do racismo em si ser pouco falado enquanto texto, ele grita na atuação. Sua atriz mais experiente, com mais falas e atuação principal é negra (e linda! – e isso não é relevante, é só minha empolgação mesmo); a grande maioria do elenco é formada por crianças brancas, que estudam em uma escola particular, no centro de uma grande cidade. Fazer o seu elenco e seu público refletir o mínimo sobre o assunto, já vale a decisão de montar esse espetáculo.

Não subestime a pouca idade do elenco, algumas crias ali são ferozes, e não vejo o momento de que mais algumas horas em sala de ensaio e mais situações de apresentação, irão revelar aqueles talentos… O elenco principal precisa suar para chamar mais atenção do que a molecada, e eles suam.

O figurino vai bem, parece uma solução simples, mas não é. E o figurino sempre é uma preocupação nos espetáculos do grupo. Pegaram o tema, deram uma releitura do óbvio, bem sacado e funcional.

Como sempre, a trilha sonora é impecável e surpreendente. Com uma banda em cena, e abusando da percussão, o espetáculo fica brincando de ora confortar, ora incomodar o seu público.

Está achando que a vida é fácil? Vá ver esse espetáculo. Talvez você se arrependa… de não ter feito nada para mudar o mundo.

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Centreville

Por | Crítica, Daquilo que vi | Sem comentários

Existe um lugar-comum que diz algo como “fale sobre o seu quintal que falará sobre o mundo”, e é isso que a Cia do Nó faz com seu Centreville. O tema e o nome do espetáculo vem de uma história real: a maior ocupação realizada por populares da America Latina, com mais de 30 anos de existência, e parece que ainda está em andamento. O que era para ser um condomínio de alto custo, se tornou palco de histórias e batalhas, e hoje é considerado como bairro.

Assim como no “O Cortiço”, o espetáculo não apresenta um personagem principal. Não há um herói – e se você pensar com um pouco de calma – nem um vilão. É muito tentador dizer que a ocupação é o personagem principal, mas não é. Ela é o Leitmotiv. (quero agradecer aqui a oportunidade de utilizar essa palavra publicamente pela primeira vez).

O personagem principal, de verdade, e é tão verdade que isso fica se repetindo ao longo do texto, que está exposto em carne e ventre: é uma ideia. É um sonho concebido, numa longa gestação, esperando para nascer, ou ser abortado.
O espetáculo apresenta uma gestação onde uma célula se divide em três, depois em 100, depois em mais de 1.000. Com todos os riscos de rejeição que uma gravidez pode sofrer.

Centreville é um corpo estranho criado por um organismo autofágico.

Agora sobre o espetáculo:

Na encenação você sente as influências das teorias e práticas de nomes do Teatro que se rebelaram contra o seu sistema de governo. Tudo muito bem proposto, tudo muito bem executado. O figurino conta a sua história. Não rouba a cena e não atrapalha. Algo raro de ver.

A atuação dinâmica, com o elenco coeso, te permite assimilar todas as mudanças cênicas e temporais que o espetáculo apresenta.

Repetindo: o elenco é muito coeso e orgânico, mas eu não gostaria que você não se atentasse as atuações de Carolina Delphin, Juliano de Assis, e Levi Cintra, que venho acompanhando há alguns anos.

Quando puder, veja!