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henrikibsen

Ibsen, meu caro.

Por | Atelier de Monólogos, Chão e Calçada, Espetáculos, Novidades | Sem comentários

A gente se conhece a tanto tempo, não? Me lembro do nosso primeiro encontro. Lembro que foi um conhecido em comum, dizendo que eu deveria te conhecer. Ou por outra, um amigo em comum falava de ti, e eu pensei comigo que precisava te conhecer. Essa é a verdade. Sejamos francos um com outro como sempre fomos.

Então, Ibsen, meu velho, nunca estivemos tão próximos como agora. E olha que nem estamos assim, tão perto. Afinal eu apenas tornei minha uma história sua. Como acontece com aquelas piadas que nós contamos para alguém, sabe?
Da primeira vez a gente diz: “Tal pessoa me contou uma piada, ela é assim…”; na segunda vez já dizemos: “Ouvi uma piada uma vez, ela é assim…”; na terceira a piada já é nossa: “Eu sei uma piada que é assim…”
Não estou chamando sua história de piada, hein! Você me conhece. E sem frescura aqui entre nós.

Mas sabe queridão… acho que só você encontraria sua história aqui. Ela foi assimilada com tanto carinho, tanto amor.

É mais fácil alguém achar que é uma versão de outro nórdico. E eu não culpo quem achar isso.

Mas isso não é assunto para agora. Agora o que interessa é que aquela flor que você disse que gostou tanto uma vez, agora floresce aqui.

Floresce em São Paulo, acredita?

Iremos revela-la ao público todos os dias, por 10 dias seguidos. Sempre ao pôr-do-sol.

Pores-do-sol sempre me lembram a Áustria, e eu nunca te disse isso antes.

Talvez seja apenas mais uma homenagem secreta. Quem saberá?

Ibsen, meu amigo. Vai ser bom te ter por perto.

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Tróilo & Créssida

Por | Crítica, Daquilo que vi | Sem comentários

No filme “Eu sou a Lenda” tem algo que me incomoda muito: quando a Anna (Alice Braga) enaltece o dr. Robert (Will Smith), deixando claro (pelo menos para mim, naquela época, em 2007) que a “lenda” em questão seria o tal dr., e que ele seria o salvador da humanidade, um “herói”. Eu me lembro de como fiquei incomodado, porque eu o achava um idiota, uma pessoa sem empatia, que não percebia algo óbvio (pelo menos para mim)… Mas isso foi antes de eu entender melhor sobre as múltiplas inteligências e o filme também não me dava tempo de me aprofundar no personagem, enfim… Mas eu me lembro de que no final do filme eu fiquei com isso na cabeça: “Mas de que raios é feito um herói?” – Lembrei na hora da “Receita para se fazer um herói” cantada pelo Ira!
Fui assistir “Tróilo e Créssida” da Cia da MATILDE, e novamente saí pensando e cantando sobre a fome, sobre o ódio e sobre nosso jeito irracional.
Parece que é a primeira montagem deste texto de Shakespeare em solo nacional, só isso já vale a conferida. Mas talvez por isso mesmo, o texto era o (meu) principal alvo, aquilo que mais me chamava a atenção.
Poderia falar das influências cênicas, das soluções, da banda, da estética e funcionalidade do figurino, do sarcasmo em que eram apresentadas as piadas… deixo isso por sua conta.
A peça é uma tragédia, logo tem um herói; é de Shakespeare, logo o herói morre no fim. E quem é que morre no fim da peça? (sem spoilers – vai que você não sabe nada sobre a Guerra de Tróia) morre um herói… mas não é Tróilo. Ninguém chamaria Tróilo de herói, por quê? E porque diabos a peça se chama “Tróilo e Créssida” então?

(AGORA SIM TEM SPOILERS)
Agora sim eu entendi porque ninguém chamaria Tróilo de herói… porque ele é fraco e vulgar. Porque defende uma guerra criada pelo amor (ou pelo Orgulho), mas é incapaz de defender seu próprio amor. Falta-lhe ódio, falta-lhe fome, falta-lhe o jeito irracional.
A morte que define a tragédia do espetáculo é a do seu amor. É ele quem morre. Que é assassinado. Destituído e destruído. O amor é o verdadeiro herói trágico desse espetáculo.
E infelizmente, por ele, ninguém clamará. É triste ser um herói de Shakespeare.

(ACABOU O SPOILER)
Mas vá! E note como a atriz Isis Valente continua excelente & como o ator Caio Merseguel é digno de todos os elogios que fazem dele.
Receita Para Se Fazer Um Herói
Toma-se um homem – Feito de nada como nós
Em tamanho natural
Embebe-se-lhe a carne – De um jeito irracional
Como a fome, como o ódio
Serve-se morto.

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A minha Pequena Sereia

Por | Andersen, As Extraordinárias - Teatro de Rua | Sem comentários

Essa foto fui que tirei. Eram quase cinco da manhã, eu tinha acordado às quatro, e tinha andado muito por uma Copenhague vazia. Haviam bicicletas, flores, e toda uma cidade estrangeira para ser vista. Eu nunca tinha estado fora do país, e aquela era a primeira manhã num mundo tão distante. Debaixo dos caracóis dos meus cabelos longos, corriam pensamentos e medos. Estava próximo de ficar 15 dias trancado em Holstebro fazendo teatro das 06 às 17h, com direito a espetáculos e sorrisos e cantorias todas as noites. Estava bem próximo de estar feliz e sabia disso.

A estátua estava sozinha até eu chegar e fiquei pouco tempo. De verdade? Ela é sem graça, é pequena, é simples.
Mas, de verdade? Ela é linda! Não só pelo cuidado que o escultor teve na sua calda, e no perfil do seu tronco. Encontrei uma vez seios parecidos com os dela, que me encheram os olhos de lágrimas, eram lindos. Mas acho que essa é uma história que não cabe aqui.

Ela é linda também pela sua poesia. Por ser uma estátua que olha para o mar, que olha para o lugar que ela nunca irá voltar… Um lugar que um dia chamou de lar.

Ela e sua coragem triste. Ela e seu amor só seu. Eu não a invejo e nem a idolatro. Mas como eu a respeito!

Ela é linda porque acho maravilhoso que uma história contada por um frágil dinamarquês conseguiu se materializar. Eu tentava fazer o mesmo, tentava transformar minhas histórias em estátuas, estátuas-vivas. Tentava ser mais que um criador de histórias e cenas, tentava criar memórias. E ela estava ali, na minha frente. Quase de costas para mim. Eu não importava para ela. E isso me obrigava a pensar em mim mesmo.

Coloquei sua história nas minhas próprias peças, algumas das mais bonitas. Coloquei no Carteiro de Bonecas; coloquei no Ori-Othello (que ainda não consigo definir seu nome final); e que tentação eu sofro de colocar nesse novo trabalho. Mas acho que isso não acontecerá.

Minha Pequena Sereia me ensinou uma coisa. Uma coisa só minha e só para mim. Acho que está na hora de aprender algo mais.

Que venham então essas novas histórias e essas novas dores.

Muito prazer, sr. Andersen. Nós somos As Extraordinárias!

Nós & Andersen – um encontro extraordinário

Por | Andersen, As Extraordinárias - Teatro de Rua, Chão e Calçada | Sem comentários

Muito se conhece de Andersen, pouco se sabe sobre ele.

Não há apenas um motivo simples e direto que nos motivou a levar um pouco desse homem e um pouco sobre esse homem para as ruas.

Não é apenas o fato dele ser mais influente que os Beatles na formação da cultura popular – e não só porque ele também influenciou os Beatles, como também influenciou Walt Disney, e Shakespeare, (e convenhamos… se alguém influenciou os Beatles, Disney e Shakespeare… essa pessoa influenciou o mundo!) como influenciou diversos monarcas e chefes de Estado… Mas talvez seja para tentar entender tudo isso: “como é que um simples homem (simples, mas complexo) pode produzir uma obra tão vasta com um alcance tão extenso?”.

Não pretendemos responder nada sobre Hans Christian Andersen. Queremos conhece-lo. Queremos apresenta-lo. Queremos que nosso público se encante como crianças. Como milhares de crianças foram se encantando ao longo dos séculos. Queremos apenas ser os porta-vozes desse homem extraordinário.