was successfully added to your cart.

w

Sorrio Maravilha

Por | Crítica, Daquilo que vi | Sem comentários

Como é que se comenta uma declaração de amor?

Eu conheço um pouco o Rio de Janeiro, e o teatro que é feito por lá. Um pouco.

Já tive um grupo de teatro lá, e acredite, não é nenhum um pouco mais fácil do que em qualquer outro lugar. Nós quem moramos fora não cogitamos o peso que é fazer teatro para quem gosta de teatro, com a Globo ali, tão presente, tão palpável.

A cidade é uma bagunça! Para um paulista, virginiano, ascendente em Virgem; o Rio de Janeiro pode ser um tormento. As divisas sociais, relacionais, comerciais, e todos os “ais” são meio borradas, não muito definidas… O Rio é difícil de entender, você tem que “ir na onda” para manter a sanidade.

O carioca também não é uma pessoa fácil de se conviver – sejamos honestos, não é! – ou a gente se apaixona pelo ser, ou a gente desgosta profundamente. E ambas as coisas são muito fáceis de acontecer. Às vezes simultaneamente.

E o que dizer então, de um grupo carioca, fazendo teatro de rua, falando do seu amor, pelo Rio de Janeiro?

AsLucianas correram um risco muito grande em colocar em cena – com muito talento, muito apreço, e muito bem medido – diversas, quase uma centena, de músicas que fazem parte do imaginário nacional, e isso apenas pontuando algumas das mudanças históricas e comportamentais que a cidade sofreu e provocou nos últimos séculos. Foi uma aposta. E elas ganharam.

Aquele grupo formado por mulheres lindas e talentosas, pisou no asfalto selvagem e quente, e declarou seu amor por suaterra, sua gente, sua cultura. Com uma apropriação, que parece óbvia, mas quem conhece a realidade do fazer teatral daquela cidade, sabe que não é fácil.

De maneira honesta, elas expõem seus corações, suas memórias, seus talentos, suas belezas, e afirmam sua paixão. E quem se apaixona é você.

criatividade-e-a-inteligencia-se-divertindo

Inteligência X Criatividade

Por | Caminho do Samurai, Inteligências Múltiplas para o Ator | Um comentário

Antes de continuarmos essa conversa, acho bom lembrar que estamos falando de Inteligência e não de Criatividade

Apesar de ambas serem estritamente parecidas em suas análises, e ambas possuírem as qualidades de serem treináveis, dimensionáveis, e qualificáveis – ou seja, você pode aprender, treinar, direcionar, e avaliar tanto a sua inteligência como a sua criatividade; mas elas não são a mesma coisa.

 

Talvez seja difícil apontar se uma solução apresentada é uma resposta inteligente ou criativa, mas pensamos assim:

 

“Usar a pele de outro animal para proteger o nosso corpo no frio” é uma solução inteligente;

“Cortar e costurar essa pele em forma de uma blusa” é uma solução criativa;

“Perceber que é melhor usar a lã do animal, ao invés do seu couro, porque assim você não mata o animal, e terá lã em abundância” é uma solução inteligente.

“Usar plantas para tingir essa lã, e assim criar roupas coloridas” é uma solução criativa.

 

Outro exemplo: “Criar representações para as cores, e assim transmitir alguma ideia, ou um conceito, apenas com a sua disposição” é algo bem inteligente. Já percebeu que a bandeira dos Estados Unidos, da França, Inglaterra, Cuba, Camboja, Taiwan e Austrália possuem as mesmas cores? E que em cada caso, cada cor possui um significado diferente? A maioria dessas bandeiras possuem estrelas, na cor branca para realçar sobre as outras cores – algo inteligente, mas em cada bandeira, a estrela possui um significado diferente, bem criativo, não? Ou seja, “utilizar cores para transmitir uma ideia” é algo inteligente, agora, para “dispor essas cores em formatos que transmitam esta ideia” é necessário uma certa dose de criatividade.

 

Em suma, perceba que você conhece pessoas que são muito inteligentes, e que talvez elas não sejam tão criativas; como também você deve conhecer pessoas com uma criatividade invejável, mas que não são tão inteligentes assim…

 

Tem uma frase que eu gosto que diz assim: “Inteligentes fazem o que devem. Criativos fazem o que querem.” Pessoas inteligentes fazem o que vieram ao mundo para fazer: Buscam responder algo. Solucionam problemas, desenvolvem artefatos materiais e imateriais, aprimoram conceitos e coisas, buscam e apresentam respostas.

 

Pessoas criativas mudam as perguntas. Elas interferem no mundo. Modificam e abalam as estruturas.

 

Você pode ser inteligente & criativo. Ambas as qualidades podem ser cultivadas, treinadas e aplicadas em todas as situações.

 

Falarei mais e melhor sobre Criatividade no Caminho da Gueixa.

 

Volto a falar sobre Inteligência para o ator-samurai semana que vem.

 

Nos vemos em breve.

 

 

a bolsa

A Bolsa

Por | Crítica, Daquilo que vi | Sem comentários

Eu queria encontrar uma palavra que expressasse tudo aquilo que a Atriz (sim, com maiúsculo) Taciana Moura colocou em cena.

Eu encontrei essa aqui: “Patético”!

“Patético” significa para aqueles que não conhecem a arte da língua portuguesa: “bobo”, “sem sentido”… mas na verdade, quer dizer outra coisa:
             adj. Característica do que provoca um sentimento de piedade, tristeza; aquilo que comove ou causa compaixão; triste, emocionante.
            Que pode ser caracterizado ou que se utiliza da tristeza, da compaixão, para provocar emoção.
            s.m. Algo ou alguém que comove; que provoca ou causa sentimentos de tristeza, de compaixão.

É uma mulher em cena, dois focos, uma lanterna, uma bolsa que foi roubada, e uma alma machucada que pede apenas atenção. Não é carinho, não é reconhecimento. É atenção. É “perceba que eu existo, por favor.”

O texto começa numa direção que poderia ser bobo, o espetáculo parece ir para um lugar que não faz sentido… mas com pequenas palavras, poucos gestos, algumas vírgulas, e alguns olhares, e pronto! Estamos naquele ambiente do Pathos (origem da palavra “patético”, conceito que ambivale “sofrimento” e “amor”).

O espetáculo é uma tragédia, no sentido aristotélico da coisa, que fez a todos sentir Terror e Piedade.

Foi um prazer aplaudir de pé essa mulher, e sua obra patética.

seminaristas

Os Seminaristas

Por | Crítica, Daquilo que vi | Sem comentários

O que pode chamar mais a atenção do que um sussurro? Um sussurro faz você querer aumentar sua capacidade auditiva, faz você parar de fazer outras coisas, faz você prestar atenção.

O que pode ser mais cúmplice que um segredo? Um segredo é o acordo tácito mais frágil do mundo, e exige que você seja forte para mantê-lo em sua condição.

O que pode ser mais forte que o amor? Nada que eu conheça.

E o que faz um grupo de teatro apresentar novamente uma peça que havia sido estreada há 20 anos, com o mesmo elenco? Que forças, que tormentos, que necessidades existem no mundo, e nos Homens, para que isso aconteça?

São muitas perguntas, e as respostas são descobertas individuais. Os Seminaristas é um espetáculo que é calmo, é sutil, pausado… como aquele momento antes da tormenta. A atuação comedida dos atores, o registro vocal baixo, os pequenos detalhes reconhecidos apenas por quem conhece os ritos católicos de forma profunda, tudo isso embala uma história de amor entre dois homens, homens que vão se negando fisicamente, enquanto os pensamentos vão ultrapassando as palavras, os gestos… até culminar na ação corpórea de um abraço rasgado de amor.

Ah, o amor… essa tormenta.

O espetáculo é a preparação para uma mudança, que deve reverberar no íntimo de cada espectador, logo após as luzes apagarem, logo após o suor, saliva, e pele, daqueles dois homens, se unirem, se chocarem, como elétrons, em uma tempestade.

palha_assada_adalmir_miranda

Palha Assada

Por | Crítica, Daquilo que vi | Sem comentários

Eu não sei por que eu ria. Mas eu ria. Muito. E era apenas um palhaço mal ajambrado, travestido, dublando Jane e Herondy em rotação 45.
Eu não sabia que era possível. Mas eu vi uma palhaça fazendo dançar seus enormes seios de bexiga, e fazendo pessoas tendo câimbras na barriga de tanta risada.

O espetáculo nasceu de uma oficina, e o elenco é formado por pessoas que não queriam parar de aprender e treinar. O melhor tipo de pessoas.

A apresentação sofreu um pouco com a iluminação que não acendeu. Mas o público não estava nem aí. Eles queriam motivos para aplaudir, e foi o que tiveram.

Eu vi crianças gritando, querendo mais; eu vi garotas suspirando, e finalmente entendi o tal “palhaço é ladrão de mulher”; eu vi uma das despedidas mais tristes que alguém pode dar para si mesmo; eu vi uma das mulheres mais elegantes e bonitas que já conheci na minha vida, ficar feia, pavorosa, e as pessoas acharem ela “fofa”.

Eu não sei muita coisa… Mas o que eu sei é que um grupo de palhaços de Teresina/PI conseguiu fazer coisas que se eu te contar você não acreditaria: como fazer os olhos de uma plateia inteira se encherem de lágrimas, com apenas uma chuva de bolinhas.

inteligencia

O TREINAMENTO SAPIENTE

Por | Caminho do Samurai, Inteligências Múltiplas para o Ator | Sem comentários

Eu sou devoto do pensamento de que o ator deve saber o que está fazendo, ou pelo menos, o “por que”. Existem perguntas que talvez não tenham respostas fáceis, e existem respostas que talvez não satisfaçam. Calma. Na dúvida, respire, e faça.

Uma das qualidades do ator-samurai é a sua inteligência. Ou melhor, é como ele reconhece, treina, amplia, e desenvolve sua inteligência. Ou melhor ainda, suas inteligências.

Mas o que é ser inteligente? Ou ainda, o que é Inteligência?

Podemos tentar definir inteligência assim: capacidade de entender, compreender e conhecer; capacidade de imaginar e criar soluções e ferramentas, resolver problemas, de se adaptar, ou de adaptar o ambiente a sua vontade ou necessidade.

Ou seja, algo pouco aproveitado no ambiente escolar e acadêmico – tidos como referência para designar se alguém é, ou não, inteligente. O importante é saber que não é a sua nota na prova, sua classificação no ENEM, ou sua avaliação num teste de QI, que irá definir se você é, ou não, inteligente.

Mas o que foi dito antes ainda não é suficiente para podermos conversar com um ator-samurai sobre Inteligência, então vamos colocar assim:

*Inteligência é capaz de ser simbolizada. Você pode criar representações de uma ideia, ou de uma experiência. Pode utilizar números, letras (que são representações gráficas de algo abstrato), imagens, notas musicais, gestos sociais, expressões corporais e vocais, ou seja, uma série de ferramentas que permitem a codificação e a decodificação de tudo que já foi imaginado, sentido, e criado pela espécie humana.

*Inteligência se desenvolve. Existe o desenvolvimento físico do corpo humano, que após o nascimento podemos dividir em 04 grandes fases: Infância, Adolescência, Adulta e Velhice. Assim como também existe os desenvolvimentos psicológicos, que quando dissociados de sua contraparte física, logo percebemos, pois espera-se que um adulto aja como adulto, e não como criança, por exemplo. E também existe o desenvolvimento da Inteligência, que possui variações ao longo da vida. A saber: pouquíssimas descobertas matemáticas relevantes na história aconteceram depois dos 40 anos de alguém, diferente de grandes obras da literatura, por exemplo.

*Inteligência pode ser danificada. Doenças e acidentes podem estagnar, ou anular, o desenvolvimento cognitivo, ou a capacidade intelectual de alguém. Lesões físicas ou motoras podem modificar a vida, a rotina, das pessoas; mas são condições que podem ser superadas por objetos e técnicas que são criados constantemente. Lesões cerebrais podem danificar a capacidade da fala, ou a memória, ou o raciocínio, de forma permanente.

*Inteligência possui reconhecimento cultural. O grau de complexidade musical de algumas tribos da Nigéria pode ser equivalente ás grandes criações dos mestres austríacos, mas em alguma comunidade periférica de uma grande cidade brasileira, ambas não tem valor nenhum. O poder de abstração de um jovem asiático pode ser maior que o de um engenheiro americano da NASA, mas ambos morreriam de fome no Himalaia sem a ajuda de qualquer criança pastora de lá.

Ok, mas o que essas informações interessam para o ator?

Eu te conto na semana que vem. Até lá!

Drummond

Drummond 4 Tempos

Por | Crítica, Daquilo que vi | Sem comentários

Eu não sei o que é mais importante, ou mais interessante, ou mais necessário que se conheça: o espetáculo, a Cia Novo Ato, ou os artistas que criaram, encenaram, produziram, ou seja, que persistem com seu talento e suor nessa… missão? vocação? Porque ofício, profissão, é pouco para designar. Admitindo minha incapacidade de fazer jus a qualquer um dos temas, vou tentar falar o que puder:

O espetáculo: O conceito é nada novo: poesias do Drummond em cena. Desde que elegeram esse funcionário público como um dos escritores que deveria ser estudado para entrar em faculdades, faz-se isso. Mas aquilo que a Cia Novo Ato coloca em cena é outra coisa. Ou até hoje eu nunca tinha entendido Drummond (nem eu, nem Nelson Rodrigues que o considerava um chato pedante), ou essa companhia goiana resolveu dar sua versão do que é Arte. Sou mais pela segunda hipótese. A estética, as personagens, a atuação, tudo, permite uma leitura “modernista” – como as propostas de Mario e Oswald de Andrade; em cena vemos as dialéticas de suas escritas, que podem ser nomeadas “Eu maior que o mundo”, “Eu menor que o mundo”, e “Eu igual ao mundo”. A ironia, as questões sociais, e a metafísica lírica, presentes na obra desse autor mineiro, ali, encarnadas com técnica e excelência.

A companhia: O núcleo da Cia é composto por Marília Ribeiro: atriz e dramaturga, e Luiz Cláudio ator e diretor. Existe uma dica que eu falo para todos os meus alunos: “descubra aquilo no que você é bom, e faça; Aquilo que você não é bom, chame outra pessoa para fazer”. Esse casal segue isso a risca, e não é a toa que conseguiram alcançar o patamar onde se encontram.

Os artistas: Além deste espetáculo eles possuem diversos outros em repertório, a maioria de autoria de Marília Ribeiro, uma dramaturga que o mundo precisa conhecer. Eu não citei Nelson Rodrigues à toa, mas nem pense em tragédias cariocas, ou n’A Vida Como Ela É… pense na psique feminina exposta, como uma fratura, daquelas que dói sentir, e que viramos o rosto para não olhar. E o trabalho do diretor, quem é diretor sabe: a gente nunca é aplaudido. Pelo menos não o suficiente. O trabalho dele é daqueles que você não vê, daqueles que permite que a plateia seja arrebatada pela força da atriz. E que atriz! E que dupla!

Eu sugiro que você conheça mais sobre eles, é o que gostaria de fazer.