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“Não perca o foco, não perca a deixa, não perca a fala. Tanto na vida como na cena.”

Por | Artigos, Manifesto | Sem comentários

Atores e atrizes são atores e atrizes o tempo todo. Ser ator não é algo que se “desliga” – você nunca “está” ator, você “é” ator – e assim, sua ética, sua poética, seu aprendizado e treinamento, te acompanha dentro e fora da sala de ensaio, dentro e fora do palco.

Depois que você fez algum curso, alguma iniciação, e decidiu fazer dessa realidade a sua profissão, e não um hobby – Profissão vem do latim professio e significa professar publicamente: Uma confissão pública de um labor que você diz ter domínio e ter se especializado para sua execução. Quando você assume publicamente que faz Teatro, você assume o Teatro em você para o mundo. Isto significa que você não pode deixar de assumir o Teatro em você, para você mesmo.

Temos o mundo inteiro como um grande laboratório teatral. O trajeto da nossa casa até a sala de ensaio pode estar repleto de opções de treinamento e prática. O tempo todo e em todo lugar podemos criar um momento para nos conhecer melhor, e nos aprimorar, para ter um melhor resultado em cena. Sempre podemos encontrar um jeito de evoluir em nossa arte. Da mesma forma que sempre encontramos uma situação que podemos ser seres humanos melhores.

Assumir o Teatro em você, te permite tratar a vida como algo a ser experienciado, te permite ser o protagonista do seu cotidiano – e não apenas um passageiro, alguém que é simplesmente carregado pelos acontecimentos. Ser ator é ser atuante. É ser guerreiro e servidor.

A prática de nossa arte guerreira e servil nos torna aptos a reconhecer poesia, dança, personagens, cenas, nuances, onde a grande maioria das pessoas veem apenas fatos e coisas; a preparação física que passamos nos torna mais resistentes e flexíveis, nos protegendo tanto contra desgastes físicos da vida ordinária, como também dos desgastes mentais que podemos sofrer durante os debates com pessoas ordinárias. O nosso treinamento mental, nossos exercícios de memorização e atenção, nossa prática de coexistência – que nos ensina a ver e ouvir o outro, livre de opiniões preconceituadas, nossas revelações emocionais, nossas fragilidades assumidas, assimiladas, e expostas, se transformam em nossas táticas diárias de defesa e ataque.

Fazer teatro é sentir-se vivo. Ser ator é vivenciar a vida. Estar em cena é manifestar a Vida.

Dizemos que um ator nunca está formado, pois todo dia ele aprende algo, ele exercita algo, ele pode (e deve) colocar em função de seu ofício, cada dia, aquilo que lhe então, agora é novo. O ator sempre se renova, e sua arte é sempre nova. Ofício vem do latim Officiu: atividade que envolve a sociedade como um todo. A prática de seu officiu (Ofiiciis), significa: o dever de uma obrigação cumprida.

Ouvimos que o teatro está morrendo. É verdade. Na verdade, o teatro morre toda noite; E todo dia ele renasce. A cada minuto, a cada respiração sua, o teatro se fortalece. Ele vibra dentro de você, e isso contagia a sociedade como um todo.

Lembre-se que nosso corpo é formado em sua maior parte por água. Uma das funções do ator é aprender a locomover essa grande massa de água da melhor maneira possível. Aprender suas capacidades e ampliar os seus limites. Descobrir como e quando sermos firmes, capazes de perfurar a rocha; como e quando sermos flexíveis, e contornar os desafios; como e quando sermos translúcidos, e reflexivos, fazendo o mundo brilhar em nossa ótica… Nossas capacidades são infinitas.

Tenha orgulho de sua arte, e a manifeste todos os dias.

insubmissas

Insubmissas

Por | Daquilo que vi | Sem comentários

Pouco mais de 1500 anos antes de ser aceita como verdade, Eratóstenes já dizia que a Terra era redonda. Quase 1000 anos de existir a Língua Portuguesa, Aristófanes inventou a vírgula, os “dois pontos”, o ponto final, e tudo isto que chamamos de pontuação na escrita. Há pouco mais 1500 anos, antes de faltar água em São Paulo, Hipátia tinha inventado o Hidrômetro. A grande invenção da Revolução Industrial, que modificou o mundo durante o Sec. XIX, o Motor a Vapor, já existia há mais de 1600 anos. Todas essas informações foram queimadas, destruídas, por cristãos ensandecidos. Todas essas informações estavam na Biblioteca de Alexandria.

O espetáculo Insubmissas não conta a história da Biblioteca, nem desses homens, mas apresenta esta mulher: Hipátia – o autor mudou para Hipácia, por achar melhor. O espetáculo apresenta esta, e outras mulheres, famosas desconhecidas. Importantes. Essenciais. Desprezadas pela história.

Por uma questão pessoal, eu preferiria um espetáculo somente sobre Marie Curie – a mulher que te salvou de um câncer toda vez que você tirou uma chapa de Raio X; ou sobre Hipátia. Na verdade, nos tempos presentes, a história de Hipatia é necessária. Num momento onde os homens jogam ácidos em suas esposas e filhas, onde é dito que algumas mulheres nem merecem ser estrupadas, onde esses homens ganham votos, também de mulheres… A história de Hipátia, que também foi violentada – mas a peça não conta, merece um espetáculo à parte.

Mesmo não dando conta de tudo que poderia falar, mesmo em suas quase 02 horas de espetáculo, mesmo não aceitando cartão de débito ou crédito, numa cidade como São Paulo, mesmo não entendendo para que serve aquele cenário, e o que aquela Voz quer daquelas mulheres… Insubmissas vale seu esforço. Não somente por falar de um tema que você não viu na escola, ou por apresentar mulheres que não constam nem na lista dos 10 mais belos experimentos científicos da história… Insubmissas vale que você enfrente o seu preconceito contra o Teatro, e o seu medo de sair a noite nessa cidade onívora.

Vale ver o elenco do espetáculo, vale ver um punhado de mulheres defendendo outras. Mulheres que tentaram salvar o mundo da ignorância.

Os arquétipos femininos apresentam uma série de “opções” – digamos assim – e não há nomenclatura para aquelas personagens que se levantam do pó diante de nós. E isso é um sofrimento. As personagens em cena sofrem. E riem disso.

Vale a pena ver isso.

Serviço:

Insubmissas
Local: Teatro Ágora
Sexta e sábado: 21h
Domingo: 19h.

Entrevista

Um artista inquieto sem medo de desafio

Por | Artigos, Notícias, Novidades, Projeto Social | Sem comentários

 

Fui entrevistado para o Guia da Cidade, de São Bernardo do Campo.

Cortaram algumas coisas… mas o resultado foi bacana.

 

De 1992, quando começou a fazer teatro, para cá, Ronaldo Ventura busca desvendar os mistérios da mímica, do circo, das danças tradicionais brasileiras. Estudou teatro clássico japonês e mergulhou no universo de mestres como Grotowski, Eugênio Barba e Luis Otávio Burnier. Neste mês, dois espetáculos encenados nos palcos da cidade têm, nos créditos, o nome deste ator, diretor, dramaturgo e escritor, que mora no bairro Paulicéia.

Guia da Cidade: Como sua formação em Educação Física ajuda a ser ator e diretor?

Ronaldo Ventura: A Educação Física estuda o corpo humano, suas possibilidades de movimento, suas potencialidades… E meu teatro sempre foi baseado no que o corpo do intérprete produz e representa. Enquanto ator, aprendi como dispor do meu corpo de uma maneira mais eficiente. Enquanto diretor, aprendi com a Educação Física como ajudar o ator a alcançar sua eficácia.

Há ligação entre a peça Bendita entre as mulheres e o projeto do grupo Teatro dos 108 Desejos?

Ronaldo Ventura: Há a ligação ideológica, que é combater a ignorância. As atrizes do Bendita entre as mulheres, a Ana Claudia Lima e Stela Ramos, me chamaram para participar do projeto porque conheciam o meu trabalho com o Teatro dos 108 Desejos. Juntos, fizemos um espetáculo bem bonito, que descreve a história real da primeira mulher condenada por amar outra mulher. Um tema urgente nos dias de hoje.

Ori Othello é uma adaptação da obra de Willian Shakespeare. Qual é o diferencial do espetáculo?

Ronaldo Ventura: O grande diferencial foi a pesquisa em cima da corporeidade da dança afro. O elenco se apropriou da dança afro para criar as ações dos personagens, isso criou uma movimentação dinâmica, rítmica e ativa.

Qual é o objetivo da dança dos Orixás? Qual é a relação com o espetáculo?

Ronaldo Ventura: A dança dos Orixás é uma dança mítica e mística. Mítica porque suas movimentações contam histórias. Os dramas e o cotidiano dos Orixás estão representados em sua dança. Mística porque sua psique, sua ética, suas potencias também estão presentes naqueles passos de dança. E isso gera uma força cênica e uma plástica que amplia e muito a presença do ator. Não foi uma questão religiosa, mas uma questão estética. Claro que tratada com todo o respeito que todas as crenças merecem.

De um passado recente para cá, toda vez que se fala sobre a produção cultural na cidade o nome do bairro Paulicéia vem à tona. Qual a importância do bairro neste contexto.

Ronaldo Ventura: A Paulicéia foi o maior berço cultural de São Bernardo do Campo numa época em que a cidade era um grande celeiro de arte e cultura. A Paulicéia formou artistas em todas as linguagens, muitos premiados internacionalmente. Lá, ainda moram dramaturgos de renome nacional, autores publicados, grandes nomes do balé nacional foram alunos da saudosa Miti Warangae, na Paulicéia; artistas plásticos como Sarro e Mikio, também produziram muitas de suas obras no bairro. Quando o Teatro Procópio Ferreira estava aberto, o bairro produzia sua própria agenda, e ocupava o espaço o ano todo. Juntos (Teatro Procópio Ferreira, Biblioteca Érico Veríssimo e CREC), promoviam um evento anual que se chamava “Desvairando a Paulicéia” que duravam dias, com apresentação de poetas, bandas, exposição de artes, de colecionadores de vinil, de selos, espetáculos de teatro, de dança…

O bairro tinha 21 grupos de teatro, vou repetir porque é inacreditável mesmo: 21 grupos de teatro, 8 grupos de dança (incluindo balé, sapateado, dança Moderna, sem contar os grupos das escolas de balé do bairro), 5 grafiteiros trabalhando profissionalmente, 2 corais cênicos, 19 bandas de rock… E nem vou falar do esporte, dos times de bocha que foram campeões algumas vezes, representando a cidade; no bairro havia uma sala que grupos de Capoeira Angola e Regional dividiam o mesmo espaço, sem conflito, algo único. Sem contar os encontros para a prática de Yoga, Liam Gong, Tai Chi Chuan, Gatebol, que aconteciam gratuitamente, por estímulo dos próprios moradores, e tudo isso num bairro afastado do Centro.

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O Teatro é a última trincheira da humanidade. Defenda-o.

Por | Artigos, Manifesto | Sem comentários

Diante de um oponente maior, ou de uma derrota iminente; ou você se rende ou foge; ou você é morto; ou você dinamiza aquilo que nos torna humanos, nosso “ser” e “fazer”, desperta suas potências, e cria um momento e um espaço para respirar, concentrar suas forças, planejar os próximos movimentos, propor os contra-ataques, vislumbrar uma situação melhor… Você faz uma trincheira.

Fazer trincheiras, apesar de serem bastante simples em termos de engenharia e tecnologia, é algo que possibilita tanto a defesa quanto o ataque; é manifestar sua existência, é expressar a sua recusa em aceitar alguma inferioridade que lhe está sendo imposta.

Nós fazemos teatro. E nos impomos. Manifestamos nossa existência perante nossos oponentes que parecem maiores, perante nossas derrotas que parecem inevitáveis. Lutamos cada dia, para apresentar o que há de humano para a própria humanidade. Enfrentamos conceitos, enfrentamos abstrações, enfrentamos razões irracionais, enfrentamos a subsistência, enfrentamos o descaso. E mesmo assim, nós fazemos teatro.

Nossos inimigos são perigosos porque se parecem conosco. Eles são falhos como nós somos, e acreditam que estão certos, do alto de sua iminente vitória, nos desprezam, a nós e o nosso ato de criar espetáculos, nossos ensaios, nossos coletivos, nossas redes e tramas… desprezam nosso ato de coragem. Mas nós temos uma vantagem: Nós fazemos teatro!

O teatro é a resposta dos fracos.

Aqueles que precisam pensar e agir. Aqueles que se esforçam para alcançar suas metas. Aqueles que precisam se unir para sobreviver. Aqueles que às vezes são obrigados a parecerem estáticos, enquanto se movimentam fora do alcance da visão, enquanto planejam, enquanto concentram suas forças.

O teatro é a resposta dos corajosos.

Aqueles que não se calam. Aqueles que não se submetem. Aqueles que olham para o gigante e não dizem “não temos como derrubá-lo”, mas pensam “não tem como não acertá-lo”.

O teatro é a resposta dos audazes. Dos que ousam. Dos impertinentes.

O Teatro é um ato de resistência, insistência e persistência.

É rebeldia. É proteger o que há de mais frágil e atacar onde é mais frágil. É ser humano diante de outro ser humano. É cavar trincheiras.