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Cacá Carvalho - doendo e incomodando.

2 x 2 = 5

Por | Daquilo que vi | Sem comentários

Uma lagarta. Um ser flácido, com dobras, com gemidos, com a aparência asquerosa e palavras desagradáveis; é assim que o novo personagem de Cacá Carvalho se mostra pela primeira vez. Ele quer algo mais do que ser odiado, ele quer sua repulsa. Ele quer que você contemple sua eloquência e sua lógica, e sinta desgosto. Pois é o máximo que ele sabe que pode esperar… Ele sabe que você nunca o amaria. O personagem se revela para nós em três encontros. No primeiro é com um convidado inesperado para um jantar. Neste, ele expõe suas conclusões, e você percebe o proto-punk, o proto-Sartre, o proto-Beat, o proto-zoário que mora ali, bem no meio dos seus rins. Ele é como um dente que nasce no céu da boca, inútil, que lhe obriga a percebê-lo, que lhe escancara sua consciência pelo simples prazer de doer. Ele quer doer. E ele consegue isso.

No segundo encontro, conhecemos um pouco do passado. Minto. Não conhecemos, reconhecemos nossa miséria. E nosso desejo de vingança, o “espírito do Cobrador” do Ruben Fonseca – quando este ainda era um escritor e não só um bom velhinho. – O mundo se revela um espelho, e qualquer um que reconhece um espelho, não gosta do que vê. Os que gostam não se reconhecem, refletem apenas aquilo que esperam que os outros vejam. Ele esperava que os outros vissem aquilo que não era. Mas ele era. E continuaria sendo até o fim. O que nos leva para o terceiro encontro.

No terceiro encontro, conhecemos (lembramos?) um jovem e linda (para mim, todas são lindas, me julgue.) russa. Com seu destino explícito nas paredes que a cercam, nos lençóis que se deita, nas roupas que despe. Sua Linha-da-Vida está cicatrizada na sua cara, coberta de maquiagem, e olhos lânguidos, e uma esperança que Cacá Carvalho insiste em destruir. É uma pequena vitória. Tão válida quanto chutar cachorro morto. Mas a vida, a cidade, a consciência, ganham. O personagem gostaria de ser amado. Mas ele nunca pediria isso. Então ele pede que você tenha um pouco de dignidade e saia, deixando-o sozinho. Porque ele nunca terá essa dignidade. E ele nunca estará sozinho. Ele sempre será a própria sua pior companhia.

potencia1

Se você puder não fazer Teatro, não faça. Mas se você não tem outra opção… Por que a dúvida?

Por | Artigos, Manifesto | Sem comentários

Todos nós, quando percebemos que existe diferença entre brincar e fazer teatro, somos tomados pela mesma dúvida: Eu quero mesmo fazer teatro?

Ser ator é vocação; é exigência; é disponibilidade plena. É entregar nossas preciosidades a alguém que talvez não aceite, ou não entenda – mas isso não importa, porque insistiremos nesse ato até o fim. Porque ele é importante. É importante para nós.

Quando alguém me pede uma opinião, ou me pergunta em algum debate, se eu tenho uma boa sugestão para quem está pensando em começar a fazer teatro, eu sempre respondo que sim: “Não faça!

Se você está pensando em fazer teatro, quer dizer que está decidindo entre várias opções. Quem decide fazer teatro, não tem opção.

Se você perguntar para uma pessoa que tem o teatro como parte indissociável de sua vida, como foi que ela decidiu fazer teatro, é bem capaz que ela não saiba responder. Porque foi orgânico, foi natural. Fazer teatro faz parte de nossa natureza.

E lutar contra nossa natureza só machuca a nós mesmos.

Quando entramos numa sala de ensaio pela primeira vez, e ficamos descalços sem saber por que, quando damos as mãos e formamos aquela roda junto com alguns desconhecidos… quando começamos a jogar bolinhas, a correr atrás do outros, a repetir e decorar nomes de nossos companheiros… nós não fazemos ideia que aquilo que parecia apenas um momento divertido, iria invadir tão profundamente a nossa alma.

Possivelmente precisamos até nos afastar para perceber a falta que tudo isso nos faz. E as vezes nos afastamos. “Damos um tempo”. Quem é do teatro nunca para de fazer teatro, “dá um tempo”.

O teatro parece um ser vivo que habita em nós, com fome, que exige atenção; e quando nos afastamos por algum período, ele parece hibernar; mas de repente, esse ser, esse bicho adormecido, acorda, e começa a nos devorar por dentro, obrigando a gente a voltar a ensaiar, a voltar ficar descalço, formar uma roda com pessoas como nós… Aí você não se pergunta mais se quer fazer teatro ou não; porque você já sabe a resposta.

Não. Você não quer. Você precisa!

Você precisa daquele diretor amigo, ou não; bravo, ou não; engraçado, ou não. Precisa daquelas pessoas que te conhecem, ou não; que te admiram, ou não; e não importa, porque você não está lá para ser engraçado, conhecido ou admirado… sua necessidade de estar lá existe porque você sabe que precisa estar ali. Com aquelas pessoas que confiam em você. Com aquelas pessoas que também precisam de você. Teatro é comunhão.

Quando decidimos – e aceitamos – fazer teatro, não sentimos solidão – mesmo estando sozinhos. Nós sentimos solitude.

Solidão é um sentimento de abandono, de inutilidade, e trás, ou surge de, uma necessidade de companhia. E podemos viver essa situação mesmo cercado por pessoas que nos amam. Solitude é um estado em que estamos sós, recolhidos, mas repletos de satisfação. Porque estamos em paz com a gente mesmo.

E acredito que é isso que nos motiva a entrar para o teatro, ou escolher o teatro, ou a voltar para o teatro… Porque queremos estar em paz com a gente mesmo.

trotski

Do que vi

Por | Crítica | Sem comentários

E eu tive o prazer de ver o espetáculo TROTSKY – Peça para televisores e não televisores; onde todos nós eramos televisores.

Vou tentar evitar falar das questões ideológicas… não cabem aqui porque não geram debate estético – artístico, mas será bastante difícil, visto o tema, e (porque não?) a estética da peça.

O espetáculo em si, é bastante vigoroso, dinâmico, irônico – algo próprio dos escritos de Marx, mas não próprios dos marxistas (opa, eu não disse que não ia falar sobre ideologia?). (Mas isso é entendível, afinal, Marx nunca foi marxista).

Tem uma banda em cena! Em cena! E não fazendo trilha sonora! E não atuando junto! Tem uns 10 televisores em cena! E não “apenas” sendo cenário. Tem dois atores fazendo muito bem o seu trabalho. Tem um (bom) texto que (não) cumpre o seu trabalho (?). E tudo isso faz de TROTSKY um bom espetáculo.

Tudo é bem montado e bem feito. Eu só senti falta de uma proposta melhor para a árvore onde TROTSKY foi/deveria ter sido encontrado enforcado, caso não tivesse sido picaretado pelos marxistas picaretas – lê-se “todos aqueles que seguem uma política, ideologia, religião, movimento popular, social, cultural, baseado em ideias de uma pessoa, mas que nunca leram o que a pessoa falou/escreveu”.

Tanto o texto quanto o espetáculo, me lembrou as obras de Stewart Home, posso estar enganado, mas a obra em si poderia estar ipsis literis dentro do Manifesto Neoista, o divertido (da obra, do público, de tudo)(, é que todos podem estar enganados). – eu até procurei os meus livros dele para enviar para o elenco, mas não os encontro.

Poderia ter mais Vendler em cena – o Zeno, não a Helen. Mas é uma sugestão de quem gostou do que viu.

E como não gostar, depois de ver e ouvir uma série de questões – não respostas – de cunho marxistas, ganhar uma cerveja, suco capitalista de milho, da Ambev, ou melhor AB Inbev, a maior cervejaria do mundo, para refrescar e estimular o debate.

Resumo, se puder ver, (cer)veja.

Se você puder não fazer Teatro, não faça. Mas se você não tem outra opção… Por que a dúvida?

Por | Artigos, Manifesto | Sem comentários

Todos nós, quando percebemos que existe diferença entre brincar e fazer teatro, somos tomados pela mesma dúvida: Eu quero mesmo fazer teatro?

Ser ator é vocação; é exigência; é disponibilidade plena. É entregar nossas preciosidades a alguém que talvez não aceite, ou não entenda – mas isso não importa, porque insistiremos nesse ato até o fim. Porque ele é importante. É importante para nós.

Quando alguém me pede uma opinião, ou me pergunta em algum debate, se eu tenho uma boa sugestão para quem está pensando em começar a fazer teatro, eu sempre respondo que sim: “Não faça!

Se você está pensando em fazer teatro, quer dizer que está decidindo entre várias opções. Quem decide fazer teatro, não tem opção.

Se você perguntar para uma pessoa que tem o teatro como parte indissociável de sua vida, como foi que ela decidiu fazer teatro, é bem capaz que ela não saiba responder. Porque foi orgânico, foi natural. Fazer teatro faz parte de nossa natureza.

E lutar contra nossa natureza só machuca a nós mesmos.

Quando entramos numa sala de ensaio pela primeira vez, e ficamos descalços sem saber por que, quando damos as mãos e formamos aquela roda junto com alguns desconhecidos… quando começamos a jogar bolinhas, a correr atrás do outros, a repetir e decorar nomes de nossos companheiros… nós não fazemos ideia que aquilo que parecia apenas um momento divertido, iria invadir tão profundamente a nossa alma.

Possivelmente precisamos até nos afastar para perceber a falta que tudo isso nos faz. E as vezes nos afastamos. “Damos um tempo”. Quem é do teatro nunca para de fazer teatro, “dá um tempo”.

O teatro parece um ser vivo que habita em nós, com fome, que exige atenção; e quando nos afastamos por algum período, ele parece hibernar; mas de repente, esse ser, esse bicho adormecido, acorda, e começa a nos devorar por dentro, obrigando a gente a voltar a ensaiar, a voltar ficar descalço, formar uma roda com pessoas como nós… Aí você não se pergunta mais se quer fazer teatro ou não; porque você já sabe a resposta.

Não. Você não quer. Você precisa!

Você precisa daquele diretor amigo, ou não; bravo, ou não; engraçado, ou não. Precisa daquelas pessoas que te conhecem, ou não; que te admiram, ou não; e não importa, porque você não está lá para ser engraçado, conhecido ou admirado… sua necessidade de estar lá existe porque você sabe que precisa estar ali. Com aquelas pessoas que confiam em você. Com aquelas pessoas que também precisam de você. Teatro é comunhão.

Quando decidimos – e aceitamos – fazer teatro, não sentimos solidão – mesmo estando sozinhos. Nós sentimos solitude.

Solidão é um sentimento de abandono, de inutilidade, e trás, ou surge de, uma necessidade de companhia. E podemos viver essa situação mesmo cercado por pessoas que nos amam. Solitude é um estado em que estamos sós, recolhidos, mas repletos de satisfação. Porque estamos em paz com a gente mesmo.

E acredito que é isso que nos motiva a entrar para o teatro, ou escolher o teatro, ou a voltar para o teatro… Porque queremos estar em paz com a gente mesmo.